No Céu e na Terra ao Mesmo Tempo: O Mistério da Onipresença e do Esvaziamento de Deus

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

A imagem refere-se à conversa de Jesus com Nicodemus dizendo que estava no céu naquele  exato momento em que estavam juntos (João 3:13)

Marcelo Victor R. Nascimento

Uma das maiores barreiras que as pessoas encontram ao tentar compreender a encarnação de Deus em Jesus Cristo é uma pergunta geográfica: “Se Jesus era o Deus Único na Terra, quem estava governando o universo e sentado no trono do Céu?”

Para tentar responder a isso, a teologia tradicional — profundamente influenciada pela filosofia grega — preferiu dividir a Divindade em três pessoas distintas. Eles imaginaram que uma pessoa ficou no Céu cuidando do trono, enquanto a outra pessoa desceu para a Terra. Mas a Bíblia não divide Deus. Ela apresenta uma solução muito mais profunda, que glorifica a soberania divina. A verdade bíblica e unicista é simples: pelo poder da Sua onipresença, Deus continuou assentado no Seu trono governando o cosmos e, ao mesmo tempo, em um esvaziamento (kénosis) radical, Ele veio ao mundo assumindo a nossa natureza humana limitada.

Para entender como isso funciona sem contradições, precisamos compreender a imensidão de Deus e como Seus atributos cooperam para a nossa salvação.


1. A Transcendência e a Onipresença Gloriosa de Yahweh

O primeiro erro da filosofia humana é tentar prender Deus a limites geográficos. A Bíblia é categórica ao afirmar que Yahweh desafia qualquer barreira de espaço ou dimensão:

  • Ele supera o espaço: “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter...” (1 Reis 8:27).
  • Ele transcede as dimensões conhecidas: A grandeza de Deus é mais alta do que os céus e mais profunda do que o inferno (Jó 11:8-9).
  • Nós habitamos nEle: Tamanha é a Sua imensidão espiritual que o apóstolo Paulo declarou que “nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28)

No entanto, o magnífico atributo da onipresença divina (Salmos 139:8-12) permite que esse Deus infinito faça algo extraordinário: Ele consegue se acomodar e se manifestar às Suas criaturas. Para que o mundo espiritual e o universo compreendam Seu governo, Yahweh se apresenta visivelmente assentado em um trono glorioso (1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3), lugar de onde Ele preside soberanamente sobre a assembleia celestial e sobre todo o Universo (Salmos 82:1).

Nota: é possível que alguém imagine que Deus tenha um corpo físico gigante e fosse material, de sorte que, para vir à Terra, Ele teria que desocupar o Céu. Contudo, tais conceitos caem por terra quando Jesus disse que a natureza de Deus é espiritual, i.e., não ocupa espaço: Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4:24). Pelo atributo da onipresença, Deus preenche e sustenta toda a realidade visível e invisível simultaneamente, conforme afirma o profeta Jeremias nos seguintes termos: Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o Senhor. Porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor.” (Jeremias 23:24). Portanto, o Trono do Universo nunca ficou vazio. O mesmo e único Deus, em Sua infinitude espiritual, continuou no controle absoluto das galáxias, ouvindo as orações da humanidade e mantendo as leis da física em pleno funcionamento enquanto caminhava na terra como o Cordeiro de Deus.


2. O Trono e a Manjedoura: Duas Manifestações, o Mesmo Deus

Foi por causa desse mesmo atributo da onipresença que Yahweh foi perfeitamente capaz de manter-Se assentado no trono da Sua glória celestial e, ao mesmo tempo, esvaziar-Se de Si mesmo (Filipenses 2:7).

Jesus desfez a lógica geométrica humana ao definir a Natureza de Deus como Espírito (João 4:24). Um espírito não pode ser cortado ou dividido em pedaços. Por isso, o próprio Jesus Cristo resolveu essa equação teológica quando olhou para Nicodemos e disse: Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu.” (João 3:13).

Jesus estava ali em carne e osso na Terra, mas Yahweh continuava preenchendo o Trono. Não eram duas consciências ou duas pessoas divinas separadas. Era o Único Deus operando em duas dimensões simultaneamente:

  • Como Deus (em Sua natureza espiritual): Ele continuava no trono governando o cosmos.
  • Como Homem (em Sua natureza limitada): Ele se esvaziou das prerrogativas do Seu poder para viver como um homem perfeito (Hebreus 2:17), sujeito a dor, ao cansaço e à morte para salvar o pecador.


3. O Cumprimento da Promessa: "Eu Mesmo Buscarei"

Essa kénosis radical e onipresente não foi um improviso teológico; foi o cumprimento exato da palavra empenhada pelo próprio Criador no Antigo Testamento. Deus havia prometido que não enviaria um terceiro ou um substituto para nos salvar. Ele viria pessoalmente.

Através do profeta Ezequiel, Yahweh selou o compromisso que se cumpriria séculos mais tarde nos caminhos da Galileia e no madeiro do Calvário: Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão.” (Ezequiel 34:11-12)

Quando olhamos para Jesus Cristo como o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas, estamos vendo o cumprimento literal de Ezequiel. É Yahweh manifestado em carne.

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Conclusão: A Grandeza do Deus Único

A teologia tradicional precisa de "três pessoas" porque desenhou um Deus pequeno, que só consegue estar em um lugar se desocupar o outro. A fé unicista, respaldada estritamente pelas Escrituras, adora o Deus cuja soberania desafia os limites humanos.

Deus é tão grande que o Seu Espírito continuou assentado no trono da majestade celestial presidindo o Universo; e, ao mesmo tempo, Ele é tão amoroso e humilde que usou Sua onipresença para se esvaziar, vestir a nossa pele, buscar as Suas ovelhas perdidas e morrer por nós.

Jesus é Yahweh cumprindo a Sua promessa: o Deus que governa o universo a partir do trono, e o Pastor que deu a vida por nós na cruz. Tudo ao mesmo tempo, por infinito amor. Tudo no mesmo e Único Deus.

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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