"Rocha nenhuma há como o nosso Deus" (1 Samuel 2:2): Uma Declaração Unicista
Marcelo Victor R. Nascimento
No universo da teologia, muitas correntes tropeçam ao
tentar explicar as manifestações de Deus no Antigo Testamento. Algumas recorrem
à ideia trinitária de que o Filho preexistia como uma pessoa distinta e
separada que ficava "aparecendo" na Terra na forma humana (as
chamadas cristofanias). Outras chegam ao extremo de dizer que Jesus era o "Anjo
do Senhor" ou o "Arcanjo Miguel".
No entanto, o apóstolo Paulo explode todas essas
teorias ao usar uma metáfora brutalmente monoteísta em 1 Coríntios 10:4: ele
afirma que os israelitas no deserto “bebiam da rocha espiritual que os
acompanhava; e essa rocha era Cristo”.
Para nós, cristãos unicistas, essa passagem não
defende uma "pré-encarnação", mas sim a soberania absoluta do Deus
Único. Vamos entender o peso teológico e histórico dessa afirmação em três
pontos fundamentais.
1. No Antigo Testamento, Yahweh é a
Única Rocha
Dizer que Jesus é a Rocha não é uma novidade do Novo
Testamento. No Antigo Testamento, o título "Rocha" (Tsur
ou Sela no hebraico) era uma das assinaturas exclusivas e mais sagradas
de Yahweh. A Bíblia é categórica ao fechar as portas para qualquer outra
entidade compartilhar esse título:
(1) “Porque, quem é Deus senão o Senhor? E quem é
rocha senão o nosso Deus?” — Salmos 18:31
(2) “Não há santo como é o Senhor; porque não há
outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus.” — 1 Samuel 2:2
Se o Antigo Testamento diz que nenhuma outra rocha
existe além de Yahweh, e o Novo Testamento diz que Jesus é a
Rocha, a matemática espiritual é perfeita: Jesus e Yahweh são a
mesmíssima pessoa. Não existem duas rochas eternas.
2. A Plenitude dos Tempos: Jesus Tem
Data de Nascimento
O erro das teorias de pré-encarnação (manifestações
antropomórficas ou aparições em forma de homem antes de Belém) é ignorar a
cronologia da própria Bíblia. A Escritura é clara ao datar o momento exato em
que o Filho/Verbo passa a existir em carne: “Mas, vindo a plenitude dos
tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei.” —
Gálatas 4:4
O Verbo se fez carne na plenitude dos tempos e
não antes dela. Jesus, como o Filho de Deus encarnado, tem uma genealogia
terrena e um momento exato na história. Deus não ficou "ensaiando" a
encarnação ao longo dos séculos aparecendo fantasiado de homem no Antigo
Testamento. O Filho foi gerado no ventre de Maria; antes disso Ele era a eterna
Palavra de Deus (João 1:14; Apocalipse 19:13), i.e., o Espírito que saiu da Sua boca (emanou do Seu ser) e criou todas as coisas (Salmo 33:6).
3. A Rocha Espiritual era a Palavra,
não um Anjo
Se Jesus só nasceu na plenitude dos tempos, como Ele "acompanhava" o povo no deserto como uma Rocha Espiritual?
Paulo é cirúrgico: ele diz que a rocha era espiritual. Isso descarta completamente qualquer hipótese de um Jesus pré-encarnado andando fisicamente entre as tendas de Israel. Também sepulta a ideia adventista de que Jesus era o "Anjo do Senhor" guiando o povo, embora saibamos que Deus tratava com Israel pelo ministério dos seres angelicais (Atos 7:35,38,53; Gálatas 3:19; Daniel 4:35; Hebreus 1:14; Hebreus 2:2), até porque a Biblia diz que ninguém podia vê-Lo e continuar vivo (Êxodo 33:20). O texto não diz que eles eram sustentados por um anjo, mas por uma Rocha.
Aqui está o entendimento unicista e hermenêutico correto dessa temática:
- A Rocha é a Palavra Eterna: aquela Rocha representava a fidelidade, a provisão e a "Palavra viva de Deus" que sustentava a nação no deserto.
- O Logos em Ação: Jesus é a própria Palavra (o Logos) personificada e manifestada em carne (João 1:14; Apocalipse 19:13). No deserto, a Palavra representava o poder do Espírito de Deus operando e fazendo jorrar água, a fim de garantir a sobrevivência de Israel. Séculos mais tarde, essa mesmíssima Palavra que agia de forma invisível se vestiu de humanidade e atualmente continua sustentado Seu povo de forma espiritual (a "água viva").
Conclusão: Quem nos Sustentou no
Passado é Quem nos Salva Hoje
Quando ligamos os pontos, o mistério se desfaz em
adoração. Quem acompanhou Israel no deserto não foi uma "segunda
pessoa" da Trindade. Quem estava lá era o Deus Único de Israel,
manifestando Seu poder e Sua Palavra eterna (a Rocha Espiritual) através do
ministério dos anjos (Atos 7:35,38,53;
Gálatas 3:19; Daniel 4:35; Hebreus 1:14; Hebreus 2:2).
Quando chegou a plenitude dos tempos, essa mesma Rocha
se manifestou em carne para que nós pudéssemos, finalmente, olhar para o Seu
rosto. Jesus Cristo não é a cópia ou o enviado de Yahweh — Ele é o
próprio Yahweh, a nossa Rocha Eterna, que se fez homem para jorrar a
água da vida eterna para nós!
Reflexão Final: ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe acomodar-se e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1].
Foi por esse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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