"O verbo se fez carne" [a si próprio]: uma ação reflexiva
Marcelo Victor R. Nascimento
No cenário teológico atual, a busca por compreender a natureza de Deus frequentemente esbarra em tradições humanas que fragmentam a soberania do Todo-Poderoso. De um lado, o trinitarismo tenta dividir a divindade em "pessoas distintas"; de outro, o unitarismo comete a heresia de rebaixar o Messias, transformando o Filho em um "deus-menor" criado pelo Pai.
No entanto,
quando mergulhamos nas Escrituras Sagradas sem as lentes do dogma
denominacional, a verdade da Unicidade de Deus e o mistério da Kenosis
Radical (o esvaziamento de Deus para se tornar homem) brilham com clareza
absoluta (Deuteronômio 6:4; Filipenses 2:7). A Bíblia não ensina uma divisão de
pessoas, nem a criação de um ser inferior: Ela ensina que o próprio
Yahweh se manifestou na carne (1 Timóteo 3:16)
1 - O Verbo se
Fez Carne: Uma Ação Reflexiva do Próprio Deus
Para
compreendermos a encarnação, precisamos olhar atentamente para o texto de João
1:14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
No original
grego, o escritor bíblico faz uso de uma construção que caracteriza uma ação
reflexiva — ou seja, uma ação executada pelo próprio sujeito e que se
reflete nele mesmo. O Verbo não foi transformado por terceiros; a Palavra não
recebeu uma ordem externa para se tornar humana.
As Escrituras
ensinam de forma clara: a Palavra de Yahweh tornou-se carne por Ela
própria, e não por intermédio de outra pessoa. Isso aniquila o
pensamento unitarista. Jesus não é um agente secundário ou uma criatura enviada
para realizar uma missão ordenada a um subordinado. Ele é o próprio Verbo que,
de forma voluntária e soberana, executou a kenosis radical,
vestindo-se de humanidade.
2 - O Salmo
2:7 e Mateus 1:20: Quem Afinal Gerou o Filho?
Se a Palavra se
fez carne por si mesma, como entender o Salmo 2:7, onde lemos que Yahweh
(o Pai) gerou o Seu Filho?
Para a mente
natural ou influenciada por heresias, esse texto gera confusão. No entanto, o
mistério se desvenda por completo e de forma esmagadora quando cruzamos o
Antigo Testamento com o relato de Mateus 1:20, onde o anjo declara a
José: “...não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado
é do Espírito Santo”.
Aqui o estudante
sincero da Bíblia deve se fazer uma pergunta lógica e inescapável: Se o
Salmo 2:7 diz que quem gerou o Filho foi Yahweh (o Pai), mas Mateus 1:20 afirma
categoricamente que quem O gerou foi o Espírito Santo, Jesus teria dois pais?
Claro que não! A
resposta é uma só: Yahweh, o Pai, e o Espírito Santo são a mesmíssima
pessoa. Ou seja, "Espírito Santo" não é uma
terceira pessoa divina, mas sim o próprio ser de Deus que emana de si próprio
para realizar a ação santa e criadora. O "gerar" não
aponta para a criação de um ser espiritual menor no céu (erro unitarista), nem
para uma "geração eterna" interdivina (erro
trinitário). Aponta para o momento exato em que o Deus Único e Invisível, em uma emanação do Seu ser, gerou a humanidade de Jesus no ventre de Maria há
cerca de 2 mil anos atrás.
A única maneira
de manter a harmonia perfeita entre João 1:14, Salmo 2:7 e Mateus 1:20 é
concluir que a Palavra, o Pai e o Espírito Santo são manifestações de uma
única e indivisível pessoa divina.
3 - Colocando
em Xeque os Erros Dogmáticos
Essa teia
exegética indestrutível coloca em xeque e desmonta os dois principais conceitos
teológicos adotados pela maioria das religiões atuais:
3.1. O Erro
Unitarista (O Filho como um "Deus-Menor")
O pressuposto
unitarista cai por terra porque, se o Filho fosse uma mera criatura ou um
"deus-menor" moldado pelo Pai, João 1:14 não poderia
usar um sentido reflexivo. Uma criatura não tem o poder de se "fazer
carne" por si mesma. Além disso, a Bíblia diz que o Filho foi
gerado pelo próprio Espírito de Deus, tornando-O o próprio Deus Supremo
manifestado em carne (o Emanuel), e não uma divindade de segunda
categoria.
3.2. O Erro
Trinitário ("Pessoas Distintas na Divindade")
O pressuposto
trinitário falha de forma gritante diante de Mateus 1:20. Se o Pai e o Espírito
Santo fossem duas "pessoas distintas", a paternidade de
Jesus estaria dividida entre dois deuses, o que é um absurdo teológico, pois a Bíblia estaria violando o
monoteísmo estrito do Shema (Deuteronômio 6:4).
Conclusão: A
Beleza da Unicidade Divina
A kenosis
radical nos mostra a grandeza do amor de Deus: o Criador não
enviou um substituto, um anjo ou um "filho criado" para morrer por
nós. Ou seja, Ele veio pessoalmente, como havia prometido na seguinte passagem:
"Porque assim
diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as
buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio
das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de
todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão"
(Ezequiel 34:11,12).
Quando olhamos
para Jesus Cristo, não estamos olhando para um "deus-menor"
unitarista, nem para a "segunda pessoa" de uma
trindade. Estamos olhando para o próprio Yahweh que, sendo Espírito, operou no
ventre de Maria para se fazer carne por Sua própria ação soberana. Ele é o Uno,
o Único, o Pai que se manifestou como Filho, e fora d'Ele não há salvador.
Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe acomodar-se e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1]. Foi por esse mesmo atributo, que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores.
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de Deus!
Referências
Bibliográficas:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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