O "dualismo platônico", uma influência perversa no mundo cristão (Parte 2)
Quando analisamos
a encarnação sob a ótica de Filipenses 2:7 e Hebreus 2:17, fica evidente que o
dualismo platônico é ainda mais inadequado para explicar Cristo. Jesus não
assumiu um corpo apenas como um "disfarce" ou mantendo
seus poderes divinos intocados em uma redoma. Ele mergulhou voluntariamente na
fragilidade humana completa, podendo ser chamado de segundo e último Adão (1 Coríntios 15:45).
1. A Kenosis
Radical (Filipenses 2:5-7)
O termo grego kenosis significa literalmente "esvaziamento".
- O
Despojamento: ao fazer-se homem, Yahweh não perdeu Sua
identidade, mas abriu mão voluntariamente do uso independente de Seus
atributos divinos (como a onipotência, onipresença, onisciência,
imutabilidade, indivisibilidade, auto existência, eternidade).
- A Forma de
Servo: Ele não teve por usurpação vir à Terra com Seus
atributos de poder, mas submeteu-se inteiramente às limitações biológicas de um
corpo humano comum. Ele sentiu cansaço, precisou dormir, aprendeu uma
profissão, chorou e dependeu totalmente da capacitação do Espírito Santo para
realizar milagres (Atos 10:38).
Nota: o fato da Bíblia declarar que o Verbo de Deus quando se fez carne tornou-se “menor do que os anjos” (Hebreus 2:7), indica que a eterna Palavra de Yahweh, necessariamente, despojou-se dos Seus atributos de poder, caso contrário, com toda a Sua glória, Ela jamais seria menor do que as criaturas celestiais, a não ser que se creia (como defendem algumas religiões) que Jesus era uma espécie de “deus menor”, ou um “semideus”, ou uma espécie de “divindade humana” (deus+homem), ou um "super-homem", constituindo-se em um ser híbrido.
2. A
Identificação Total (Hebreus 2:14-17)
O autor de Hebreus radicaliza essa humanidade ao dizer que Ele precisava ser feito "em tudo semelhante aos irmãos".
- Se o corpo humano fosse intrinsecamente mau ou uma restrição vergonhosa, essa identificação seria impossível.
- Jesus não teve uma "super-humanidade" imune à dor ou às fraquezas biológicas. Ele experimentou a fadiga física, as limitações do crescimento humano (Lucas 2:52) e a dor real da morte.
3 - O Erro da Filosofia Grega à Luz da Kenosis
Muitas teologias
modernas, influenciadas inconscientemente pelo platonismo, desenham um Jesus na
Terra que é um "Super-Homem" simulando ser humano —
alguém que finge cansaço, mas que no fundo está usando a onipotência divina o
tempo todo. Isso é uma heresia sutil chamada Docetismo fantasioso.
A Kenosis prova exatamente o oposto: Deus valorizou tanto o corpo e a existência humana que aceitou viver confinado e limitado por eles. Ele não usou Sua divindade como um "escudo" para não sofrer as agruras da matéria, nem tão pouco para não morrer como os demais homens, permanecendo no coração da terra por três dias e três noites (Mateus 12:40).
4. O "Trinitarianismo Platônico"
A doutrina da Trindade não foi inventada por Platão, mas os padres da igreja romana utilizaram o vocabulário e conceitos da filosofia grega (incluindo o platonismo) para tentar explicar e sistematizar a natureza de Deus. Assim sendo, dizer que a Trindade tem "bases platônicas" pode ser um exagero histórico, mas é correto afirmar que a formulação teológica da Trindade utilizou a linguagem e a lógica da filosofia grega para se estruturar, até porque a "imortalidade da alma" ensinada pelo filósofo Platão é um dos pilares dessa doutrina filosófica da igreja romana quando o assunto é a morte de Jesus.
O fato é que os cristãos devem olhar para as doutrinas inventadas pelos homens, como a Trindade, com muita reserva e não fazer delas condição para classificar as instituições como cristãs ou não, pois, como diz o professor e teólogo Ênio Mueller: “Toda teologia é uma tentativa de aproximar o homem da verdade e por mais profunda [intelectual e rebuscada] que pareça não passa de uma tentativa”.
O segredo é ficar com a Bíblia, olhando para os "rudimentos da doutrina de Jesus Cristo", o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5:20), descritos em Hebreus com as seguintes palavras: “Por isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno” (Hebreus 6:1,2).
Conclusão
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.





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