"Assentou-se à destra de Deus": o significado bíblico dessa expressão

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Macelo Victor R. Nascimento


Uma das expressões mais recorrentes no Novo Testamento afirma que Jesus Cristo, após ressuscitar, subiu aos céus e assentou-se à destra de Deus (Marcos 16:19; Romanos 8:34).

Para quem lê o texto de forma puramente literal, essa linguagem pode sugerir a existência de dois tronos físicos no céu: um ocupado por Deus Pai (Yahweh) e outro, logo ao lado, ocupado por Deus Filho (a Palavra). No entanto, quando aplicamos as regras da hermenêutica bíblica e analisamos as Escrituras sob a perspectiva do Unicismo, compreendemos que essa interpretação literal é impossível e contradiz a própria natureza de Deus.


1. Uma Pessoa Infinita Não Tem "Lado" Físico

O primeiro erro de uma interpretação estritamente literal está em tentar limitar o Criador a uma forma humana localizada geograficamente no espaço. A Bíblia define a natureza de Yahweh de forma muito clara: "Deus é Espírito" (João 4:24) e Ele é infinito.

O rei Salomão, ao inaugurar o templo, reconheceu essa imensidão: Eis que os céus e o céu dos céus te não podem conter (1 Reis 8:27). O próprio Yahweh declara por meio do profeta: Porventura não encho eu os céus e a terra? (Jeremias 23:24).

Portanto, pensar em uma "pessoa infinita" assentando-se fisicamente ao lado de outra "pessoa infinita", ocupando duas cadeiras ou tronos distintos, descaracteriza a infinitude divina.


2. O Significado Hebraico de "Destra" nas Escrituras

Na cultura bíblica, a expressão "destra" (a mão direita) é um antropomorfismo — uma linguagem figurada que usa partes do corpo humano para explicar realidades espirituais. Na Bíblia, a destra nunca indica o lado esquerdo de alguém, mas sim posição de honra, poder, autoridade e exaltação.

Podemos comprovar esse uso metafórico em várias passagens do Antigo Testamento:

  • Lugar de Poder e Vitória: A tua destra, ó Senhor, se tem glorificado em poder; a tua destra, ó Senhor, despedaçou o inimigo. (Êxodo 15:6). Deus não tem uma mão de carne que esmaga exércitos; a "destra" aqui é o Seu agir poderoso.
  • Lugar de Sustento: ...eu te sinto, e te ajudo, e te sustenho com a destra da minha justiça. (Isaías 41:10).

Quando o Novo Testamento aplica essa expressão a Jesus, o objetivo é mostrar que a Sua humanidade recebeu o topo do governo universal. É exatamente o que Jesus explicou antes da ascensão: É-me dado todo o poder no céu e na terra (Mateus 28:18).


3. Por que, em Visão, Deus se Manifestou de Forma Distinta?

Uma dúvida comum surge a partir de relatos como o de Estêvão em Atos 7:55, que, cheio do Espírito Santo, olhou para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus.

Como explicar essa imagem de duas manifestações distintas (o "Pai" e o "Filho")? A resposta está na própria natureza da experiência: tratava-se de uma visão espiritual, e não de uma divisão na Divindade. Yahweh utilizou essa linguagem visual com o propósito claro de demonstrar aos cristãos a Sua grandiosíssima vitória sobre o inferno e a morte (Apocalipse 1:18). Para isso, Ele recorreu à forma física como Cristo era conhecido e identificado por Seus seguidores na Terra.

Ao verem o Messias glorificado na posição da "glória de Deus", os discípulos e apóstolos tiveram o respaldo necessário para testemunhar ao mundo sobre a veracidade de Suas Palavras. Eles viram que o homem que andou com eles e morreu na cruz foi totalmente exaltado como o próprio Deus manifesto.


4. O Argumento Gramatical: Singular vs. Plural

A estrutura da frase em Apocalipse 22:3 não deixa margem para dualidade de assentos: "E ali nunca mais haverá maldição contra coisa alguma; e nela estará o trono [singular] de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão [singular]." Se o escritor sagrado (João) entendesse que Deus e o Cordeiro fossem duas pessoas divinas distintas, coexistindo individualmente na eternidade, a concordância gramatical exigiria o plural para evitar um erro de lógica:

  • Se fossem dois: O texto deveria dizer: "Nela estarão os tronos..." ou "Nela estarão os dois tronos...".
  • O fato de ser um: A junção de dois títulos genitivos ("de Deus" e "do Cordeiro") possuindo um único objeto substantivo ("o trono") indica que o trono pertence a uma única entidade que detém ambas as identidades.


5. O Argumento Exegético: O Alvo da Adoração no Mesmo Versículo

O fechamento do próprio versículo 3 elimina qualquer dúvida sobre quantas pessoas estão sentadas naquele único trono. O texto diz: "...e os seus servos o servirão." (Apocalipse 22:3b)

No grego original, o pronome usado é ατ (autō), que está no singular ("a Ele", e não "a Eles"). Se no início do versículo temos "Deus e o Cordeiro", e no final temos os servos servindo a "Ele" (no singular), a própria estrutura bíblica inspirada está nos revelando que Deus e o Cordeiro são a mesmíssima Pessoa. O Cordeiro é a manifestação visível e humana do Deus invisível. Na eternidade, não servimos a "eles", servimos a Ele.


6. O Argumento Contextual: Quem está assentado no Trono?

Ao longo de todo o livro de Apocalipse, João é muito rigoroso ao descrever a sala do trono. Ele nunca quebra a regra de que existe apenas Um assentado no governo supremo:

  • Apocalipse 4:2: "...e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono." (João vê apenas uma pessoa, não duas ou três).
  • Apocalipse 21:5: "E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas."

Quando chegamos ao capítulo 22, a expressão "trono de Deus e do Cordeiro" serve para coroar a revelação messiânica: o Deus Espírito (Yahweh) e o Homem Glorificado (Jesus, o Cordeiro) não estão separados. O Cordeiro é o próprio Deus manifestado de forma visível e tangível para a Sua Igreja. O trono é um só porque o Deus que nele se assenta é Um só.


Conclusão: Quantos Tronos Há no Céu?

Para encerrar qualquer dúvida sobre se existem dois tronos ou duas pessoas divinas no céu, o livro de Apocalipse nos dá o vislumbre final da sala do trono celestial.

O apóstolo João foi arrebatado em espírito e relatou: ...e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono (Apocalipse 4:2). João não viu dois tronos e nem duas pessoas assentadas; ele viu apenas Um. E quem é Esse que governa? O próprio texto responde mais adiante: ...o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso (Apocalipse 1:8). A destra de Deus, portanto, não é um lugar geométrico ao lado do Pai. É a proclamação bíblica de que Jesus Cristo triunfou, venceu a morte e exerce, com exclusividade, a soberania e o poder supremo do único Deus Verdadeiro.

A insistência do texto bíblico em usar "o trono" (singular) e "o servirão" (singular) contradiz diretamente qualquer tentativa de introduzir uma pluralidade de pessoas divinas no encerramento das Escrituras. A Nova Jerusalém é governada por um único Rei assentado em um único trono.

Imagem gerada por Google AI, 2026.



Referência Bibliográfica:

COSMO, A.B. (2024). A destra fiel de Deus. Aprisco Church Sede. Disponível em: https://apriscochurch.wordpress.com/2024/10/08/a-destra-fiel-de-deus/

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Fórmula Batismal [Parte 1]: Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas

Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso

Parte 1 - Refutação ao Credo de Atanásio [a Declaração de Fé Trinitária]