A infância e a juventude de Jesus
Marcelo Victor R. Nascimento
Pouco se
fala de Jesus na infância e juventude.
As Escrituras fazem menção apenas de um acontecimento aos 12 anos quando a
família de Jesus subiu a Jerusalém para comemorar a páscoa [Lucas 2:41-52].
As
Escrituras Sagradas chamam Jesus de “último Adão”, dando-nos a
compreensão de que Ele foi gerado com as mesmas características do primeiro
[antes da queda], i.e., incontaminado pelo pecado e com uma mente sadia, livre
das inclinações malignas, comuns a todas as criaturas [Gênesis 8:21], mas, EM
TUDO, “semelhante aos irmãos”.
Considerando
o relato bíblico de que, na encarnação do Verbo eterno, houve um esvaziamento
total dos atributos incomunicáveis [Kenosis], a fim de que o sacrifício
pelos pecados da humanidade satisfizesse as condições estabelecidas pela Lei
Mosaica [um cordeiro sem mancha] [1 Pedro 119], entendemos que a infância e a
juventude de Jesus deixam de ser um mero "intervalo de espera"
e tornam-se a prova máxima da autenticidade da encarnação de Yahweh.
Nota
de Contexto: os principais atributos incomunicáveis de
Deus são a onipresença, onisciência, onipotência, imutabilidade,
imortalidade, auto existência, eternidade e infinitude. Esses
atributos distinguem Deus de toda a criação e mostram que todos os demais seres
são totalmente dependentes d'Ele.
1. A Autenticidade do Aprendizado (Esvaziamento da
Onisciência)
Como a Palavra esvaziou-se da onisciência, o cérebro
biológico de Jesus funcionava como o de qualquer outra criança. A diferença
básica é que Jesus era santo e não tinha a tendência para o mal.
- O Papel dos Pais: Maria
e José não foram apenas "figurantes", mas os reais
instrutores da “divindade encarnada”. Jesus não fingia
desconhecimento; ao contrário, Ele realmente aprendeu a gramática do aramaico,
a história do Seu povo e a técnica da carpintaria.
Nota de Contexto: a
infância e a juventude de Jesus forma partes essenciais da Sua jornada terrena,
revelando Sua humanidade plena em sua forma mais pura, tendo aprendido (1) com
Sua "mãe" a andar, a falar e a perceber o mundo ao Seu
redor, bem como a compreender quem Ele realmente era [o Filho de Deus] e Sua
missão [o Messias], e (2) com Seu "pai" [um homem
justo e temente a Deus] a trabalhar em prol do sustento de cada dia, a
ter comunhão com Deus, a deixar-se guiar pelo Espírito Santo e a ir à sinagoga
aos sábados [Mateus 1:19; Lucas 4:16].
- A Descoberta da Identidade: aos 12 anos, vemos o primeiro lampejo da
percepção de Sua identidade, quando Ele disse a José e Maria as seguintes
palavras: “me convém cuidar dos negócios do meu Pai”. Isso indica
que, embora vazio dos atributos exclusivos de Deus, a Sua autoconsciência [como
o Messias] foi sendo despertada progressivamente, conferindo o que os pais
ensinavam sobre os acontecimentos iniciais da Sua vida com os dizeres das
Escrituras [Lucas 4:17].
Nota de Contexto:
em virtude da incorruptibilidade, por certo, a mente de Jesus funcionava de
forma privilegiada, como ocorre com as crianças prodígios que esporadicamente
nascem ao redor do mundo, apresentando raciocínio e percepções de mundo que vão
além da normalidade, da mesma que, certamente, ocorria com Adão e Eva antes da
queda. Por certo, o comportamento, a obediência e a inclinação moral, fizeram
d’Ele uma pessoa "diferente" de qualquer outra criança
em um sentido ético e espiritual, ainda que não em um sentido biológico.
2. O Silêncio da Juventude e a Submissão
A vida de Jesus até os 30 anos revela que Yahweh, na
forma de Filho, submeteu-se plenamente às leis do tempo e do desenvolvimento
humano.
- A "Humanidade Pura": durante três décadas, o “Sustentador do
Universo” [Hebreus 1:3] [enquanto Palavra de Deus] viveu
como um homem comum que precisava comer, descansar e trabalhar para prover o
sustento, como havia sido profetizado por Isaías [Isaías 53:3; Colossenses
1:16-17; Marcos 6:3].
- A Lei da Semelhança: para
ser o "Sumo Sacerdote" perfeito [Hebreus 2:17-18], por
certo, Jesus experimentou os desafios sociais da juventude com todos os
conflitos, sem recorrer a "atalhos" divinos, por causa
da kenosis.
3. O Batismo: A Capacitação da Carne Esvaziada
Por estar esvaziado de Sua onipotência,
Jesus não operou milagres antes do batismo. A Bíblia relata que o primeiro
milagre foi a transformação da água em vinho, durante uma festa de casamento em
Caná da Galileia [João 2:1-11].
- A Unção no Batismo: um Marco: a descida do Espírito Santo sobre Jesus, no
Jordão, foi o marco para o início da obra de salvação, não tratando-se de
"outro Deus" vindo ajudá-Lo, mas da plenitude
da manifestação do Pai [o Espírito], ungindo e capacitando a
humanidade do Filho para o ministério.
- Início da Obra: antes
do batismo, Jesus era o Verbo encarnado em estado de humilhação e silêncio.
Após o batismo, o esvaziamento funcional da onipotência é "suprido"
pela presença manifesta do Espírito de Yahweh, permitindo que o homem Jesus
operasse os sinais que pertencem a Deus [João 14:10].
4. A Kenosis como Fundamento da Obra de Salvação
Para que Jesus fosse "em tudo semelhante
aos homens" (Hebreus 2:17), Ele não poderia carregar, em sua
consciência humana, os atributos que são exclusivos da essência espiritual de
Yahweh.
- Onisciência vs. Aprendizado: se Jesus retivesse a onisciência, o texto de
Lucas 2:52, que diz que Ele "crescia em sabedoria",
seria metafórico. Contudo, a Palavra feita carne realmente não sabia de
todas as coisas, precisando ser ensinado, inicialmente, por Maria e José, e,
posteriormente, ser iluminado pelo Espírito [o Pai], até o fim da Sua jornada.
Nota de Contexto:
a Bíblia Sagrada afirma que, mesmo depois de ressurreto, Jesus deu
ensinamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera, mostrando-nos
toda a Sua humanidade e que a ressurreição parece significar que manteremos a
mesma identidade pessoal e intelectual [nas mesmas condições físicas e
intelectuais da hora da morte, sem defeitos de qualquer espécie, i.e.,
transformados].
- Onipotência vs. Dependência: ao esvair-se da onipotência, Jesus não realizava
milagres por um poder inerente à Sua carne, mas sim pelo poder do “Pai”
que habitava n’Ele, pois "O Filho por si mesmo nada pode fazer"
(João 5:19). Essa afirmação é a prova máxima do esvaziamento.
- Imortalidade vs. Morte: para que o sacrifício fosse válido, o Verbo teve
que abrir mão da imortalidade. O Espírito de Yahweh é imortal, mas a
manifestação chamada "Filho" tornou-se mortal para
poder experimentar a morte em favor da humanidade.
5. A Necessidade da Manifestação Simultânea (A
"Teoria do Trono Ocupado")
Se Deus é o sustentador da
realidade (Colossenses 1:17), a suspensão total dos atributos incomunicáveis na
Palavra encarnada levanta a seguinte questão: Quem governava o
cosmos enquanto a Palavra era um recém-nascido limitado?
- A Onipresença Preservada no Pai: enquanto Jesus estava localizado geograficamente
em Nazaré [limitado no espaço], Yahweh continuava manifestado no
trono celestial como “Pai”, em virtude do poder da Sua
onipresença [Salmo 139:8-11].
- A Auto existência e o Sustento: como a manifestação da Palavra de Deus em carne
estava em estado de Kenosis [dependente e finita], a função de "sustentar
todas as coisas pelo poder da sua palavra" (Hebreus 1:3) foi
exercida pela manifestação celeste do ser transcendente que é Deus [1 Reis
8:27; Jó 11:8-9].
- O Equilíbrio Universal: o Universo não se transformou em um caos, pois
Yahweh [o Espírito eterno e infinito] não foi habitar
integralmente no corpo de Jesus, esvaziando-se em todos os níveis de Sua
existência; se isso ocorresse, o cosmos colapsaria. Não haveria um sustentador
autoexistente e infinito enquanto Jesus dormia ou aprendia a ler.
Nota de Contexto:
as orações de Jesus e a voz vinda dos céus durante o Seu ministério [“Este
é meu filho amado”] revelam a dupla manifestação simultânea de Yahweh,
provando que o trono celestial não ficou vazio quando o Verbo se fez carne.
Síntese da Vida de Jesus (Visão Unicista com Kenosis
Total)
|
Fase da Vida |
Estado dos Atributos |
Fonte de Conhecimento/Poder |
|
Infância/Juventude |
Esvaziamento total [Kenosis]. |
Pais, Sinagoga e Escrituras. |
|
Vida Cotidiana |
Semelhante aos homens em tudo. |
Trabalho manual e vida de oração. |
|
Batismo [30 anos] |
Revestimento de Poder. |
O Pai [Espírito] habitando plenamente Nele. |
|
Ministério Público |
Humanidade ungida. |
Milagres realizados pelo poder do Espírito. |
Conclusão
Diante dessa análise, é possível compreender que a
infância e juventude de Jesus mostram que Yahweh não "usou"
a humanidade como uma fantasia, mas a assumiu como uma
realidade.
O fato de iniciar Sua obra somente após o batismo
confirma que, como um Deus vazio, Ele escolheu, na eternidade, depender
inteiramente da capacitação do Espírito Santo [o Pai],
estabelecendo um padrão que serve para todos os seres humanos [Filipenses 2:7;
1 Pedro 1:20].
Jesus não venceu o mundo porque era um "Deus
disfarçado", mas porque, como um homem perfeito e vazio
dos atributos exclusivos da divindade, escolheu manter-se em perfeita
unidade com o Pai [que habitava n’Ele], diferentemente do primeiro Adão.
Sob essa ótica, a Kenosis, especificada em
Filipenses 2:7, não é apenas um "véu" sobre a
divindade, mas um esvaziamento funcional e absoluto dos atributos
incomunicáveis, os quais, se estivessem presentes em Jesus, tornariam Sua
experiência humana "irreal" [uma farsa].
[ATENÇÃO: nenhum dos livros do autor tem fins lucrativos]
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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