As Mãos e a Voz do Artesão Divino: Por que a Palavra e o Espírito São Inseparáveis
Marcelo Victor R. Nascimento
Para os teólogos que defendem a fragmentação da
divindade em três pessoas distintas, as metáforas bíblicas costumam virar um
quebra-cabeça confuso. No entanto, para quem lê as Escrituras sob a ótica do
monoteísmo estrito e do Unicismo, a Bíblia revela uma coerência artística e
absoluta: Deus é um único Ser, uma única pessoa, agindo e expressando-se no
cosmos.
Uma das evidências mais belas dessa realidade está na
forma como os escritores bíblicos descrevem o trabalho criativo e ativo de
Deus, alternando entre a imagem de Suas mãos/dedos e o poder de Sua Voz.
1 - O Artesão do Universo: Dedos e
Mãos de Deus
Em várias passagens relacionadas à criação de todas as
coisas e a outras ações miraculosas, a Bíblia Sagrada refere-se ao Espírito
Santo utilizando termos antropomórficos (atribuição de características humanas
a Deus), retratando-O como as "mãos" ou os "dedos"
de Yahweh. A imagem sugerida é a de um mestre artesão que esculpe, molda e
utiliza Seus dedos minuciosamente para realizar o Seu trabalho.
Vemos essa poesia teológica nos Salmos de Davi: (1) “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste...” (Salmo 8.3); (2) “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” (Salmo 19.1)
Essa "mão" ou "dedo" que molda a
realidade é o próprio Espírito Santo em ação.
2 - A Identidade entre o Dedo e o
Espírito
Se restar alguma dúvida de que o "dedo" de Deus é uma metáfora para o Seu Espírito e não para uma pessoa cósmica separada, o próprio Jesus tratou de sanar essa questão no Novo Testamento. Ao responder aos fariseus sobre a origem de Seus milagres, o mesmo evento foi registrado por Mateus e Lucas com uma sutil e reveladora diferença de palavras:
- Em Lucas 11.20: Jesus diz: “Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o reino de Deus.”
- Em Mateus 12.28: Ele afirma sobre o mesmo fato: “Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é por conseguinte chegado a vós o reino de Deus.”
Portanto, Lucas e Mateus deixam claro: o Dedo de Deus é o
Espírito de Deus. O Espírito Santo é uma espécie de "braço operacional" de Yahweh
estendido sobre a criação, a emanação do Seu ser maravilhoso.
3 - A Voz que Comanda as Mãos: O
Absurdo da Separação
Agora, façamos a conexão com o restante da revelação
bíblica: as mesmas Escrituras que dizem que os céus são obras dos dedos
de Deus, afirmam categoricamente que todas as coisas foram feitas por meio da
Sua Palavra (Sua fala, Sua expressão, Sua voz, Sua ordem).
É aqui que o dogma trinitariano cai por terra. Pense
logicamente: na experiência humana, é possível separar a voz de um homem de
suas próprias mãos? É possível dizer que as mãos de um artesão e as ordens que
saem de sua boca são "duas pessoas distintas" que coexistem nele?
Claro que não.
Tentar separar a Palavra de Deus do Espírito Santo é
tentar separar o que é intrinsecamente inseparável. O Espírito Santo (as
mãos/dedos) executa exatamente o que a Palavra (a voz/comando) determina. Eles
não são dois entes divididos; são a manifestação do poder integrado de uma única
Pessoa divina.
4 - Kenosis Radical: O Artesão se
Tornou a Obra
Essa profunda unidade nos ajuda a compreender o
mistério da Kenosis Radical. O Deus Único, cuja Palavra ordenou e cujos
"dedos" (Espírito) moldaram as galáxias, decidiu esvaziar-se de Sua
majestade invisível. O Artesão do universo entrou na própria argila da criação.
O mesmo Espírito que pairava sobre as águas e a mesma
Palavra eterna que deu forma ao Salmo 8 se concentraram e se personificaram
perfeitamente no ventre de Maria. Jesus Cristo é o Deus invisível manifestado
de forma visível; as mãos que curavam os enfermos e os dedos que escreviam na
terra eram as próprias mãos e dedos de Yahweh humanizados através do
esvaziamento voluntário da divindade.
Conclusão
A Palavra de Deus e o Espírito Santo não são duas
pessoas distintas na divindade; são a emanação, o sopro e a ação do único Deus
vivo. Quando Ele fala, Sua Palavra ecoa; quando Ele age, Seu Espírito molda.
Compreender isso nos devolve a simplicidade e o poder da fé apostólica: há um
só Deus, um só Espírito, e um só Senhor Jesus Cristo, em quem habita
corporalmente toda a plenitude da divindade.


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