Deixemos a filosofia grega e voltemos para o cenário bíblico (Parte 2)
Marcelo Victor R. Nascimento
Se você abrir a sua Bíblia agora e ler de Gênesis a Apocalipse, você
encontrará relatos de milagres, manifestações gloriosas, alianças eternas e
promessas de salvação. No entanto, há um detalhe que costuma passar
despercebido por muitos leitores: você nunca encontrará nas Escrituras
termos como "substância", "essência", "atributos
incomunicáveis" ou "subsistências".
Se essas palavras são a base de quase tudo o que se ensina sobre Deus
nas igrejas tradicionais hoje, por que os profetas hebreus e os apóstolos de
Jesus nunca as usaram? A resposta é simples, embora cause desconforto na
teologia tradicional: essas definições foram impostas de fora para dentro no
texto bíblico. Elas não nasceram da revelação divina, mas sim dos
laboratórios da filosofia grega.
1 - O Abismo entre Jerusalém e Atenas
Para compreender o estrago que o vocabulário filosófico causou na compreensão da Divindade, precisamos entender a diferença crucial entre a mentalidade bíblica (hebraica) e a mentalidade filosófica (grega):
- O Pensamento Bíblico é Dinâmico e Prático: o hebreu antigo não estava interessado em dissecar Deus em um laboratório metafísico para saber de qual "matéria invisível" Ele era feito. O hebreu conhecia a Deus por Suas ações históricas e Seu caráter. Deus é "Aquele que nos tirou do Egito", Deus é "Justo", Deus é "Amor". Na Bíblia, Deus é definido pelo que Ele "faz" e por Quem Ele "é" para o Seu povo. Ele é o Senhor Soberano que gerencia a Si mesmo — a ponto de decidir, por amor, "esquecer" os nossos pecados (Isaías 43:25).
- O Pensamento Grego é Estático e Abstrato: o filósofo grego era obcecado pela ontologia (o estudo do ser em si). Ele queria classificar a divindade em gavetas racionais: Qual a sua substância (ousia)? Como dividi-la? Quais são as suas propriedades fixas e imutáveis?
Quando a Igreja Primitiva saiu de Jerusalém e avançou pelo Império
Romano, os teólogos dos séculos posteriores começaram a ceder à pressão
cultural da época. Para fazer com que o Evangelho parecesse
"intelectualmente respeitável" aos olhos dos pagãos e dos imperadores
de Roma, eles começaram a ler a Bíblia através das lentes de Platão e
Aristóteles.
2 - A Imposição dos Concílios Políticos
O ápice dessa contaminação linguística ocorreu nos grandes concílios ecumênicos patrocinados pelo Império Romano, como o Concílio de Niceia (325 d.C.). Para tentar resolver os debates sobre quem era Jesus, os teólogos da época decidiram adotar o termo grego Homoousios (que significa "da mesma substância" ou "da mesma essência").
O fato histórico que a maioria dos seminários esconde é que, na época,
muitos bispos fiéis à simplicidade apostólica protestaram veementemente.
Eles argumentavam que aquela palavra não estava na Bíblia e que introduzir
termos filosóficos obscureceria a verdade do Evangelho. Infelizmente, a pressão
política e o desejo de padronização do Império venceram. A partir dali, o Deus
vivo e soberano das Escrituras foi substituído por um quebra-cabeça metafísico
de "substâncias" e "pessoas".
3 - A Resposta Unicista: O Retorno à Simplicidade Apostólica
É exatamente aqui que a fé unicista se levanta como uma voz de
restauração. O Unicismo não é apenas uma teologia diferente; é a rejeição
completa das muletas filosóficas que Roma impôs à Palavra de Deus.
Quando limpamos o texto sagrado dessas definições humanas e estáticas,
as contradições desaparecem e a beleza do mistério da piedade brilha em sua
pureza original:
1. Não dividimos a "substância" de Deus: não precisamos de termos gregos para entender o poder da onipresença de Deus que o capacita a ser transcendente (transcender as dimensões) e imanente (apresentar-se e relacionar-se com Suas criaturas) simultaneamente, sem afetar Sua identidade (ser interior).
2. Abraçamos o vocabulário bíblico das
manifestações: nós
simplesmente cremos no que a Bíblia diz de forma prática. Deus é o Pai na
criação, manifestou-Se na carne como o Filho para nossa redenção, e habita em
nós como o Espírito Santo na regeneração.
Deus não é escravo de "atributos" matemáticos e fixos
desenhados por filósofos. Ele é o Espírito Soberano que governa a Sua própria
natureza. E quando essa Identidade Suprema quis Se dar a conhecer de forma
visível, audível e palpável, Ela não nos enviou uma tese filosófica sobre Sua
"substância" — Ela se revelou em um Nome que está acima
de todo nome (Jesus, que significa Yahweh é salvação).
A Bíblia não precisa que a filosofia grega explique Deus. Ela só precisa
ser crida como foi escrita. E as Escrituras são categóricas: “E, sem
dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne”
(1 Timóteo 3:16). Fora disso, o que resta são apenas conceitos de homens.
Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe acomodar-se e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1]. Foi por esse mesmo atributo, que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.


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