“Eu lhes dou a vida eterna...e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28)
O capítulo 10 do
Evangelho de João registra um dos confrontos teológicos mais intensos e
reveladores do Novo Testamento. No calor de uma discussão com os líderes
religiosos de Sua época, Jesus faz uma série de afirmações que servem como
provas definitivas para duas das verdades mais profundas das Escrituras: o unicismo
— a revelação de que há um único Deus absoluto (Yahweh) manifestado em carne —
e a kenosis radical — o fato de que este Deus se esvaziou de Seus
atributos cósmicos incomunicáveis para viver uma experiência legitimamente
humana, sendo, em tudo, igual aos demais seres humanos (Hebreus 2:17).
Quando olhamos
para as Suas palavras sob essa dupla ótica, a aparente distinção entre o Filho
e o Pai desaparece, dando lugar à revelação de um único Ser operando em duas
dimensões.
1. Uma Só Mão,
Um Só Dono
No versículo 28,
Jesus faz uma promessa ousada sobre aqueles que O seguem: “eu lhes dou a
vida eterna... e ninguém as arrebatará da minha mão”. Logo no
versículo seguinte, Ele amplia a afirmação: “...e ninguém pode arrebatá-las
da mão de meu Pai” (João 10:29).
Para quem divide
a divindade em pessoas distintas, haveria aqui uma espécie de "dupla
segurança" em duas mãos literais diferentes. Contudo, a lógica unicista
demonstra que a mão do Filho é a própria mão do Pai.
A kenosis
radical nos lembra de que o Deus Invisível esvaziou-se de Sua onipresença
física para assumir uma mão de carne, visível e histórica. O texto mostra que,
embora a mão que os discípulos tocavam fosse a mão humana do Filho (o Deus
esvaziado), a segurança eterna daquelas ovelhas repousava no fato de que aquela
mesma mão humana era a manifestação visível do poder invisível do Pai. As
ovelhas não mudam de dono; elas estão no mesmo e único lugar.
2. O
Significado de "O Pai é Maior do que Todos"
No mesmo
discurso, Jesus declara que o Pai “é maior do que todos”. Muitas
correntes teológicas usam esse trecho para tentar rebaixar Jesus a uma
categoria inferior à de Deus. A kenosis radical desata esse nó com
perfeição.
Enquanto homem na
Terra, em Seu estado de humilhação, fraqueza e esvaziamento voluntário, Jesus
operava dentro das limitações humanas. Nesse sentido de "condição"
humana, o Pai (Deus em Sua existência espiritual, onipresente e ilimitada no
céu) é logicamente "maior". Não há uma diferença de natureza
ou de ser (do homem interior), mas sim de estado. O Espírito
infinito (Pai) é maior em extensão e poder manifesto do que a carne limitada
(Filho) à qual Ele voluntariamente se restringiu por amor, para nos salvar.
3. A Equação
Insofismável: "Eu e o Pai Somos Um"
Após colocar as
ovelhas simultaneamente na Sua mão e na mão do Pai, Jesus faz o fechamento
perfeito que une as duas dimensões: “Eu e o Pai somos um.” — João 10:30
No original
grego, a expressão utilizada (hen esmen) indica uma unidade de identidade
— um só ser. Jesus não estava dizendo apenas que Ele e o Pai tinham pensamentos
parecidos, mas que Eles eram a mesmíssima pessoa.
Portanto, apesar
de todo o Seu esvaziamento na carne, a identidade pessoal de Jesus é a
identidade de Yahweh. Ao dar a vida eterna (uma prerrogativa estritamente
divina), Ele prova que o Ser que habita aquela carne é o Deus Único (2
Coríntios 5:19).
4. A Reação
dos Judeus: Eles Compreenderam o Unicismo
A prova final de
que as palavras de Jesus apontavam para o unicismo radical está na reação
imediata dos judeus. Eles pegaram em pedras para apedrejá-Lo e explicaram o
motivo: “...não é por nenhuma obra boa que vamos apedrejar-te, mas por
blasfêmia, porque tu, sendo homem, te fazes Deus a ti mesmo.” — João
10:33
Os judeus eram
monoteístas estritos. Se Jesus estivesse pregando que era uma "segunda
pessoa" ao lado de Deus, a acusação seria de que Ele estava
introduzindo um segundo deus (ditraísmo). Mas a acusação deles foi cirúrgica: “tu,
sendo homem [a realidade visível da kenosis], te fazes Deus a ti
mesmo [reivindicando ser o próprio Yahweh]”.
Eles compreenderam perfeitamente o impacto do discurso: Aquele homem de vestes simples e pés empoeirados estava afirmando ser o próprio Deus Altíssimo manifestado diante deles. Para a mente deles, que rejeitava o mistério da encarnação, aquilo parecia uma blasfêmia; para nós, é a base da nossa fé.
|
João
10: Revelação |
|
|
A
Kenosis Radical |
O
homem limitado (Filho) |
|
O
Unicismo Absoluto |
O
Espírito Infinito (Pai) |
|
A
Mão do Filho |
É a
Mão do Pai |
|
"Eu
e o Pai" |
"Somos
Um" (O Mesmo Ser) |
Conclusão
O diálogo de João
10 valida com precisão a harmonia entre o esvaziamento de Cristo e a Sua
divindade absoluta. Na kenosis, Ele se apresentou como o homem
limitado que segura as ovelhas; no unicismo, Ele revela que a Sua
mão e a do Pai são uma só.
O Deus invisível
que "é maior do que todos" tornou-Se visível e tangível
para segurar a sua vida em Seus braços de amor. Confiar em Jesus é saber que
você está guardado de forma segura, definitiva e eterna na mão do próprio Deus
Todo-Poderoso.
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.


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