Os alicerces da Trindade banhados de sangue: A Reforma precisa ser concluída
MarceloVictor R. Nascimento
No meio religioso
contemporâneo, existe um silêncio ensurdecedor sobre as origens históricas,
políticas e filosóficas das doutrinas que moldam a fé de milhões de pessoas nos dias atuais.
Praticamente toda a cristandade aceita como "verdade absoluta"
conceitos que possuem respostas bíblicas pouco satisfatórias e que entram em
notória desarmonia com os textos sagrados.
O maior exemplo
disso é o Dogma da Trindade. Erguido como o parâmetro fundamental
para definir quem é ou não um cristão verdadeiro, esse dogma esconde um
currículo ambíguo, marcado por debates políticos, violência estatal e pela
perda da essência do monoteísmo bíblico puro: o Unicismo combinado com a
realidade da Kenosis radical de Jesus (Deuteronômio 6:4; Filipenses 2:7).
1. A Troca de
Jerusalém por Roma e Atenas
Como bem destacou
o escritor, mestre e linguista Luis Sayão em sua matéria “O lado
hebraico da Reforma Protestante”: “A maneira grega de ser e pensar
moldou muito da alma ocidental, e também nossa teologia e cristandade. Parece
que ainda hoje nossa teologia cristã do ocidente tem mais sintonia com Platão e
Aristóteles do que com Moisés, Amós e João. Nossa referência, muitas vezes,
parece ser Roma e Atenas, e não Jerusalém”.
O monoteísmo hebraico sempre foi inflexível e numérico: "Deus é um" (Deuteronômio 6:4). No entanto, na era pós-apostólica, teólogos gentios influenciados pelo neoplatonismo tentaram harmonizar o mistério de Deus com a lógica helênica. Em vez de abraçarem a kenosis radical — o fato bíblico de que o único Deus Espírito esvaziou-Se a Si mesmo para habitar plenamente na natureza humana de Jesus (Filipenses 2:7) —, os Concílios da Igreja Romana preferiram fragmentar a substância divina em três "pessoas" ou centros de consciência separados. O cristianismo foi helenizado, substituindo a presença viva do Deus manifesto em carne por abstrações metafísicas.
2. A Imposição
pelo Terror e as Cinzas de Nicéia
A teologia protestante tradicional costuma fechar os olhos para o rastro de sangue que garantiu a consolidação desse dogma. Na obra “O Livro Negro do Cristianismo: Dois Mil Anos de Crimes em Nome de Deus”, de Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli, os autores escancaram a realidade política por trás dos Concílios Romanos da Idade Média: "A partir do momento em que o cristianismo se tornou a religião do Estado romano, os 'perdedores' nas disputas teológicas passaram a ser punidos com exílio, tortura e morte. A imposição forçada da chamada 'doutrina verdadeira' sobre populações inteiras gerou rebeliões, massacres, vinganças e guerras que duraram séculos e custaram milhares de vidas". Diante de tamanha barbárie, os autores levantam um questionamento crucial: "Quantos dos participantes do Concílio de Nicéia tinham real capacidade de compreender todas as nuances filosóficas dessa doutrina?"
Para o unicismo,
a resposta é evidente: a Trindade não nasceu da iluminação do Espírito
Santo, mas de um labirinto intelectual helênico fundido ao poder da espada
imperial. Enquanto a verdadeira igreja primitiva — ungida pelo Espírito
— sofria nas arenas romanas e se escondia nas "cavernas da terra"
(Hebreus 11:38), os formuladores da Trindade uniam-se aos imperadores para
caçar os dissidentes.
3. O Caso
Miguel Serveto: O Ódio que Uniu Católicos e Protestantes
Como se nãos bastasse, o rastro de
intolerância trinitária não se limitou à Idade Média católica; ele contaminou
também a Reforma Protestante. Um exemplo emblemático de resistência
antitrinitária foi o de Miguel Serveto, nascido na Espanha por volta de
1510. Um intelectual brilhante do Renascimento — teólogo, filósofo, médico e
geógrafo —, Serveto aspirava a uma fé universal e propôs algo direto e fiel às
Escrituras: "A abolição dos dogmas da Trindade, denunciando que tal
conceito simplesmente não está na Bíblia".
Serveto afirmou categoricamente que, no Primeiro Concílio de Nicéia, a Igreja havia traído a si mesma e ao Evangelho. Essa corajosa defesa do monoteísmo bíblico puro atraiu contra ele o ódio unificado de católicos e protestantes suíços. Em 1553, Serveto foi capturado e processado pelo tribunal da Inquisição católica em Vienne, na França. Numa demonstração de crueldade e aliança nos bastidores, o reformador João Calvino enviou materiais comprometedores aos inquisidores católicos para expor a identidade real de Serveto, que tentava se esconder sob um pseudônimo.
Serveto conseguiu escapar daquela prisão francesa e buscou refúgio em Genebra — a capital do protestantismo calvinista. Lá, contudo, foi reconhecido e acusado publicamente pelo próprio Calvino, sofrendo um processo idêntico ao da Inquisição. Condenado à fogueira em 1553, foi executado no dia seguinte. Meses depois, para selar a perseguição ecumênica, o tribunal católico proferiu uma condenação póstuma contra ele, queimando sua efígie em fogo lento.
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A
REPRESSÃO AO MONOTEÍSMO BÍBLICO (1553) |
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Miguel
Serveto defende: A Trindade NÃO está na Bíblia |
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Inquisição
Católica (Processa
e queima sua efígie em Vienne) |
Reforma
Calvinista (Calvino
denuncia e o queima vivo em Genebra)
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4. O Sofisma
da "Revelação Progressiva"
Para justificar o
fato de que nem Jesus e nem os apóstolos ensinaram a Trindade, muitos teólogos
argumentam que o dogma foi fruto de uma "revelação progressiva"
que a igreja demorou séculos para compreender.
Trata-se de uma
afirmação extremamente perigosa, pois argumentar que a identidade de Deus não
foi compreendida pelos apóstolos é o mesmo que dizer que o Novo Testamento não
encerrou a série de revelações de Deus, tornando a Bíblia Sagrada um livro
incompleto e insuficiente.
O Novo Testamento define unicamente as cartas apostólicas e os Evangelhos como inspirados por Deus (2 Pedro 3:16), estabelecendo ali o limite da revelação. Portanto, o Dogma da Trindade pode, até mesmo, ser considerado um acréscimo às Escrituras Sagradas, não passando de uma simples interpretação humana de textos bíblicos manchada de sangue, realizada através das lentes filosóficas de quem a formulou.
Conclusão: É
Hora de Concluir a Reforma
Os fatos
históricos provam que as feridas e fogueiras do passado não foram acidentes de
percurso; foram os métodos necessários para blindar uma doutrina que nunca se
sustentou puramente pela Palavra de Deus.
Talvez tenha
chegado a hora de completarmos a Reforma Protestante. É tempo de romper com o
caminho antissemita da "cristandade" romana pós-apostólica e nos aproximarmos da
cultura, da língua e da cosmovisão do cristianismo primeiro, edificado sobre os VERDADEIROS PAIS DA IGREJA: os apóstolos de Jesus Cristo (1 Timóteo
1:2; 1 João 2:1).
Esta
matéria funciona como um atalaia que toca a trombeta para conclamar os cristãos
a rejeitarem as "fórmulas prontas" e a banirem a "terceirização
da fé".
Abra
o seu coração para a ordem do Espírito Santo: “Então conheçamos, e
prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a
nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” — Oseias
6:3
Referências
Bibliográficas:
FO, J., MALUCELLI L., TOMAT,
Sérgio. (2009). O Livro Negro do
Cristianismo. Ediouro Publicações. Rio de Janeiro.
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.
SAYÃO, Luis (2018). O lado hebraico da Reforma Protestante.
Pleno.news.
Disponível em: https://pleno.news/opiniao/
luiz-sayao/o-lado-hebraico-da-reforma-protestante.html



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