O "Bom Pastor": Yahweh se Fez Carne e Veio Pessoalmente Buscar Suas Ovelhas
Marcelo Victor R. Nascimento
Quando Jesus
caminhava pelas terras da Palestina e chamava os Seus seguidores de “ovelhas”,
Ele não estava apenas usando uma metáfora poética sobre cuidado e proteção.
Para os judeus que conheciam as Escrituras Sagradas, aquele termo ecoava uma
das promessas messiânicas mais profundas do Antigo Testamento.
Ao conectarmos o
discurso do Novo Testamento à profecia de Ezequiel 34, sob a ótica do unicismo
e da kenosis radical, descobrimos uma verdade insofismável: Jesus
e Yahweh não são pessoas distintas dividindo o trabalho de pastoreio.
Eles são o mesmo e único Deus cumprindo Sua palavra na história.
1. A Promessa
de Yahweh: "Eu Mesmo Irei"
No livro do
profeta Ezequiel, Deus faz uma denúncia severa contra os falsos líderes de
Israel que abandonaram o rebanho. Diante do cenário de dispersão, o próprio
Yahweh assume a responsabilidade do resgate de forma categórica e enfática: “Pois
assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei as minhas ovelhas e
as buscarei.” — Ezequiel 34:11
No original
hebraico, a expressão usada é Hineni-Ani (cuja tradução literal é "Eis-me
aqui, eu mesmo"). Essa construção elimina qualquer possibilidade
de Deus enviar um intermediário criado, um anjo ou uma suposta "segunda
pessoa" divina para fazer o Seu trabalho. O Dono do rebanho
garantiu que viria pessoalmente.
Séculos mais
tarde, no Evangelho de João, Jesus se apresenta ao mundo dizendo: “Eu sou o
bom pastor” (João 10:11). Sob a lente da kenosis radical, entendemos
o mistério: o Deus Invisível do Antigo Testamento esvaziou-se de Sua glória
cósmica e de Seus atributos inacessíveis para assumir a forma de um pastor
humano e visível (Filipenses 2:7). Jesus é o "eu mesmo" de Yahweh vestindo a nossa
pele.
2. A Manobra
Trinitária para Escapar do Triteísmo
É justamente
diante de passagens categóricas como essa que a teologia trinitária se vê
obrigada a recorrer a uma complexa engenharia conceitual. Para sustentar a
ideia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo possuem centros de consciência e
vontades individuais — agindo muitas vezes em diálogos ou pactos entre si —, a
Trindade acaba criando a imagem de três pessoas distintas.
No entanto, ao
defender que existem três pessoas divinas reais e individuais, essa teologia
esbarra inevitavelmente na heresia do triteísmo (a crença em três
deuses), o que destruiria o monoteísmo bíblico radical. Para descaracterizar
essa contradição e "salvar" a doutrina, o sistema
trinitário realiza uma manobra abstrata: afirma que essas três pessoas
distintas, quando somadas ou fundidas em uma única substância, formam "um
só Deus".
Para o unicismo, essa matemática divisória é um sofisma humano. As Escrituras não dizem que três pessoas juntas formam um Deus; elas afirmam que há um único Deus que Se manifestou de diferentes formas (como dizem a maioria dos manuscritos: "Deus manifestou-se em carne" — 1 Timóteo 3:16). Na profecia de Ezequiel, Yahweh não diz "Nós, as três pessoas da divindade, buscaremos as ovelhas". Ele diz: “Eu, eu mesmo”. Atribuir o pastoreio a uma divisão de pessoas é desconfigurar a própria essência da promessa monoteísta.
3. Quem é o
Servo "Davi" em Ezequiel 34?
Uma aparente tensão surge no mesmo capítulo de Ezequiel. Enquanto no versículo 11 Yahweh diz que Ele mesmo pastoreará, no versículo 23 Ele declara: “E levantarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi; ele as apascentará e lhes servirá de pastor.” — Ezequiel 34:23. Como o rei Davi histórico já havia morrido há séculos quando Ezequiel profetizou, a referência aponta diretamente para o Messias — Jesus Cristo, descendente de Davi segundo a carne (Romanos 1:3).
Enquanto a manobra trinitária tenta enxergar aqui duas pessoas divinas separadas (uma no céu enviando e outra na Terra executando), o unicismo fundamentado na kenosis mostra que a equação é perfeitamente simples: O "Davi" profético (Jesus) é a forma humana e visível pela qual o Deus Único (Yahweh) realizou o Seu pastoreio. Deus esvaziou-se para assumir a linhagem, a limitação e a humanidade da semente de Davi. O Deus invisível (o Pai, em Espírito) operou o resgate tornando-se o pastor visível e tangível (o Filho, em carne) (2 Coríntios 5:19).
4. Uma Única
Pessoa Divina
Se o pastoreio
final fosse exercido por um ser numericamente diferente de Yahweh, a promessa
solene de Ezequiel 34:11 teria sido quebrada. O monoteísmo bíblico exige que o
Dono das ovelhas e o Salvador que veio buscá-las sejam o mesmíssimo Ser
pessoal.
A distinção que as Escrituras fazem entre Yahweh e o Seu Servo não é uma separação de deuses ou de pessoas no céu, mas o mistério glorioso da encarnação (a Palavra é que se fez carne e não um suposto “filho” eterno). É a diferença necessária entre Deus em Sua existência espiritual, infinita e transcendente (o Pai) e Deus manifestado no tempo, em Seu estado de esvaziamento, cansaço, poeira e doação na Terra (o Filho).
|
A
Equação do Bom Pastor |
|
|
A
promessa (a divindade) |
“Eu
mesmo buscarei” (Yahweh) |
|
O
cumprimento (a carne) |
“Eu
sou o bom pastor” (Jesus) |
|
A
manobra trintária |
3
pessoas = 1 Deus |
|
O
Unicismo bíblico |
1
único Deus em carne |
|
Yahweh
(o Pai)=======o mesmo=======Jesus (o Filho) |
|
Conclusão
A análise
profética confirma o cerne da fé unicista: o homem Jesus, que se esvaziou
radicalmente para sentir as dores, as limitações e o cansaço humanos, é o
próprio Deus Altíssimo do Antigo Testamento.
O Criador do
universo não delegou a sua salvação a uma comissão de pessoas divinas, nem
fragmentou Sua essência (Sua identidade) para nos resgatar. Ele mesmo veio,
vestiu-se com a nossa humanidade e, como o verdadeiro e único Bom Pastor, deu a
Sua vida para resgatar o Seu rebanho e trazê-lo de volta para Si.
A grande verdade
das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o
infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal
se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o
onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria
e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o
tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o
Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado
deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.


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