"Quem me vê a mim vê o Pai"
O capítulo 14 do
Evangelho de João registra um dos diálogos mais profundos de toda a Bíblia.
Diante da dúvida dos apóstolos, Jesus faz declarações categóricas que servem
como pilares inabaláveis para a convergência de duas verdades teológicas
absolutas: o unicismo — a revelação de que há um único Deus absoluto
(Yahweh) manifestado em carne — e a kenosis radical — o fato histórico e
espiritual de que Deus se esvaziou inteiramente de Seus atributos divinos
incomunicáveis para assumir a condição verdadeiramente humana (Filipenses 2:7).
Quando analisamos
esse texto sob essa dupla ótica, compreendemos como o Deus invisível operou Sua
manifestação mais perfeita sem violar as limitações do Seu esvaziamento na
carne.
1.
"Mostra-nos o Pai": O Pedido de Filipe e a Resposta de Jesus
Em João 14:8, o apóstolo Filipe faz um pedido sincero: “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”. A resposta de Jesus no versículo seguinte é direta e confrontadora: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14:9). Para o unicismo fundamentado na kenosis radical, essa passagem elucida perfeitamente a distinção entre a pessoa de Deus e os Seus atributos abstratos.
Como o homem Jesus é o próprio Deus que se esvaziou de Seus atributos incomunicáveis (como a onipresença física, a onisciência irrestrita na mente humana e a invisibilidade espiritual), essa passagem não pode estar se referindo à natureza visível de atributos abstratos ou à substância divina intangível. Jesus aponta para algo muito mais íntimo: a pessoa de Deus (referida em Hebreus 1:3 como a “expressão exata da sua pessoa”). Os apóstolos ansiavam por ver a Deus fisicamente, pessoalmente, e Jesus esclarece que a única face, a única presença e a única pessoa que manifesta o Pai de forma tangível na Terra era Ele mesmo.
2. A Realidade
do Esvaziamento e a Manifestação do Pai
A kenosis radical
nos ensina que o esvaziamento de Cristo não foi uma mera encenação. Ele se
despiu dos privilégios e atributos divinos para viver uma experiência humana
autêntica, sendo, em tudo, igual aos demais homens (Hebreus 2:17). No entanto,
por ser o próprio Deus personificado, o esvaziamento não apagou Sua identidade
essencial, algo que possui cada pessoa que vem ao mundo, com personalidade, caráter, vontades e características biológicas exclusivas
(como DNA e iris dos olhos, por exemplo).
Em vez de revelar
o Pai através de demonstrações de poder cósmico ou onipresença indescritível,
Jesus, por um amor imensurável, escolheu revelar o Pai através de Sua obediência, de Suas palavras e, especialmente, de Seu
caráter perfeito (Sua identidade). Ver o homem Jesus em Seu estado de humilhação voluntária era,
paradoxalmente, ver o próprio Deus em Sua essência mais pura: o amor
relacional e a entrega voluntária.
3. Jesus é a
"Verdade" de Yahweh
No mesmo
discurso, Jesus faz outra afirmação monumental: “Eu sou o caminho, a
verdade e a vida” (João 14:6a), algo significativo, pois, no Antigo
Testamento, o profeta Jeremias havia declarado explicitamente a identidade do
Deus Único: “Mas o Senhor [Yahweh] Deus é a verdade...”
(Jeremias 10:10).
No monoteísmo
bíblico radical, não existem duas verdades absolutas, nem duas pessoas que
partilham dessa essência de forma independente. Ao reivindicar o título de
"A Verdade" no mesmo contexto em que vive Sua limitação
humana, Jesus prova que a Sua identidade pessoal é a identidade do próprio
Yahweh.
4. A Sutileza
Gramatical: "Vem ao Pai"
Para fechar o
raciocínio com chave de ouro, o discurso de Jesus Cristo traz uma declaração
que frequentemente passa despercebida, mas que carrega um peso gramatical e
teológico definitivo quando compreendemos que o Pai estava pessoalmente
presente n’Ele: “Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6b)
Observe atentamente a escolha do verbo. Se o Pai fosse uma pessoa distinta e localizada de forma distante no céu, Jesus teria dito: "Ninguém vai ao Pai". Na gramática bíblica e no uso cotidiano, usamos o verbo "ir" para nos referirmos a um destino onde o interlocutor não está, e usamos o verbo "vir" para indicar aproximação em direção a quem já está presente no recinto. Ao dizer "ninguém vem ao Pai", Jesus demonstra que, apesar de Sua kenosis radical (de Seu esvaziamento), o destino final (o Pai) já estava ali mesmo, operando e se fazendo presente na pessoa que servia como o caminho (o Filho).
Clique no vídeo e veja os esclarecimentos dados pelo pastor Tony de Souza sobre João 14:6
Conclusão
O diálogo de João 14 é um manifesto que une o monoteísmo unicista à beleza da kenosis. Jesus desfaz qualquer divisão na divindade ao mostrar que Ele e o Pai são a mesma pessoa divina. Mesmo despido de Seus atributos incomunicáveis na carne, Ele manifestou a pessoa exata de Deus aos homens (Hebreus 1:3). Portanto, aproximar-se de Jesus não é trilhar uma jornada para encontrar um Deus distante no universo; por causa de Seu esvaziamento amoroso, aproximar-se de Jesus é, de fato, vir diretamente ao Pai.
Importante:
Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe "acomodar-se" e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1].
Foi por esse mesmo atributo, que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO,
M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano
religioso. Joinville: Clube de Autores.


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