A palavra MORPHE: a chave para entendermos o ESVAZIAMENTO de Yahweh (Filipenses 2:7)
Marcelo Victor R. Nascimento
Em Filipenses 2:7, o
escritor bíblico (apóstolo Paulo) utiliza a palavra grega morphe
(μορφῇ) para descrever que Jesus, o Cristo
(o Messias), deixou a "forma de Deus" e "esvaziou-se a
si mesmo" ("aniquilou-se a si mesmo"), assumindo a "forma de servo".
Façamos uma análise um pouco mais profunda
da palavra utilizada pelo escritor nessa passagem (morphe).
1. A Distinção Categórica entre Morphe e
Schema
Um dos argumentos mais contundentes para provar que a passagem não trata de "aparência visual" reside na própria riqueza da língua grega utilizada pelo apóstolo Paulo. Existe uma diferenciação técnica crucial entre dois termos:
- Morphe: refere-se à forma essencial do ser, à sua natureza inerente, caráter ou realidade interior que se manifesta externamente.
- Schema: refere-se estritamente à aparência externa, à moda ou à forma passageira e mutável.
O argumento:
Ao afirmar que Cristo deixou a morphe
de Deus e assumiu a morphe de servo, o texto inspirado rejeita a
ideia de uma mera "encenação" ou "disfarce visual". Jesus
não adotou apenas o schema (aparência) de um homem para ocultar
sua divindade; Ele assumiu a morphe, ou seja, Ele experimentou,
viveu e operou plenamente na essência e nas limitações reais da natureza
humana, tornando-se o verdadeiro segundo Adão (1 Coríntios 15:45).
2. O Significado de Morphe e a
Redundância Física
Como o ser humano já foi criado trazendo a
imagem de Yahweh [a forma física correlata ao Seu corpo espiritual, conforme
Gênesis 1:26 e 1 Coríntios 15:44, vista por muitos profetas em um trono], o Verbo encarnado já trouxe consigo essa semelhança externa na
encarnação.
O argumento:
Se morphe significasse "formato
externo", dizer que Ele assumiu a "forma de servo"
após "tornar-se em semelhança de homens" seria uma
redundância vazia. Como a aparência externa já refletia o padrão de Yahweh, a
mudança de morphe (de Deus para servo) exige uma transição de
estado interno, i.e., a substituição da condição de soberania divina pela
essência de total submissão humana.
3. A Mecânica da Kenosis Radical: O
"Derramar até que tudo se vá"
A definição léxica de morphe como
a essência interior ilumina o real significado do "esvaziamento"
(kenosis). O texto bíblico não aponta para uma metáfora, mas para um
esvaziamento literal, um "derramar até que tudo se vá"
de algo que pertencia legitimamente ao ser de Deus antes de se fazer carne.
O argumento:
Sob a ótica da kenosis radical, este
esvaziamento real consistiu na abdicação temporária de Seus atributos
incomunicáveis de poder (onipresença, onisciência, onipotência, imutabilidade,
imortalidade, eternidade, auto existência, indivisibilidade, infinitude,
eternidade, soberania suprema, etc.). Deus abriu mão daquilo que Ele podia
abrir mão para se limitar à experiência humana. Ele "aniquilou-se a
si mesmo", deixando para trás aquilo que chamou de “glória”
para operar estritamente como um homem dependente do Espírito Santo.
4. A Preservação dos Atributos Morais no
Unicismo
Embora a kenosis tenha sido radical no
esvaziamento do poder, ela não alterou a pureza e a identidade do Deus único
(Unicismo) que se manifestou na carne, constituindo-se no “Deus vazio”.
O argumento:
Jesus reteve Sua essência divina intacta no
que tange aos Seus atributos comunicáveis (morais), pois no Seu ser não
há trevas nenhuma (1 João 1:5). A sabedoria, o amor, a justiça, a verdade, a
bondade e a santidade de Yahweh permaneceram visíveis em Cristo,
manifestando-se perfeitamente através de Sua natureza humana (a morphe
de servo). Jesus era "santo, inocente e imaculado" porque a
essência moral de Deus preenchia o homem Cristo Jesus, validando que Ele era o
próprio Yahweh manifestado em carne, porém esvaziado de Sua majestade cósmica,
a fim de salvar a humanidade como o segundo e último Adão.
Conclusão
Em suma, a exegese de Filipenses 2:7 destrói a
tese de que "forma" seja casca ou visual exterior.
Através do contraste léxico com schema, da herança antropomórfica do
homem e da mecânica do esvaziamento real, prova-se que morphe é algo
relacionado ao ser interior.
Jesus esvaziou-se dos atributos de poder (kenosis
radical), manteve os atributos morais de Yahweh (Unicismo), e internalizou
de forma absoluta a natureza, as dores e a condição de um servo real em TUDO,
exceto no pecado (Hebreus 2:17; Hebreus 4:15).
Tal verdade bíblica é totalmente contrária à doutrina filosófica da “união hipostática” porque esta defende que Jesus reteve a totalidade e o pleno exercício de Sua natureza divina durante Sua jornada terrena, fugindo completamente da veracidade do "aniquilamento" real, onde o Verbo abriu mão e derramou Seus atributos incomunicáveis de poder ao fazer-se carne.
A
grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta,
em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo;
o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao
poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus
cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável
Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se
revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não
pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez
maldição por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.



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