A Kenosis [esvaziamento] da Palavra de Deus
Marcelo Victor R. Nascimento
No que se refere à Cristologia Unicista, a kenosis [esvaziamento] da Palavra de Deus foi imprescindível para validar a eficácia do sacrifício vicário da divindade [Filipenses 2:7]. Isto é, para o Unicismo, o Verbo verdadeiramente se fez um homem perfeito, semelhante em tudo aos demais seres humanos [apenas sem pecado, como Adão antes da queda], a fim de que pudesse nascer, crescer e morrer pelos pecadores, sendo o “Deus vazio” [João 1:14; Hebreus 2:17; Hebreus 4:15].
1. A Kenosis Unicista: O Esvaziamento
dos Atributos
A premissa de que Jesus é Deus despido
de seus atributos incomunicáveis [onipresença, onisciência, onipotência,
imutabilidade, auto existência, unicidade, imortalidade, etc.] é fundamental para explicar as
limitações humanas de Cristo, sem dividir a divindade em duas pessoas.
- Identidade vs. Atributos: para o Unicismo, a identidade de Jesus é
Yahweh, mas o modo de existência na terra era plenamente humano.
Ao abrir mão dos atributos incomunicáveis [exclusivos da divindade], o
Deus que preenche o universo, milagrosamente, concentrou Seu ser num corpo
frágil que Ele próprio preparou no ventre de uma mulher, chamando-o de
"Jesus".
Nota de Contexto: é importante destacar que a descida de Yahweh às
partes baixas da terra não significou que o trono celestial tenha ficado vago, pois,
pelo atributo da onipresença, Yahweh foi capaz de manifestar-se simultaneamente
de duas formas distintas: como Pai [assentado sobre o trono da Sua glória,
i.e., da Sua perfeição absoluta] e como Filho [vazio dos atributos exclusivos da
divindade] [Salmo 139:7-12; Jeremias 23:24].
- O Propósito do Esvaziamento: se Jesus possuísse o atributo da onipotência e a usasse para não sofrer ou Sua onisciência para não ser tentado, a encarnação seria uma "encenação", o que é inconcebível, pois Deus não faz de conta, nem participa de um teatro. O esvaziamento prova que Deus não estava apenas dentro de um homem, mas que Ele se fez homem.
2. Jesus como o "Segundo
Adão": A Humanidade Autêntica
A premissa de que Jesus era um homem
exatamente como nós [como Adão antes da queda] é o que se pode chamar de Kenosis.
- O Sacrifício Aceitável: para que o sacrifício fosse legalmente válido
perante a justiça divina, o substituto precisava ser um par idêntico ao
transgressor, i.e., um homem como está definido em Gênesis 2:7. Um
"Deus-Pessoa" morrendo não faria sentido lógico, já que Deus não
morre, mas o "Deus-Manifestado-como-Homem-Perfeito" preenche o
requisito.
Nota de Contexto: alguns teólogos sugerem que Deus tenha acrescentado a natureza humana
à divina, de forma que, ora a Palavra de Yahweh [feita
carne] agia como Deus, ora agia como
homem. Porém, se assim fosse, Deus não teria
se “esvaziado”, mas, “acrescentado” algo ao Seu ser,
contrariando as próprias Escrituras. Portanto, se o esvaziamento não ocorreu de fato, não há
sinceridade nas seguintes palavras do apóstolo Paulo: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor
Jesus Cristo, que sendo rico, se fez
pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”
(2 Coríntios 8.9). A probreza
referida pelo apóstolo diz respeito exatamente ao esvaziamento.
- A Relação Pai-Filho: sob essa ótica, o "Pai"
é a Divindade [Espírito] e o "Filho" é a
Humanidade [Carne]. Quando o texto diz que o sacrifício foi aceito pelo
Pai, é sinal de que a Justiça Eterna de Deus foi satisfeita pela
obediência perfeita da Sua própria manifestação humana.
- Um Ser Hibrido: algumas religiões defendem o
conceito de que Jesus
era uma espécie de “deus menor”, ou um “semideus”,
ou uma espécie de “divindade humana” [deus+homem], constituindo-se, portanto, em um ser híbrido,
mantendo em Seu ser parte da divindade, ou a divindade
adormecida. Contudo, se isso fosse possível, a humanidade estaria
prejudicada e Jesus, contendo os atributos poderosos, jamais poderia ser
classificado como “menor do que os anjos” [Hebreus 2:7].
3. A Plenitude da Divindade
A passagem de Colossenses 2:9 é comumente usada pelo trinitarianos para sustentar o suposto caráter bíblico da "união hostática" [união de duas naturezas], ao mencionar a frase: "Nele [em Jesus] habita corporalmente a plenitude da divindade".
- Plenitude x Esvaziamento: o fato de as Escrituras Sagradas dizerem que houve um esvaziamento do Verbo divino, quando assumiu a forma humana, e que Jesus era menor do que os anjos [Filipenses 2.7; Hebreus 2.7] impede que a palavra “plenitude” indique aquilo que os trinitarianos buscam com tanta obstinação incutir nas mentes dos indoutos, ou seja, a união de duas naturezas em Jesus, fazendo-O detentor de todos os atributos incomunicáveis.
- Hermenêutica Torta: a interpretação de Colossenses 2:9 considerando o ministério terreno de Jesus é notadamente equivocada, pelos seguintes motivos: (1) Desconsidera o contexto em que a palavra plenitude foi usada pelo apóstolo Paulo [no presente do indicativo e não no passado], i.e., está se referindo a um período depois que Jesus já havia sido glorificado e estava pleno de Seus atributos no céu; (2) A plenitude da divindade veio morar n'Ele quando recebu o Espírito Santo sem medida no batismo [João 3:34]; e (3) O objetivo de Paulo é dizer que a pessoa de Jesus [corporalmente] é suficiente para a remissão dos pecados e para a salvação eterna, não havendo necessidade de que o cristão recorra à filosofia e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.
Nota de Contexto: a palavra "plenitude" aponta para o fato de que Jesus não é uma mera sombra, ou um conto inventado pela mente humana, mas a "plenitude da divindade" para os que estavam irremediavelmente perdidos e condenados à morte eterna, trazendo, em si, o resplendor da glória
de Yahweh e a imagem exata [e perfeita] do Seu maravilhoso ser [Colossenses
1.15; Hebreus 1.3-5], pois, como está escrito, “foi do agrado do Pai que toda
a plenitude n’Ele habitasse” (Colossenses 1.19). Enquanto em nós,
seres humanos, só havia as trevas do pecado, o
vazio, a desolação e as vaidades, habitava
n’Ele [e não em qualquer outro], a plenitude de tudo que diz respeito
à vida, sendo, Ele próprio, a plenitude da divindade
para os que estavam irremediavelmente condenados à morte eterna
e não uma mera sombra, ou uma história que
alguém havia contado. O homem Jesus era: (1) A realidade divina [em toda
a sua plenitude], descrita nas profecias; (2) A imagem exata das coisas:
o nosso altar, o nosso sacrifício, o nosso sacerdote, o nosso incenso,
o nosso tabernáculo, o nosso tudo em todos [Hebreus 10.1 e Colossenses 3.11]; (3) A expressão perfeita da glória
de Yahweh [Hebreus 1.3]; e (4) O princípio e o fim de todas
as coisas [enquanto Palavra
de Deus], em quem,
por quem e para quem
foram criadas todas
as coisas que
estão nos Céus e na Terra [João 1.3; Colossenses 1.16;
Apocalipse 2.8]
4. O Poder Sobrenatural de Jesus
Uma questão que surge quando se fala em kenosis [esvaziamento] é a seguinte: "se a Palavra de Deus esvaziou-se dos atributos incomunicáveis, como Jesus realizava os sinais, prodígios e maravilhas, e como Ele conhecia os acontecimentos futuros, os pensamentos e os sentimentos humanos?"
- O Batismo Capacitador: a resposta para essas questões é simples: cumpriu n’Ele o que estava profetizado em Isaías 11.2, Isaías 42.1 e Isaías 61.1, isto é, quando Jesus foi batizado nas águas do rio Jordão [Mateus 3.16 e Lucas 3.22], o Espírito Santo [a plenitude da divindade] desceu sobre Ele sem medida e Lhe deu todo o poder para realizar os milagres, para conhecer os mistérios dos corações dos homens e para penetrar nas profundezas de Deus [João 3.34; João 8.55].
- Uma Confissão Esclarecedora: o próprio Jesus confessou, em certa ocasião, que não era Ele quem realizava os sinais, prodígios e maravilhas, mas o Pai que estava n’Ele. Ou seja, Yahweh era quem operava as obras, sem que Jesus, de si mesmo, pudesse fazer coisa alguma [João 5.19; João 14.10-11] [6].
Nota de Contexto: até mesmo as palavras que Ele dizia vinham do Pai, conforme profecia registrada em Deuteronômio 18.18: “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar” (João 12:49). Sobre a ausência, em Jesus Cristo, dos atributos da onipotência, onisciência e onipresença, as Escrituras Sagradas dizem o seguinte: (1) Onisciência: “Mas daquele dia ou daquela hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão só o Pai” (Marcos 13.32); (2) Onipresença: “Então Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu; e, por vossa causa, folgo de que eu lá não estivesse, para que creiais; mas vamos ter com ele” (João 11.14,15); e (3) Onipotência: “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28.18).
5. Estudiosos Desatentos: A Propagação
de Erros Teológicos
Alguns conceitos muito utilizados pela cristandade acerca de Jesus precisam ser revistos e/ou melhor esclarecidos, como a máxima que diz que “Jesus é 100% Deus e 100% homem”, uma afirmação repetida, como uma espécie de mantra, por muitos teólogos.
- Trata-se de uma inferência ilógica e incongruente para com a Bíblia, quando o assunto é plenitude dos atributos divinos. Isso, porque as Escrituras Sagradas mostram, em 1 João 5.20, que Jesus, enquanto Palavra de Deus, é o verdadeiro Deus [100% Deus], trazendo a expressa imagem do Pai no aspecto moral. Contudo, a kenosis Lhe impôs notada limitação, a fim de que se fizesse um ser humano em tudo semelhante aos irmãos [Hebreus 2:17].
Nota de Contexto:
se houve limitação de qualquer espécie, a plenitude já não pode ser considerada
em algum aspecto. Jesus, no ministério terreno, era 100% homem, sendo o Deus
vazio em relação aos atributos divinos exclusivos da divindade [Hebreus
2.14-17; Hebreus 1.3; Hebreus 1.8].
Análise dos Pontos de Tensão e
Convergência
|
Elemento |
Perspectiva Unicista (Com as
Premissas dadas) |
|
Oração no Getsêmani |
Não é uma pessoa falando com outra,
mas a vontade humana [esvaziada de atributos] submetendo-se à vontade divina [o
Espírito]. |
|
A Morte na Cruz |
É o ápice do esvaziamento. A
humanidade real sofre a separação da vida, enquanto a divindade [Pai]
sustenta o plano redentor. |
|
A Tentação |
Real e possível, pois, sem
onisciência e onipotência "ativas", Jesus teve que
depender da fé e das Escrituras, assim como nós. |
Conclusão: A Unidade Preservada
Dentro da lógica
apresentada nesta análise, o sacrifício de Jesus não é um "acordo"
entre “duas pessoas da Trindade”, mas o auto sacrifício
de Deus. Dessa forma, o Pai não enviou "outra pessoa",
mas se auto esvaziou de Sua glória [dos atributos incomunicáveis],
a fim de experimentar, Ele próprio [em pessoa], a condição de
"Segundo Adão", como prometera pela boca do profeta
Ezequiel: “Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo,
procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu
rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei
as minhas ovelhas” (Ezequiel 34:11,12).
No entanto, é importante destacar que a descida de Yahweh às partes baixas da terra não significou que o trono celestial tenha ficado vago, pois, pelo atributo da onipresença, Yahweh foi capaz de manifestar-se simultaneamente de duas formas distintas: (1) Como Pai [assentado sobre o trono da Sua glória, i.e., da Sua perfeição absoluta]; e (2) Como Filho [vazio dos atributos exclusivos da divindade, para que pudesse tornar-se um homem perfeito e viesse a nascer, crescer e morrer pelos pecadores, sendo o “Deus vazio”] [Salmo 139:7-12; Jeremias 23:24; João 1:14; Hebreus 2:17; Hebreus 4:15].
Finalizando, é necessário que fazermos uma reflexão a
respeito da afirmação de que Jesus, sendo rico, se fez pobre por amor a nós [2
Coríntios 8:9], a fim de compreendermos perfeitamente a verdade da kenosis de
Jesus: “Não há sentido
em dizer que um sujeito
extremamente rico abriu mão da sua riqueza, caso ele não tenha ido ao
cartório, assinado um documento e transferido, de fato, toda a sua riqueza para outrem. Somente assim, essa pessoa
rica poderia dizer que verdadeiramente
se tornou pobre. Todavia, se tal pessoa apenas disse que abriu mão da sua riqueza, mas não foi ao cartório e não
transferiu todos os seus bens a outrem, ela não se tornou pobre de fato, i.e., simplesmente
fez de conta que abriu mão dela, continuando a ser a verdadeira dona dos bens [ou
seja, não passou de uma grande
hipocrisia]”.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020).
Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube
de Autores.


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