A Kenosis [esvaziamento] da Palavra de Deus

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento


No que se refere à Cristologia Unicista, a kenosis [auto-esvaziamento voluntário] da Palavra de Deus foi imprescindível para validar a eficácia do sacrifício vicário da divindade [Filipenses 2:7].

O Verbo eterno verdadeiramente se fez um homem perfeito, semelhante em tudo aos demais seres humanos [apenas sem pecado, como Adão antes da queda], a fim de que pudesse nascer, crescer e morrer pelos pecadores, sendo, portanto, o “Deus vazio” [João 1:14; Hebreus 2:17; Hebreus 4:15].


1. A Kenosis Unicista: O Esvaziamento dos Atributos

A premissa de que Jesus é Deus despido de seus atributos incomunicáveis [onipresença, onisciência, onipotência, imutabilidade, auto existência, unicidade, imortalidade, etc.] é fundamental para explicar as limitações humanas de Jesus Cristo, sem dividir a divindade em duas pessoas distintas.

  • Identidade vs. Atributos: para o Unicismo, a identidade de Jesus é Yahweh, mas o modo de existência na terra era plenamente humano. Ao abrir mão dos atributos exclusivos da divindade, o Deus que preenche o universo com Sua presença, milagrosamente, concentrou Seu ser num corpo frágil que Ele próprio preparou no ventre de uma mulher, chamando-o de Jesus [“Yahweh é salvação”] [Hebreus 10:5; Lucas 1:35].

Nota de Contexto: é importante destacar que a descida de Yahweh às partes baixas da terra não significou que o trono celestial tenha ficado vago, pois, pelo atributo da onipresença, Yahweh, em Sua imanência, foi capaz de manifestar-se simultaneamente de duas formas distintas: como Pai [assentado sobre o trono da Sua glória, i.e., da Sua perfeição absoluta] e como Filho [vazio dos atributos exclusivos da divindade] [Salmo 139:7-12; Jeremias 23:24]. 

  • O Propósito do Esvaziamento: se Jesus possuísse o atributo da onipotência e a usasse para não sofrer ou Sua onisciência para não ser tentado, a encarnação seria uma "encenação", o que é inconcebível, pois Deus não faz de conta, nem participa de teatro. O esvaziamento prova que Deus não estava apenas dentro de um homem, mas que Ele se fez homem.


2. Jesus como o "Segundo Adão": A Humanidade Autêntica

A premissa de que Jesus era um homem exatamente como nós [como Adão antes da queda] é o que se pode chamar de uma verdadeira Kenosis, o que passar disso é imaginação.

  • O Sacrifício Aceitável: para que o sacrifício fosse legalmente válido perante a justiça divina, o substituto precisava ser um par idêntico ao transgressor, i.e., um homem exatamente como está descrito em Gênesis 2:7. Um "Deus-Pessoa" morrendo não faria sentido lógico, já que Deus não morre, mas o "Deus-Manifestado-como-Homem-Perfeito" preenche o requisito [1 Pedro 1:19].

Nota de Contexto: alguns teólogos sugerem que Deus tenha acrescentado a natureza humana à divina, de forma que, ora a Palavra de Deus [feita carne] agia como Deis, ora agia como homem. Porém, se assim, fosse, Deus não ter se esvaziado, mas acrescentado algo ao Seu ser, contrariando as próprias Escrituras. Portanto, se o esvaziamento não ocorreu de fato, não há sinceridade nas seguintes palavras do apóstolo Paulo: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2 Coríntios 8.9). A pobreza referida pelo apóstolo diz respeito exatamente ao esvaziamento.

 

  • A Relação Pai-Filho: sob essa ótica, o "Pai" é a Divindade [Espírito] e o "Filho" é a Humanidade [Carne]. Quando o texto diz que o sacrifício foi aceito pelo Pai, é sinal de que a Justiça Eterna de Deus foi satisfeita pela obediência perfeita da Sua própria manifestação humana.
  • Um Ser Hibrido: algumas religiões defendem o conceito de que Jesus era uma espécie de “deus menor”, ou um “semideus”, ou uma espécie de “divindade humana [deus+homem], constituindo-se, portanto, em um ser híbrido, mantendo em Seu ser “parte da divindade”, ou a “divindade adormecida”. Contudo, se isso fosse possível, a humanidade estaria prejudicada e Jesus, contendo os atributos poderosos, jamais poderia ser classificado como “menor do que os anjos” [Hebreus 2:7].


3. A Plenitude da Divindade 

A passagem de Colossenses 2:9 é comumente usada pelo trinitarianos para sustentar o suposto caráter bíblico da "união hipostática" [união de duas naturezas], ao afirmar: "Nele [em Jesus] habita corporalmente a plenitude da divindade".

  • Plenitude x Esvaziamento: o fato de as Escrituras Sagradas dizerem que houve um esvaziamento do Verbo divino quando assumiu a forma humana, e que Jesus era “menor do que os anjos” [Filipenses 2.7; Hebreus 2.7] impede que a palavra “plenitude” indique aquilo que os trinitarianos buscam, com tanta obstinação, incutir nas mentes dos indoutos, ou seja, que houve a união de duas naturezas em Jesus, fazendo-O detentor de todos os atributos incomunicáveis. 
  • Hermenêutica Torta: a interpretação de Colossenses 2:9,  considerando a palavra “plenitude” como prova da dupla natureza de Jesus é notadamente equivocada, pelos seguintes motivos: (1) Desconsidera totalmente o contexto em que a palavra foi usada pelo apóstolo Paulo [no presente do indicativo e não no passado], i.e., está se referindo a um período depois que Jesus já havia sido glorificado e estava pleno de Seus atributos no céu; (2) A plenitude da divindade veio morar n'Ele quando recebeu o Espírito Santo “sem medida” no batismo [João 3:34]; e (3) O objetivo de Paulo é dizer que a pessoa de Jesus [“corporalmente”] é suficiente para a remissão dos pecados e para a salvação eterna, não havendo necessidade de que o cristão recorra à filosofia e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.

Nota de Contextoa palavra "plenitude" aponta para o fato de que Jesus não é uma mera sombra, ou um conto inventado pela mente humana, mas a “plenitude da divindade” [a pessoa suficiente] para os que estavam perdidos e condenados à morte eterna, trazendo, em si, o resplendor da glória de Yahweh e a imagem exata [e perfeita] do Seu maravilhoso ser [Colossenses 1:15; Hebreus 1:3-5], pois, como está escrito, “foi do agrado do Pai que toda a plenitude n’Ele habitasse” (Colossenses 1:19), tendo depositado tudo “nas Suas mãos” [João 3:35]. Enquanto em nós, seres humanos, só havia as trevas do pecado, o vazio, a desolação e as vaidades, habitava n’Ele [e não em qualquer outro] a plenitude de tudo que diz respeito à vida, sendo Ele próprio: (1) A realidade divina descrita nas profecias [em toda a sua plenitude]; (2) A imagem exata das coisas sagradas [o nosso altar, o nosso sacrifício, o nosso sacerdote, o nosso incenso, o nosso tabernáculo, o nosso tudo em todos [Hebreus 10:1; Colossenses 3:11]; (3) A expressão perfeita da glória de Yahweh [Hebreus 1:3]; (4) O princípio e o fim de todas as coisas [enquanto Palavra de Deus], em quem, por quem e para quem foram criadas todas as coisas que estão nos Céus e na Terra céu [João 1.3; Colossenses 1.16; Apocalipse 2.8].

 

4. O Poder Sobrenatural de Jesus

Uma dúvida que surge quando se fala em kenosis é a seguinte: “Se a Palavra de Deus esvaziou-se dos atributos incomunicáveis, como Jesus realizava sinais, prodígios e maravilhas, e como conhecia os segredos dos corações dos homens?” 

  • O Batismo Capacitador: a resposta para essas questões é bastante simples: cumpriu-se n’Ele o que estava profetizado em Isaías 11:2, Isaías 42: 1 e Isaías 61: 1, i.e., quando Jesus foi batizado no Rio Jordão, o Espírito Santo [a “plenitude da divindade”] desceu sobre Ele sem medida e Lhe deu todo o poder fazer as obras que fez e para penetrar nas profundezas de Deus [João 3:34; João 8:55].
  • Uma Confissão Esclarecedora: o próprio Jesus confessou aos discípulos que não era Ele quem operava as obras, mas o Pai que estava n’Ele. Ou seja, Yahweh era quem operava as obras, sem que Jesus, de si mesmo, pudesse fazer coisa alguma [João 5.19; João 14.10-11].

Nota de Contexto: até mesmo as palavras que Jesus dizia vinham do Pai: “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” (João 12:49). Sobre a ausência em Jesus dos atributos da onisciência, onipresença e onipotência, as Escrituras Sagradas dizem o seguinte: (1) Onisciência: “Mas daquele dia ou daquela hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão só o Pai” (Marcos 13:32); (2) Onipresença: “Então Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu; e, por vossa causa, folgo de que eu lá não estivesse, para que creiais; mas vamos ter com ele” (João 11:14-15); e (3) Onipotência: “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra" (Mateus 28:18).

 

5. Estudiosos Desatentos: A Propagação de Erros Teológicos

Alguns conceitos muito utilizados pela cristandade acerca de Jesus precisam ser revistos e/ou melhor esclarecidos, como a máxima que diz que “Jesus é 100% Deus e 100% homem”, uma afirmação repetida, como uma espécie de mantra, por muitos teólogos.

  • Trata-se de uma inferência ilógica e incongruente com a Bíblia, quando o assunto é "plenitude dos atributos divinos". Isso, porque as Escrituras Sagradas mostram, em 1 João 5.20, que Jesus, enquanto Palavra de Deus, é o verdadeiro Deus [100% Deus], trazendo a expressa imagem do Pai [no aspecto moral], mas, em relação aos atributos incomunicáveis, a kenosis Lhe impôs notada limitação, a fim de que pudesse ser um ser humano perfeito, em tudo semelhante aos irmãos [Hebreus 2:17].

Nota de Contexto: se houve limitação de qualquer espécie, a "plenitude da divindade" já não pode ser considerada como algo admissível [válido], de sorte que Jesus, no ministério terreno, era 100% homem, mas, em termos de atributos exclusivos da divindade, era o Deus vazio [Hebreus 2.14-17; Hebreus 1.3; Hebreus 1.8].




Análise dos Pontos de Tensão e Convergência

Elemento

Perspectiva Unicista (Com as Premissas dadas)

Oração no Getsêmani

Não é uma pessoa falando com outra, mas a vontade humana [esvaziada de atributos] submetendo-se à vontade divina [o Espírito].

A Morte na Cruz

É o ápice do esvaziamento. A humanidade real sofre a separação da vida, enquanto a divindade [Pai] sustenta o plano redentor.

A Tentação

Real e possível, pois, sem onisciência e onipotência "ativas", Jesus teve que depender da fé e das Escrituras, assim como nós.

 


Conclusão: A Unidade Preservada

Dentro da lógica apresentada nesta análise, o sacrifício de Jesus não é um "acordo" entre “duas pessoas da Trindade”, mas o auto sacrifício de Deus. Dessa forma, o Pai não enviou "outra pessoa", mas se auto esvaziou de Sua glória [dos atributos incomunicáveis], a fim de experimentar, Ele próprio [em pessoa], a condição de "Segundo Adão", como prometera pela boca do profeta Ezequiel: “Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas” (Ezequiel 34:11,12).

No entanto, é importante destacar que a descida de Yahweh às partes baixas da terra não significou que o trono celestial tenha ficado vago, pois, pelo atributo da onipresença, Yahweh foi capaz de manifestar-se simultaneamente de duas formas distintas: (1) Como Pai [assentado sobre o trono da Sua glória, i.e., da Sua perfeição absoluta]; e (2) Como Filho [vazio dos atributos exclusivos da divindade, para que pudesse tornar-se um homem perfeito e viesse a nascer, crescer e morrer pelos pecadores, sendo o “Deus vazio”] [Salmo 139:7-12; Jeremias 23:24; João 1:14; Hebreus 2:17; Hebreus 4:15].

Finalizando, é necessário fazermos uma reflexão a respeito da afirmação de que Jesus, sendo rico, se fez pobre por amor à humanidade [2 Coríntios 8:9], a fim de compreendermos perfeitamente a verdade da kenosis de Jesus: “Não há sentido em dizer que uma pessoa extremamente rica abriu mão de toda a sua riqueza, se ela não foi a um cartório e não assinou um documento, transferindo todos os seus bens para alguém. Se ela apenas disse, mas não tomou tais providências, ela continua sendo rica e tornou-se uma hipócrita da pior espécie”.


Imagem gerada por Google AI, 2026.


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Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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