A Voz de Deus e o Espírito: Duas Emanações, Um Único Ser (Parte 2)
Marcelo VictorR. Nascimento
No cenário teológico atual, fomos condicionados a ler
as Escrituras através das lentes de dogmas do século IV, que fragmentaram a
divindade em uma pluralidade de pessoas. No entanto, quando permitimos que a
própria Bíblia interprete a Bíblia, a ilusão da distinção de pessoas desmorona
diante da beleza do monoteísmo estrito.
Hoje, vamos mergulhar em uma evidência bíblica
extraordinária que une o livro de Gênesis aos Salmos, demonstrando que a Palavra
(a Voz) e o Espírito não são subsistências distintas, mas a própria
emanação ativa do Deus Único — a mesma Palavra que, mais tarde, se manifestou
na carne.
1 - O Eco da Criação: Salmo 29 e Gênesis
1
No Salmo 29, Davi compõe um hino majestoso ao poder de
Yahweh. No versículo 3, ele afirma que a voz de Deus se ouve "sobre
as águas".
Essa escolha de palavras não é acidental. Ela nos remete imediatamente ao alvorecer da criação, em Gênesis 1.2, onde o escritor bíblico registra que "o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas". Ao sobrepormos essas duas revelações, a matemática divina se torna perfeitamente simples:
- Em Gênesis: é o Espírito (o Ruach) que se move sobre as águas.
- No Salmo 29: é a Voz (a Palavra) que ecoa sobre as águas.
A conclusão é inevitável: a Voz de Deus e o Espírito
de Deus são um único e mesmo Ser em ação. Não há duas pessoas divinas
cooperando em um comitê criativo; há um único Deus emanando o Seu poder.
2 - O Poder que Dá a Vida: da Voz ao
Espírito
Se a conexão litúrgica entre o Salmo 29 e Gênesis 1
ainda não parecer suficiente para quebrar os paradigmas trinitarianos, Davi
avança no versículo 9 com uma afirmação biológica e mística: a voz de Deus
"faz parir as cervas". A Voz gera vida, traz à luz a criação
animal.
Agora, observem para quem o salmista atribui esse
exato poder de dar vida e sustentar os animais no Salmo 104.30: "Envias
o teu Espírito, e [os animais] são criados, e assim renovas a face da
terra."
O que a Voz faz no Salmo 29, o Espírito
faz no Salmo 104. Fica evidente, de forma definitiva, que "Palavra" e
"Espírito Santo" não são duas pessoas distintas. Eles são a emanação
do próprio ser de Deus. Deus estende a Si mesmo no espaço e no tempo
através de Seu Espírito e de Sua Palavra.
3 - A Eterna Palavra e o Mistério da
Kenosis Radical
Compreender que a Palavra e o Espírito são a emanação
de Yahweh lança uma luz clareadora sobre o conceito da Kenosis
Radical. Para nós, unicistas, o esvaziamento de Deus em Cristo não é a
segunda pessoa de uma trindade abrindo mão de atributos divinos. É o próprio
Deus Único — aquele que, por Seu Espírito, enche os céus e a terra —
concentrando e personificando a Sua emanação na pequenez de uma matriz humana,
por um entranhável amor pelas criaturas.
As Escrituras deixam claro que essa "Voz" criadora e vivificante é o próprio Jesus, em consonância com João 1.14 que nos fala sobre o clímax dessa emanação: "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós...". A mesma Voz que se movia sobre as águas em Gênesis e que gerava vida nos Salmos assumiu uma natureza humana real.
Para que não
reste dúvidas de que Jesus é, em Sua própria essência, a expressão eterna dessa
emanação, e não uma criação temporária, o livro de Apocalipse 19.13 coroa essa
verdade ao descrever o Cristo glorificado em Sua segunda vinda: "Está
vestido com um manto salpicado de sangue, e o seu nome é: A Palavra de
Deus". Assim sendo, do Gênesis ao Apocalipse, Jesus é revelado como a
eterna Palavra manifestada aos homens.
Outrossim, quando Apocalipse 5.6 nos fala sobre os sete olhos do Cordeiro, que são "os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra", o texto está usando uma linguagem apocalíptica para descrever a plenitude da emanação ativa de Yahweh, como parte do próprio ser do Cordeiro (Jesus), unindo as manifestações em um único ser.
Portanto, o Espírito Santo é o próprio Deus operando no mundo, e essa mesma plenitude se fez um ser humano perfeito, em tudo, semelhante aos demais (Hebreus 2:17), e desceu sobre Jesus sem medida no batismo, ungindo-O para operar os sinais prodígios e maravilhas (Mateus 3:16; João 3:34; Atos 10:38).
Conclusão
Deus é um; Sua Voz é o Seu Espírito; Seu Espírito é o
Seu sopro de vida; e Sua Palavra eterna é Jesus Cristo.
Quando esse mesmo Deus decidiu se manifestar na carne,
Ele não enviou um "Filho eterno" separado dEle; Ele mesmo se esvaziou
(kenosis) (Filipenses 2:7), canalizando toda a Sua emanação — a Palavra
eterna e o Espírito que cria a vida — para dentro da história humana no homem
Cristo Jesus.
A teologia da Palavra e do Espírito como emanações
puras de Yahweh nos liberta do politeísmo disfarçado e nos devolve a pureza do Shema:
Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Reflexão final: ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe acomodar-se e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1]. Foi por esse mesmo atributo, que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.



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