"Assentou-se à destra de Deus": o significado bíblico dessa expressão
Macelo Victor R. Nascimento
Uma das expressões mais recorrentes no Novo Testamento afirma que Jesus Cristo, após ressuscitar, subiu aos céus e assentou-se “à destra de Deus” (Marcos 16:19; Romanos 8:34).
Para quem lê o
texto de forma puramente literal, essa linguagem pode sugerir a existência de
dois tronos físicos no céu: um ocupado por Deus Pai (Yahweh) e outro, logo ao
lado, ocupado por Deus Filho (a Palavra). No entanto, quando aplicamos as
regras da hermenêutica bíblica e analisamos as Escrituras sob a perspectiva do Unicismo,
compreendemos que essa interpretação literal é impossível e contradiz a própria
natureza de Deus.
1. Uma Pessoa
Infinita Não Tem "Lado" Físico
O primeiro erro de uma interpretação estritamente literal está em tentar limitar o Criador a uma forma humana localizada geograficamente no espaço. A Bíblia define a natureza de Yahweh de forma muito clara: "Deus é Espírito" (João 4:24) e Ele é infinito.
O rei Salomão, ao
inaugurar o templo, reconheceu essa imensidão: “Eis que os céus e o céu dos
céus te não podem conter” (1 Reis 8:27). O próprio Yahweh declara por meio
do profeta: “Porventura não encho eu os céus e a terra?” (Jeremias
23:24).
Portanto, pensar
em uma "pessoa infinita" assentando-se fisicamente ao lado de outra
"pessoa infinita", ocupando duas cadeiras ou tronos distintos,
descaracteriza a infinitude divina.
2. O
Significado Hebraico de "Destra" nas Escrituras
Na cultura
bíblica, a expressão "destra" (a mão direita) é um antropomorfismo —
uma linguagem figurada que usa partes do corpo humano para explicar realidades
espirituais. Na Bíblia, a destra nunca indica o lado esquerdo de alguém, mas
sim posição de honra, poder, autoridade e exaltação.
Podemos comprovar esse uso metafórico em várias passagens do Antigo Testamento:
- Lugar de Poder e Vitória: “A tua destra, ó Senhor, se tem glorificado em poder; a tua destra, ó Senhor, despedaçou o inimigo.” (Êxodo 15:6). Deus não tem uma mão de carne que esmaga exércitos; a "destra" aqui é o Seu agir poderoso.
- Lugar de Sustento: “...eu te sinto, e te ajudo, e te sustenho com a destra da minha justiça.” (Isaías 41:10).
Quando o Novo
Testamento aplica essa expressão a Jesus, o objetivo é mostrar que a Sua
humanidade recebeu o topo do governo universal. É exatamente o que Jesus
explicou antes da ascensão: “É-me dado todo o poder no céu e na terra”
(Mateus 28:18).
3. Por que, em
Visão, Deus se Manifestou de Forma Distinta?
Uma dúvida comum
surge a partir de relatos como o de Estêvão em Atos 7:55, que, cheio do
Espírito Santo, olhou para o céu e viu “a glória de Deus, e Jesus, que
estava à direita de Deus”.
Como explicar essa imagem de duas manifestações distintas (o "Pai" e o "Filho")? A resposta está na própria natureza da experiência: tratava-se de uma visão espiritual, e não de uma divisão na Divindade. Yahweh utilizou essa linguagem visual com o propósito claro de demonstrar aos cristãos a Sua grandiosíssima vitória sobre o inferno e a morte (Apocalipse 1:18). Para isso, Ele recorreu à forma física como Cristo era conhecido e identificado por Seus seguidores na Terra.
Ao verem o
Messias glorificado na posição da "glória de Deus", os discípulos e
apóstolos tiveram o respaldo necessário para testemunhar ao mundo sobre a
veracidade de Suas Palavras. Eles viram que o homem que andou com eles e morreu
na cruz foi totalmente exaltado como o próprio Deus manifesto.
4. O Argumento Gramatical: Singular vs. Plural
A estrutura da frase em Apocalipse 22:3 não deixa margem para dualidade de assentos: "E ali nunca mais haverá maldição contra coisa alguma; e nela estará o trono [singular] de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão [singular]." Se o escritor sagrado (João) entendesse que Deus e o Cordeiro fossem duas pessoas divinas distintas, coexistindo individualmente na eternidade, a concordância gramatical exigiria o plural para evitar um erro de lógica:
- Se fossem dois: O texto deveria dizer: "Nela estarão os tronos..." ou "Nela estarão os dois tronos...".
- O fato de ser um: A junção de dois títulos genitivos ("de Deus" e "do Cordeiro") possuindo um único objeto substantivo ("o trono") indica que o trono pertence a uma única entidade que detém ambas as identidades.
5. O Argumento Exegético: O Alvo da Adoração no Mesmo Versículo
O fechamento do próprio versículo 3 elimina qualquer dúvida sobre
quantas pessoas estão sentadas naquele único trono. O texto diz: "...e
os seus servos o servirão." (Apocalipse 22:3b)
No grego original, o pronome usado é αὐτῷ (autō),
que está no singular ("a Ele", e não "a Eles"). Se
no início do versículo temos "Deus e o Cordeiro", e no final temos os
servos servindo a "Ele" (no singular), a própria estrutura bíblica
inspirada está nos revelando que Deus e o Cordeiro são a mesmíssima Pessoa.
O Cordeiro é a manifestação visível e humana do Deus invisível. Na eternidade,
não servimos a "eles", servimos a Ele.
6. O Argumento Contextual: Quem está assentado no Trono?
Ao longo de todo o livro de Apocalipse, João é muito rigoroso ao descrever a sala do trono. Ele nunca quebra a regra de que existe apenas Um assentado no governo supremo:
- Apocalipse 4:2: "...e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono." (João vê apenas uma pessoa, não duas ou três).
- Apocalipse 21:5: "E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas."
Quando chegamos ao capítulo 22, a expressão "trono de Deus e do
Cordeiro" serve para coroar a revelação messiânica: o Deus Espírito
(Yahweh) e o Homem Glorificado (Jesus, o Cordeiro) não estão separados. O
Cordeiro é o próprio Deus manifestado de forma visível e tangível para a Sua
Igreja. O trono é um só porque o Deus que nele se assenta é Um só.
Conclusão: Quantos Tronos Há no Céu?
Para encerrar
qualquer dúvida sobre se existem dois tronos ou duas pessoas divinas no céu, o
livro de Apocalipse nos dá o vislumbre final da sala do trono celestial.
O apóstolo João foi arrebatado em espírito e relatou: “...e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono” (Apocalipse 4:2). João não viu dois tronos e nem duas pessoas assentadas; ele viu apenas Um. E quem é Esse que governa? O próprio texto responde mais adiante: “...o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 1:8). A destra de Deus, portanto, não é um lugar geométrico ao lado do Pai. É a proclamação bíblica de que Jesus Cristo triunfou, venceu a morte e exerce, com exclusividade, a soberania e o poder supremo do único Deus Verdadeiro.
A insistência do texto bíblico em usar "o
trono" (singular) e "o servirão" (singular) contradiz
diretamente qualquer tentativa de introduzir uma pluralidade de pessoas divinas
no encerramento das Escrituras. A Nova Jerusalém é governada por um único Rei
assentado em um único trono.
Referência Bibliográfica:
COSMO, A.B. (2024). A destra fiel de Deus. Aprisco Church Sede. Disponível em: https://apriscochurch.wordpress.com/2024/10/08/a-destra-fiel-de-deus/
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


Comentários
Postar um comentário