Deixemos a filosofia grega e voltemos para o cenário bíblico (Parte 1)
Marcelo Victor R. Nascimento
Você já parou
para pensar em como Deus gerencia o Seu próprio poder? Na teologia clássica,
costumamos ouvir que Deus é uma lista de termos absolutos: Onisciente (sabe
tudo), Onipotente (pode tudo) e Onipresente (está em tudo). Diante disso, a
mente humana tende a imaginar Deus quase como uma máquina metafísica perfeita,
presa e obrigada a processar tudo o tempo todo de forma mecânica.
Mas a Bíblia não apresenta um Deus engessado por engrenagens filosóficas. Ela apresenta um Ser Soberano. Para compreender o Deus das Escrituras Sagradas de forma profunda, precisamos fazer uma distinção fundamental, mas muito simples: a diferença entre a Natureza de Deus e a Identidade de Deus.
1 - O Cenário
Bíblico: Carne vs. Espírito
Muitas vezes, a filosofia tenta criar dezenas de gavetas para explicar o universo usando conceitos filosóficos gregos como “substância”, “essência”, “atributos incomunicáveis”, "subsitência”, etc. A Bíblia, no entanto, é muito mais prática. Quando olharmos para o texto sagrado, a realidade da existência é dividida essencialmente em duas esferas de natureza: o material (a Carne) e o espiritual (o Espírito). O próprio Jesus resume isso com precisão em João 3:6: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.”
Nesse cenário
bíblico purificado de vaidades filosóficas, os anjos e o próprio Deus habitam a
esfera do Espírito, enquanto nós habitamos a esfera da Carne. Mas se o ambiente
natural de operação de Deus é o Espírito, o que O diferencia de tudo o que
existe? A resposta está em como Sua Identidade governa a Sua Natureza.
Nota: os termos e conceitos — como substância
(ousia), essência, atributos incomunicáveis, subsistência
— não nasceram no solo da revelação bíblica, nem faziam parte da mentalidade
dos profetas hebreus ou dos apóstolos de Jesus. Eles são categorias da filosofia
grega (principalmente de Platão, Aristóteles e, mais tarde, do
Neoplatonismo) que foram, de certa forma, "importadas"
e sobrepostas ao texto bíblico a partir do século II d.C. Para quem busca uma
compreensão puramente bíblica e preza pela simplicidade do texto, entender como
essa imposição aconteceu é libertador.
2 - Natureza é
Potencial; Identidade é Governo
Para entender essa engrenagem, pense na seguinte divisão:
- A Natureza Divina (O "O Que"): é a “substância espiritual absoluta” de Deus. É o Seu reservatório de poder infinito. A natureza dá a Deus a capacidade de saber tudo, poder tudo e preencher tudo, algo que Ele pode comunicar na medida que Lhe aprover.
- A Identidade Divina (O "Quem"): é a Mente, o Caráter, as Vontades e as Convicções de Deus. É o "Coração" (o "ser interior") que direciona o poder e o diferencia dos demais seres.
A grande chave teológica é entender que os atributos servem a Deus; Deus não serve aos atributos. Ele não é escravo, por exemplo, da Sua própria onisciência. Um dos exemplos mais belos e impactantes disso está no livro do profeta Isaías: “Eu, eu mesmo, sou o que apaga as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro.” (Isaías 43:25)
Pense bem: se a
onisciência fosse uma regra mecânica e obrigatória da natureza de Deus, Ele
seria incapaz de se esquecer de algo. O esquecimento seria uma falha. Mas o texto bíblico
mostra o oposto: o esquecimento aqui é um ato voluntário de soberania.
Por uma razão de amor (Sua Identidade), Ele decide gerenciar o Seu próprio
conhecimento (Sua Natureza) e escolhe não lembrar. O Deus bíblico tem o
controle total sobre as Suas próprias capacidades.
Nota: comprovando a máxima de que Yahweh governa Suas capacidades, a Bíblia diz que: (1) A sabedoria [um
dos Seus “atributos”] aprende com Ele (Provérbios 8:30), de sorte que Ele é maior do
que toda a sabedoria que existe; e (2) Yahweh é "Pai da eternidade" [outro “atributo”] (Isaías 9:6).
3 - O Ponto Ápice:
A Manifestação na Carne
Essa compreensão
resolve um dos maiores debates da história da fé, especialmente quando olhamos
pela lente do Unicismo — a verdade de que existe um único Deus absoluto
que se manifestou a nós.
Muitos críticos
ao longo dos séculos perguntaram: “Se Jesus era o próprio Deus Único
manifesto em carne, como Ele podia sentir fome, cansaço ou dizer que não sabia
o dia da Sua própria volta?”
A resposta se
torna cristalina quando entendemos que a Identidade governa a Natureza.
Em Jesus Cristo, a Identidade de Deus (Seu caráter amoroso, Sua vontade de
salvar a humanidade e Suas convicções de justiça) tomou uma decisão soberana.
Por amor, o Deus que é Espírito e tem poder infinito decidiu voluntariamente
operar e se manifestar dentro dos limites da natureza humana.
Ele não deixou de
ser Deus, mas Sua Identidade decidiu despojar-se de certas prerrogativas da Sua natureza para viver uma experiência legitimamente humana (ser, em tudo, igual aos demais seres humanos) e nos resgatar, esvaziando-se (Filipenses 2:7).
Conclusão: O
Rosto do Deus Invisível
A Natureza
de Deus (a Divindade em si) é invisível, infinita e habita em luz inacessível
ao olho humano. Nós não podemos tocar na onipresença.
No entanto, a Identidade
de Deus — o Seu caráter, a Sua personalidade acolhedora com o aflito e firme
contra a hipocrisia, e a Sua vontade salvífica — tornou-se perfeitamente
visível, palpável e audível em Jesus.
Quando Jesus disse “Quem me vê a mim, vê o Pai”, Ele estava nos mostrando que os atributos de Deus não são equações matemáticas frias. Deus é uma Identidade viva, um Ser que ama, escolhe, decreta e que, quando quis, escolheu soberanamente apagar o nosso passado para construir um novo futuro conosco.
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.


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