Transcendência e imanência divinas
Marcelo Victor R. Nascimento
Rejeitando o conceito de uma
pluralidade de pessoas na divindade, esta reflexão teológica tem o objetivo de
mostrar que os conceitos de transcendência e imanência divinas são perfeitamente
harmônicos e fundamentais para a visão de mundo Unicista.
É importante ressaltar que, sob a
ótica unicista, Yahweh não é apenas o Pai no céu. Ele é o único e indivisível
Espírito que se manifesta de diversas formas.
1. A Transcendência: O
Espírito Infinito e Indivisível
As Escrituras Sagradas mostram
que Deus excede os limites da existência, sendo infinito em dimensões [Jó
11.7-9; 1 Reis 8.27] e no tempo [Salmo 90.2], não com dias infinitos de
existência, mas com uma natureza eternamente viva.
- Validação Unicista: a transcendência de Deus
descreve a própria essência do Seu ser, pois as Escrituras Sagradas afirmam
que Ele é Espírito, não podendo ser contido pelos "céus dos
céus", evidenciando um ser cuja essência é onipresente e suprema.
- Implicação Teológica: exatamente por ser um
Espírito infinito, é possível concluir que Sua essência não pode ser
dividida, compartimentada ou separada em diferentes "pessoas distintas". Ele é singular em Sua eternidade e grandeza e, por causa dessa
peculiaridade, Sua transcendência é frequentemente associada à Sua manifestação
como Pai e Criador.
2. A Imanência: A Ação do
Único Deus na Criação
Apesar da infinitude, Deus resolveu
estar presente na criação, agindo nela, presidindo assembleias celestiais e
habitando com o contrito de espírito [Isaías 57.15; Jeremias 23.24]. Portanto, Deus
possui, simultaneamente, uma face oculta, jamais vista por alguém,
envolta em uma luz inacessível [João 1:18; 1 Timóteo 6:16; 1 João 4:12], e uma face
aparente, vista pelos anjos [Mateus 18:10], em virtude do atributo incomunicável
da onipresença [Salmo 139].
- Validação Unicista: a imanência é o coração
da teologia unicista. Quando o texto diz que Ele "habita com o
contrito e abatido", a teologia unicista interpreta isso como
a ação do Espírito Santo. Para os unicistas, o Espírito Santo não é
uma suposta “terceira pessoa divina”, mas o próprio
Espírito transcendente [o Pai] em ação invisível e direta no mundo e na
Igreja.
- Implicação Teológica: a capacidade de
preencher toda a terra [Jeremias 23:24] e de ver tudo [Hebreus 4:13] sem
deixar o Seu "alto e santo lugar" demonstra a
onipresença absoluta de um único ser, e não três. Ele não precisa delegar
a presença a outra suposta “pessoa da divindade”; Ele mesmo, em Sua
unicidade, faz isso.
3. A Síntese Unicista: O
Encontro da Transcendência com a Imanência
A tensão entre a transcendência e
a imanência divinas ganha contornos ainda mais misteriosos por ocasião da encarnação,
i.e., quando o verbo de Deus se faz carne e habita entre os seres humanos [João
1:14], numa simultaneidade ainda mais poderosa.
- Jesus Cristo: o mesmo Yahweh, que não cabe
nos céus dos céus, escolheu “esvaziar-se da Sua glória” [dos
Seus atributos incomunicáveis], a fim de que pudesse assumir um corpo
humano autêntico, com todas as limitações [Filipenses 2:7].
- O Trono: embora o único e infinito Deus tenha assumido a
forma humana, as leis que regem o universo se mantiveram intactas, sem que o mundo se tornasse um caos e perdesse a direção, subsistindo na mais perfeita ordem e harmonia. A Palavra de Deus foi capaz de caminhar sobre a Terra e, ao mesmo tempo, por causa do atributo da onipresença, continuar sustentando todas as coisas que foram criadas [Colossenses 1:17; Hebreus 1:3]. Em Jesus, a
infinitude [do Salmo 90 e de 1 Reis 8] se localizou no tempo e no espaço, sem
deixar de preencher o universo. Em outras palavras, transcendência e imanência divinas foram milagrosamente
preservadas e o trono não ficou vazio.
3. A Filosofia e a Grandeza de
Deus:
No intento de provar a existência
de um Deus transcendente e poderoso, os filósofos e pensadores medievais atribuíram-Lhe
as seguintes qualidades: (1) Deus é o “lugar do mundo” [24]; (2)
Deus é a “causa primeira” [o causador de tudo]; (3) Deus é o “primeiro
motor” [o ponto de partida]; (4) Deus é o “único ser necessário”
[o causador da necessidade das demais coisas]; (5) Deus é o “máximo grau
de perfeição” [grau absoluto]; e (6) Deus é o “ordenador do
universo” [o legislador].
Conclusão:
Para a teologia unicista, os
atributos de onipresença e da natureza eternamente viva são provas cabais de
que o Criador é um único e grandioso Espírito.
Ele é tão transcendente que
governa presencialmente todo o universo, mas tão imanente que pôde assentar-se
junto aos anjos e, simultaneamente, vestir-se de carne humana, sem que isso exigisse
a existência de mais de uma pessoa divina.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.

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