O Senhor dos Exércitos (Jesus) x O Príncipe dos Exércitos (Miguel)
Marcelo Victor R. Nascimento
No cenário teológico atual, muitas teorias tentam
rebaixar a identidade de Jesus Cristo, afirmando que Ele existia no Antigo
Testamento como uma criatura angelical de alta patente — mais especificamente,
o Arcanjo Miguel, negligenciando o fato de que Jesus é a eterna Palavra de Deus
que se fez carne e habitou entre nós há cerca de 2 mil anos atrás (João 1:14; Apocalipse 19:13). Para
fundamentar isso, costuma-se confundir os títulos militares das Escrituras.
No entanto, uma análise rígida do texto bíblico e da
hermenêutica correta revela um abismo intransponível entre dois títulos: O
Senhor dos Exércitos e O Príncipe dos Exércitos.
Nesta matéria, vamos desatar esse nó de forma simples
e direta, provando que Jesus não é um anjo, mas o próprio Deus Todo-Poderoso
manifestado em carne.
1. O Príncipe dos Exércitos (Sar):
Uma Posição de Serviço
O Antigo Testamento menciona a figura de Miguel utilizando termos específicos no hebraico. Em Daniel 10:13, 21 e 12:1, ele é identificado como "um dos primeiros príncipes", "vosso príncipe" e "o grande príncipe". A palavra hebraica para príncipe aqui é שַׂר (Sar), que significa "capitão", "chefe de guarnição" ou "magistrado".
- Autoridade Delegada: Miguel não é o dono do exército celestial; ele é um general criado por Deus para liderar uma parte das hostes espirituais. Sua autoridade é restrita e subordinada.
- Limitação de Poder: Prova disso está em Judas 1:9, onde o arcanjo Miguel, disputando o corpo de Moisés, não ousou repreender o diabo por conta própria, mas teve que recorrer a uma instância superior dizendo: "O Senhor te repreenda". Miguel é um servo de alta patente, mas continua sendo uma criatura.
Nota: o nome hebraico Mikha'el
significa uma pergunta retórica: "Quem é como Deus?" ou “Quem
é semelhante a Deus?”. O nome Jesus, por sua vez, significa "Yahweh é
salvação" ou "o Senhor é salvação”.
2. O Senhor dos Exércitos (Yahweh
Sabaoth): A Majestade Suprema
Diferente do título de príncipe, a expressão “O
Senhor dos Exércitos” (Yahweh Sabaoth) nunca se refere a um anjo.
Ela pertence com exclusividade ao Deus Único e Soberano. Ela não aponta para um
líder de pelotão, mas para o Dono Absoluto de tudo o que existe — das
estrelas do céu aos bilhões de seres celestiais.
As Escrituras pintam um retrato impressionante e
estarrecedor de quem é o Yahweh Sabaoth:
A - A Fonte do
Poder e Controle da Natureza
Ele não depende de
armas criadas; o Universo responde ao Seu comando. Ele é "aquele que
forma os montes, cria o vento e revela os seus pensamentos ao homem (...);
Senhor, Deus dos Exércitos, é o seu nome" (Amós 4:13). Ele é o Deus "que
agito o mar para que suas ondas rujam; Senhor dos Exércitos é o meu nome"
(Isaías 51:15). Quando Ele decide agir na história humana, Ele declara: "Dentro
de pouco tempo farei tremer o céu, a terra, o mar e o continente"
(Ageu 2:6).
B - O Defensor e
Redentor do Seu Povo
Foi sob esse nome
que o jovem Davi derrubou o gigante Golias: "Eu vou contra você em nome
do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel" (1 Samuel
17:45). O Salmo 46:7-11 canta essa segurança: "O Senhor dos Exércitos
está conosco; o Deus de Jacó é a nossa torre segura (...). Ele dá fim às
guerras até os confins da terra; quebra o arco e despedaça a lança". O
profeta Jeremias conforta os cativos lembrando que "o Redentor deles é
forte; Senhor dos Exércitos é o meu nome; ele mesmo defenderá a causa
deles" (Jeremias 50:34).
C - O Juiz Supremo
e Santo
Diante d'Ele, a
adoração é absoluta. Os serafins clamam: "Santo, santo, santo é o
Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória"
(Isaías 6:3). Como Juiz, Ele ouve o clamor dos injustiçados, pois "o
lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos"
(Tiago 5:4). Ele estabelece decretos de justiça soberanos: "O Senhor
dos Exércitos está reunindo um exército para a guerra" (Isaías 13:4) e
"O Senhor levanta a sua voz à frente do seu exército (...) Quem poderá
suportá-lo?" (Joel 2:11).
Ele é o Deus "grande
e poderoso, cujo nome é o Senhor dos Exércitos" (Jeremias 32:18), que
exige reverência e santidade no Seu culto, advertindo aqueles que o profanam: "Não
tenho prazer em vocês, diz o Senhor dos Exércitos, e não aceitarei as suas
ofertas" (Malaquias 1:10). E, em Sua soberana misericórdia, Ele é
Aquele que preserva a vida para que a humanidade não seja totalmente destruída:
"Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendentes, já
estaríamos como Sodoma" (Isaías 1:9; Romanos 9:29).
D - O Alvo da
Nossa Adoração
As ordens do
Senhor dos Exércitos são executadas por decretos soberanos, decretando punições
matrimoniais e militares, como quando diz: "Derrubem as árvores e
construam rampas de cerco" (Jeremias 6:6) ou "Eu os
castigarei. Seus jovens morrerão à espada" (Jeremias 11:22). A
história humana caminha para o grande acerto de contas, pois "aquele
dia pertence ao Soberano, ao Senhor dos Exércitos. Será um dia de
vingança" (Jeremias 46:10).
Mas para aqueles
que se voltam a Ele em arrependimento ("Voltem para mim, e eu me
voltarei para vocês", diz o Senhor dos Exércitos — Zacarias 1:3), há
uma promessa incomparável de paternidade: "No dia em que eu agir, diz o
Senhor dos Exércitos, eles serão o meu tesouro pessoal. Eu terei compaixão
deles como um pai tem compaixão do filho que lhe obedece." — Malaquias
3:17
Conclusão: Quem é o Senhor dos
Exércitos no Novo Testamento?
Para nós, cristãos unicistas, essa avalanche de textos
bíblicos deixa uma verdade cristalina: o Senhor dos Exércitos não opera "por
força nem por violência, mas pelo meu Espírito" (Zacarias 4:6). Ele é
o Soberano absoluto que recebia adoração e sacrifícios desde os dias do
tabernáculo em Siló (1 Samuel 1:3).
Quando o Novo Testamento se abre, esse mesmo e único
Espírito de Yahweh Sabaoth — o Deus que pisa as montanhas e acalma as
ondas do mar — manifestou-se de forma visível e definitiva. Ele não se
transformou no anjo Miguel. Ele esvaziou-se de Si mesmo (Filipenses 2:7) para manifestar-se
em carne humana (1 Timóteo 3:16), sendo, em tudo, igual aos demais homens (Hebreus 2:17).
O bebê nascido em Belém, que cresceu, curou enfermos,
repreendeu demônios com autoridade própria e morreu na cruz para nos salvar é o
próprio Senhor dos Exércitos vestindo a nossa humanidade. Jesus Cristo é
o Rei da Glória!
Reflexão Final:
O pensamento de que a relação de Deus com a humanidade no Velho Testamento ocorria, em alguns casos, através de “cristofanias” (aparição de Jesus) é um erro teológico grave, à medida que dá respaldo indireto ao trinitarismo, pois sugere que o Filho já existia como uma pessoa distinta e separada de Yahweh antes do Seu nascimento em Belém. Contudo, a Bíblia afirma que Jesus não é uma "segunda pessoa" preexistente, mas sim a encarnação da eterna Palavra de Deus (João 1:14; Apocalipse 19:13), que em determinado momento da história seria gerada como Filho: “Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” — Hebreus 1:5.
Salvo melhor juízo (das Escrituras), os verbos no futuro ("serei" e “será”), em Hebreus 1:5, são claros em revelar que não há eternidade nos títulos "Pai" e "Filho", mas se trata de algo circunstacial, como parte do plano de redenção para a humanidade caída.
Apesar dessa verdade bíblica transparente e cristalina, determinadas religiões insistem em defender as "cristofanias" no Velho Testamento, pois suas teologias dependem desse conceito herético para sobreviver. Para algumas delas, a expressão "voz de arcanjo", de 1 Tessalonicenses 4:16, comprova, por exemplo, que o arcanjo Miguel é Jesus.
Para o Unicismo Apostólico, no entanto, o que operava no passado não era um "Filho eterno" em corpo espiritual, mas o Deus Único que manifestava o Seu poder por meio de agências angelicais (Atos 7:35-38, 53; Gálatas 3:19; Hebreus 2:2). De sorte que a "voz do arcanjo" é tão somente um dos elementos que compõe a vinda gloriosa do grande "Rei dos reis" e "Senhor dos senhores" no final dos tempos (Apocalipse 19:16).
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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