A Teodiceia na visão Unicista: uma resposta bíblica

 

A representação da Sala do Trono e as hostes celestiais na harmonia original. 
Fonte: Bible Art


Marcelo Victor R. Nascimento


Quando lemos as Escrituras Sagradas e olhamos para a realidade que nos cerca, surge um paradoxo aparente: “Deus é todo-poderoso, infinitamente bom e justo. Contudo, se Deus é assim, por que o mundo está cheio de guerras, doenças, morte e injustiça?"

A Teodiceia [ramo da filosofia e teologia que tenta conciliar a existência de um Deus benevolente e onipotente com a realidade do mal no mundo] procura trazer respostas para esse aparente paradoxo. Será que o Unicismo poder ajudar a resolvê-lo, trazendo uma resposta bíblica para essa questão? 


O Erro de Cálculo no Éden: A Ilusão do Trono e a Queda do Império das Trevas

Se perguntarmos a qualquer estudante de teologia ou filosofia sobre a origem do mal, a resposta quase sempre nos remete a um cenário nebuloso, ocorrido em uma "eternidade passada" antes da criação do mundo material.

Entretanto, se olharmos atentamente para as Escrituras Sagradas, despindo-nos de tradições herdadas e focando na precisão do texto, descobriremos que Gênesis e os demais livros bíblicos nos dão pistas cronológicas exatas.

O mistério da Teodiceia — a explicação da justiça de Deus diante da existência do mal — encontra sua resolução em um fascinante e trágico erro de cálculo estratégico cometido por Satanás e pelas hostes celestiais. Um erro motivado por uma profunda falta de visão sobre "quem" e "o que" Deus realmente é.

Nota: a Bíblia diz que o diabo peca "desde o princípio", e não antes dele, estabelecendo um marco para o surgimento do pecado entre os seres celestiais (João 8:44; 1 João 3:8).


1. No Mesmo Relógio: O Primeiro Dia da Criação

Para compreendermos o início de todas as coisas, visíveis e invisíveis, precisamos retornar à frase mais famosa da história humana: "No princípio, criou Deus os céus e a terra." (Gênesis 1:1)

Segundo o que nos foi revelado nas Escrituras Sagradas, antes desse ponto, o tempo conceitual não existia; havia apenas o Deus Único e Eterno em Sua perfeita solitude.

Ao contrário do que a imaginação popular sugere, os anjos não passaram eras flutuando no vazio antes do universo físico. Eles são criaturas e, como tal, precisavam de um ponto de partida e de um espaço para habitar. No primeiro dia, Deus realiza duas criações simultâneas:

  • "Os Céus": a dimensão espiritual e seus habitantes originais, os seres celestiais.
  • "A Terra": a matéria-prima do universo físico, ainda em seu estado bruto, "sem forma e vazia".

Nota: os anjos abrem os olhos e inauguram sua existência no exato momento em que o relógio do cosmos começa a rodar. Eles não são eternos; começaram ali. Os céus astronômicos, por sua vez, surgem no segundo dia da criação [Gênesis 1:8], quando os céus espirituais já existiam. Ainda que haja espaço para conjecturas, é prudente ao intérprete das Escrituras Sagradas comprometido com a verdade dizer somente o que a Bíblia diz. Elas não apresentam um Deus "solitário" no sentido humano, na eternidade passada, porque Ele é completo e autossuficiente em Seu amor e realeza. Mas falam de um Deus único e exclusivo que possui um reino eterno (Salmos 10:16). É possível que tenham havido reinos espirituais anteriores ao "princípio de todas as coisas" (Gênesis), como parte das "coisas ocultas" (Deuteronômio 29:29), porém Deus não achou graça de nos revelar tais mistérios. 


2. O Selo do Sexto Dia: Quando Tudo Era "Muito Bom"

Sabendo que os seres celestiais foram criados no início da semana criacional, entendemos perfeitamente o texto de Jó 38:7, que afirma que, quando Deus lançava os fundamentos da Terra, "as estrelas da alva juntas cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam".

  • Tudo Era Muito Bom: os anjos assistiram, de camarote e em perfeita harmonia, à impressionante engenharia divina moldando os mares, os luminares e a vida. Isso nos conduz a uma constatação exegética inevitável ao final do sexto dia: "E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom." (Gênesis 1:31)

Nota: se ao término da criação de todas as coisas — incluindo o homem — o veredito do Criador foi de que tudo era muito bom, a conclusão lógica é que o pecado ainda não existia no universo. Não havia rebelião no céu, não havia demônios no inferno e nenhuma dissonância manchava o macrocosmo físico ou espiritual. A harmonia entre o visível e o invisível era absoluta. A pergunta que fica é a seguinte: Como, então, o primeiro dominó da rebeldia pôde cair?


3. A Ilusão do Trono e o Ponto Cego Celestial

Tudo nos leva a crer qua a grande tragédia de Satanás e, posteriormente, dos anjos que o seguiram, nasceu de uma limitação cognitiva combinada com o orgulho. Sendo criaturas finitas e localizadas, os anjos dependiam da forma como Deus escolhia se revelar a eles para compreendê-Lo.

  • O Trono: as Escrituras Sagradas mostram que Deus escolheu manifestar Sua majestade e Seu governo assentando-Se em um Trono. Nesta representação celestial — a Sala do Trono, cercada de glória visível —, Satanás e as hostes espirituais caíram em um erro de leitura teológica fatal: eles confundiram a manifestação condescendente de Deus com a totalidade de Sua Essência.
  • A Transcendência Divina: ao olharem para o Criador manifestado de forma localizada sobre um trono de governo, os anjos sofreram de uma monumental falta de visão sobre a transcendência divina. Eles possivelmente pensaram: "Se Ele está assentado ali, Ele ocupa um espaço. Se Ele ocupa um espaço, Ele tem limites geométricos. Portanto, Ele pode ser contornado, cercado e, eventualmente, desbancado de Sua posição por uma coalizão de forças." Ou seja, eles ignoraram a realidade absoluta que o rei Salomão mais tarde compreenderia: "Eis que os céus, e até o céu dos céus, te não podem conter" (1 Reis 8:27).

Nota: mesmo vendo com os próprios olhos o poder criador de Deus, por certo, os seres celestiais esqueceram-se de que Deus transcende todas as dimensões conhecidas [Jó 11:8-9] e que Ele não está no espaço; o espaço é que está contido dentro Dele. Travar uma guerra de poder contra o Deus Todo-Poderoso é um paradoxo geométrico insustentável, pois Ele é o Ser em quem "vivemos, nos movemos e existimos" (Atos 17:28). Rebeler-se contra Deus de dentro do próprio espaço que Ele sustenta é como um desenho animado tentar apagar o desenhista.


4. O Éden como o Falso Sinal de Capacidade

Satanás, alimentando esse orgulho isoladamente em seu coração [Isaías 14:13-15, Ezequiel 28:17; João 8:44; 1 João 3:8; 1 Timóteo 3:6], decide testar sua hipótese de autonomia e entra no Jardim do Éden na forma de uma "serpente" astuta [Gênesis 3:1]. Ele não ataca com poder bruto, mas usa o jogo de desgaste da dúvida com Eva e, por tabela, induz Adão ao erro.

Nota: a Bíblia não revela quanto tempo levou para que a "fortaleza" de Adão fosse minada, mas sabemos que o peso visual foi esmagador: Adão viu que Eva havia comido do fruto e não caiu morta imediatamente. Muito provavelmente, julgando apenas pelas aparências imediatas e desarmado pelo afeto à esposa, o homem cedeu. Nesse exato momento, o mundo invisível assistia ao desenrolar da cena. 

  • A Terça Parte dos Anjos: para a terça parte dos anjos, o sucesso do diabo na Terra parece ter operado como o sinal decisivo que eles esperavam. Eles viram a coroa da criação material quebrar a regra do Criador e constataram que o sistema não foi apagado instantaneamente por um raio.
  • A Prova de Conceito: cegos pela ilusão de que Deus era apenas uma figura majestosa e limitada ao Seu trono, por certo os anjos interpretaram a longanimidade divina como fraqueza ou incapacidade de controle. Provavelmente, foi essa "prova de conceito" no Éden que fez com que o mundo espiritual se curvasse à liderança do diabo, decidindo então "abandonar a sua própria habitação" (Judas 1:6) para se associarem ao que parecia ser um motim vitorioso (Apocalipse 12:4).

Nota: o texto de Apocalipse 12:4 diz que a cauda do dragão "arrebatou a terça parte das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra". Se localizarmos essa sedução de forma concomitante ao desenrolar da história humana, o diabo convenceu os outros anjos vendendo a ilusão de que o plano de Deus havia falhado ou de que Deus era injusto. Ao verem que o homem pecou e que a morte entrou no mundo, muitos anjos podem ter sido seduzidos pelo argumento de que o governo de Deus era vulnerável. Satanás vendeu a si mesmo como um líder alternativo, um soberano que conseguiu estabelecer o seu próprio império (o império do pecado e da morte) logo no início de tudo.


5. A Viração do Dia: O Xeque-Mate da Realidade

O sonho de independência e a embriaguez da suposta vitória duraram muito pouco. O castelo de cartas desmoronou na viração do dia.

  • Na Viração do Dia: quando a voz do Senhor Deus ecoa pelo jardim, a realidade ontológica se impõe de forma esmagadora. Deus assume o Seu tribunal. Ele dita a sentença diretamente sobre o agente externo: "Porquanto fizeste isso, maldita serás..." (Gênesis 3:14). Aquele dia marcou o fim da ilusão e o início efetivo do Império das Trevas, pois a Bíblia não registra nenhuma maldição no cosmos antes das palavras de Yahweh para a "serpente", lembrando que essa designição é apenas um símbolo para o diabo e satanás, conforme Apocalipse 12:9].
  • Fim da Ilusão: o diabo e seus anjos rebeldes não conquistaram um reino paralelo glorioso e autônomo; eles foram oficialmente sentenciados e confinados por Deus à esfera da maldição, da limitação e da cegueira espiritual. O suposto triunfo de Satanás converteu-se em sua eterna sentença de "prisão" (a condição chamada de "Tártaro" em 2 Pedro 2:4).
  • O Protoevangelho: no mesmo decreto de julgamento, Deus lança o Protoevangelho (Gênesis 3:15), anunciando que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Deus revela que usaria a história humana — o exato cenário onde o diabo achou que havia vencido — para demonstrar a maior de todas as Suas glórias: "o amor redentor".
  • A Kenosis Radical: séculos mais tarde, sob a kenosis radical, o próprio Deus Se manifestaria em carne na pessoa de Jesus, esvaziado de Seus atributos de poder divinos [mantendo a perfeito em Seus atributos morais], para desbancar legalmente e para sempre o império do usurpador.

Nota: Jesus diz em João 8:44 que o diabo "não se firmou na verdade". Se analisarmos a fundo, para alguém não se firmar em algo, significa que essa pessoa rejeitou a estrutura assim que ela foi apresentada, de sorte que o diabo testemunhou o "princípio" da criação, onde Deus estabeleceu a Verdade. Em vez de se alinhar a ela, ele escolheu inaugurar o seu próprio sistema: a mentira. Se ele é chamado de "pai da mentira", isso ocorre porque a mentira não existia antes dele. Ele a gerou no princípio de toddas as coisas. Tudo indica que naquele exato momento surgiu o "fogo eterno" preparado para o diabo e seus anjos rebeldes, citado em Mateus 25:41, não sendo algo que existia antes de qualquer criação. Ele foi estruturado e ativado como uma resposta imediata e jurídica ao ato de rebelião do diabo.


Síntese:

A teodiceia se resolve quando compreendemos que o mal não pegou o Criador de surpresa. O Éden foi a armadilha cósmica onde o orgulho e a falta de visão das criaturas livres foram expostos e julgados diante da imensidão da soberania divina.

Tal jardim parece não ter sido apenas a ruína da humanidade; os textos bíblicos parecem indicar que foi o momento em que Satanás ergueu a bandeira da sua rebelião no universo, usando o sucesso do seu engano contra Adão e Eva como um terrível "cartão de visitas", a fim de arregimentar o seu exército de anjos caídos.

Quando Deus dita a sentença sobre a "serpente" e estabelece as balizas do mundo caído, o "sonho" de Satanás e dos anjos que o seguiram após o sinal do Éden é estraçalhado. Eles não ganharam um reino independente e glorioso; eles foram jogados no Tártaro — um estado de rebaixamento espiritual e confinamento sob trevas, onde permanecem algemados em sua própria malícia, impotentes diante da soberania absoluta do Deus transcendente, aguardando o julgamento final. 

Nota: as expressões usadas por Deus quando sentenciou a serpente dizendo "sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida" remete-nos a passagens como Miqueias 7:17 e Salmos 72:9 que falam de "lamber o pó" da terra como uma metáfora militar e jurídica para a humilhação total e derrota absoluta de um inimigo caído. Deus estava decretando o rebaixamento espiritual e a falência do império orgulhoso de Satanás, cuja vida será extinta por completo no lago de fogo e enxofre, que é a segunda morte (Apocalipse 20:14).


Queremos ouvir você!

Você já tinha parado para pensar que o selo de "muito bom" no sexto dia incluía a perfeição e a harmonia de todo o mundo espiritual? Como essa perspectiva sobre a ilusão dos anjos diante do trono altera a sua visão sobre a grandeza de Deus?

 


Os detalhes a serem observados nessa imagem:

  • A Ilusão da Forma Localizada: observe como a imagem destaca a figura centralizada e assentada no trono alto e sublime. Essa visão "delimitada" de poder ajuda-nos a visualizar exatamente o ponto cego que discutimos: como seres finitos (os anjos) olharam para essa impressionante manifestação e acharam que o poder de Deus estava restrito àquela cadeira de governo.

  • O Testemunho da Criação: a vastidão de seres abaixo e ao redor ilustra perfeitamente o cenário de Gênesis 1:31 e Jó 38:7. É o registro visual da harmonia original do universo espiritual, antes que o sussurro da autonomia e o falso sinal do Éden fragmentassem aquela unidade.

  • Contraste de Luz e Profundidade: as nuvens densas e a luz que emana do centro criam a atmosfera perfeita de mistério e transcendência.


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Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




Comentários

  1. A reflexão foi muito boa, bem elaborada teologicamente, mais como eu entendo a Teodiceia, os céus a dimensão Espirituais, tempo etc... por Deus ser oniciente, onipotente e onipresente e outros atributos de Deus naturais e morais ele é atemporal ele criou o tempo, o universo é tudo que existiu, existe e existirá portanto o mal surgiu no céu pela ganância, inveja de Satanás por querer tomar o lugar de Deus e sentar no trono de Deus. Foi banido com seus Anjos para terra aonde se encontra e com isso o pecado tbm chegou no Éden e na terra, tornando-a imperfeita e provisória. O que nos trouxe o Lúcifer e tbm o Adão e a Eva querendo ser Deus? O pecado a transgressão tornando a Terra imperfeita e provisória tudo no Mundo Material é provisório é finito, tudo por causa do pecado oriundo da ganância e da vaidade. Lúcifer não sabia é ainda não sabe da grandeza e da mencidão do tamanho Deus que até hoje ainda quer o Trono de Deus. E o homem no meio do caminho vai tbm sendo disciplinado por Deus. O Diabo que trouxe todo esse desequilíbrio não sabe que já está derrotado.

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    1. Deus te abençoe pelo comentário.
      Meu cuidado é embasar sempre as minhas colocações na Palavra de Deus, como procurei fazer na matéria, a fim de reduzir a chance de erros de interpretação.

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