Análise Teológica da Corporalidade Divina
Marcelo Victor R. Nascimento
As Escrituras Sagradas são claras em revelar, de forma progressiva, um Deus capaz de manifestar-se simultaneamente de forma distintas, possuindo as seguintes
características: (1) Um ser onipresente que transcende os limites da razão
humana [Jó 11:8-9; Salmo 139]; (2) Um ser personificado [imanente], i.e.,
possuidor de um corpo espiritual, com o qual assenta-se sobre um trono e
preside a assembleia celestial [Salmo 82:1; Isaías 6:1]; e (3) Um ser capaz de fazer-se plenamente homem no ventre de uma mulher, para vir, Ele
próprio, salvar a humanidade de seus pecados [Isaías 7:14; Ezequiel 34:11-12; João
1:14; 1 Timóteo 3:16].
Portanto, a Teologia Unicista rejeita a
abstração metafísica grega de um deus mitológico, com uma "substância"
tripartida, em favor de um Ser indivisível
que, embora transcendente, resolveu, por infinito amor, revelar-Se de forma pessoal e visível, tanto para os
homens como para os anjos.
Segue uma análise teológica da corporalidade divina.
1. A Pessoalidade e a Forma de
Deus
A espiritualidade de Deus não
anula Sua forma, um conceito essencial para entender a encarnação divina.
- O "Corpo Espiritual": a teologia unicista apega-se
à veracidade das informações bíblicas sobre a forma visível de Deus,
reportada pelos profetas do passado, sem apoiar as supostas teofanias do
VT, visto que somente nestes últimos tempos Deus nos falou pelo Filho
[Hebreus 1:2], até porque, antes de assumir a forma humana, “nenhum
homem viu a Deus”, [João 1.18, João 5.37, João 6.46, 1 Timóteo
6.16 e 1 João 4.12].
- Antropomorfismo vs. Realidade: enquanto a
teologia tradicional trata "boca", "pés"
e "rosto" de Deus apenas como figuras de linguagem [antropomorfismos],
o Unicismo sugere uma realidade ontológica, i.e., a visão bíblica
literal acerca da natureza e existência de Deus, independentemente da percepção
ou conhecimento humanos. O unicista concorda que, se o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus [Gênesis 1:26], a forma humana não é acidental, mas baseada no
modelo do próprio Deus manifestado.
2. A Unidade Contra a
Despersonificação
A tentativa de
"despersonificar" Deus é claramente uma manobra para defender dogmas
religiosos.
- Crítica ao Dogma Trinitário: na visão
unicista, a divisão de Deus em três "pessoas" distintas acaba diluindo a pessoalidade de Deus em abstrações filosóficas, distantes das verdades bíblicas.
- Deus é Um: a visão do trono de Deus por Isaías,
Daniel e Ezequiel prova que não há uma pluralidade de pessoas divinas
coexistindo, mas um único Deus que, na Sua imanência, possui uma face e
uma voz.
3. A Manifestação da Palavra e
do Rosto
As Escrituras Sagradas estão recheadas
de passagens que falam sobre a “boca" e o "rosto"
de Deus.
- A Palavra [Logos]: par o Unicismo, a "Palavra
que sai da boca [de Deus]" (Isaías 55:11) não é uma segunda pessoa
eterna, mas a própria expressão e poder do Deus único em ação.
- Jesus como a Face de Deus: mediante a
descrição de Jesus glorificado [Apocalipse 1:13-16], diferente da Sua
forma terrena, o Unicismo não condena o sentido figurado de determinados
textos bíblicos, como é o caso de 2 Coríntios 4:6, que diz que a glória de
Deus brilha "na face de Jesus Cristo".
4. A Analogia com os Anjos
A citação do "corpo celeste" dos anjos serve para validar o fato de que a natureza espiritual não é
sinônimo de "vazio" ou "inexistência de forma".
- Conclusão Unicista: se os anjos [espíritos]
possuem forma e Deus é o Pai dos espíritos, logo, é perfeitamente lógico que
Ele possua uma forma gloriosa. O unicismo ensina que Deus, sendo invisível
em Sua essência espiritual absoluta [na Sua transcendência], quis
revelar-se de forma imanente, fazendo-o de duas maneiras distintas e
simultânea [quando o verbo se fez carne]: (1) Assentado em um trono: para
os anjos; e (2) Como um homem perfeito: para os seres humanos.
5. A Unidade entre Espírito, Palavra e Vida
A associação entre a Palavra de Deus, como "água viva", e o Espírito Santo [Salmos 36.9, João 4.10;24; João 6.63] reforça a visão unicista das manifestações distintas, e não da distinção de pessoas:
Deus é um Manancial Único: se a Palavra é espírito e vida, e Deus é Espírito, então não há divisão. O Espírito Santo não é "alguém" que Deus envia, mas a própria presença espiritual do Pai [e do Filho] agindo no Universo e na Igreja.
O Trono e o Cordeiro (Apocalipse 22.1): este é um dos textos impactantes a favor da Teologia Unicista. O fato de um rio de água viva fluir do "trono de Deus e do Cordeiro" [singular: "do trono"] indica que há apenas um trono e um Ser assentado nele. O Cordeiro é a face visível e humana do Deus invisível. A "água da vida" que flui é a emanação do próprio Espírito de Deus para a humanidade.
Conclusão:
Querer despersonificar Deus, a fim de defender esta ou aquela doutrina, trata-se de um verdadeiro "golpe baixo" daqueles que, no fundo, envergonham-se em admitir que, com seus conceitos particulares, estão fugindo do que está registrado no Livro Sagrado, e ignorando que “ser espiritual” não significa, em absoluto, impessoalidade, como se fosse possível haver fantasmas de humanos [espíritos desencarnados] vagando pela terra.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.

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