A Vontade do Pai x A Vontade do Filho (Mateus 26:38-39)
Marcelo Victor R. Nascimento
Jesus disse: “A
minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo. E,
indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e
dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas
como tu queres” (Mateus 26:38-39).
Essa passagem revela uma disparidade
de vontades entre o Pai e o Filho, constituindo-se em um argumento contundente
contra o Dogma da Trindade que defende que as supostas pessoas distintas são
coiguais em essência, atributos e vontade.
Suas palavras provam que,
na Terra, Jesus não agiu como uma "segunda pessoa coigual"
dotada de atributos divinos ativos, mas sim como um homem real que, mediante o
sofrimento e o fortalecimento do Espírito Santo, escolheu subjugar Sua própria
carne para cumprir o plano de Yahweh.
1. O Conflito de Vontades vs. A Igualdade
Trinitária
A agonia de Jesus no Getsêmani é um desafio direto ao dogma trinitário, pois envolveu orações, lágrimas, súplicas e suor transformando-se em sangue por causa da aflição da morte (por causa da separação de Yahweh) [Hebreus 5:7].
- A Fragilidade do Argumento Trinitário: segundo a teologia trinitária ortodoxa, as três pessoas da Trindade coexistem em perfeita unidade de essência, atributos e vontade. Contudo, se Jesus possuísse a divindade plena (com todos os seus atributos ativos) na Terra, seria impossível haver qualquer divergência entre a Sua vontade e a do Pai.
- A Humanidade Real pela Vontade Própria: ao dizer "não seja como eu quero, mas como tu queres" (Mt 26.39), Jesus expressa uma vontade estritamente humana (o instinto de sobrevivência e o pavor da separação de Yahweh). Essa disparidade de vontades prova que Ele não estava operando em igualdade de atributos com o Pai naquele momento, o que desmorona a ideia de três pessoas divinas idênticas agindo em uníssono na Terra.
Nota:
quando
Jesus diz "se possível, passe de mim este cálice", há a
expressão de um desejo real de evitar o evento da cruz, divergindo da
vontade do Pai. Caso houvesse em Jesus uma dupla natureza (a natureza humana e a
divindade plena e coigual à do Pai), teríamos a divindade divergindo de si
mesma (duas vontades na mesma pessoa). Para a Unicidade, essa é uma prova real que
o modelo trinitário falha em explicar a cena sem criar uma divisão no próprio
Deus.
2. A Doutrina do Diotelismo (Duas Vontades em Cristo)
Para tentar resolver a questão das “vontades conflitantes em Jesus” (uma premissa trinitária), no Terceiro Concílio de Constantinopla, a igreja trinitária oficializou o Diotelismo: a crença de que Jesus Cristo possui duas vontades distintas e duas energias operantes, porque possui duas naturezas completas.
- Uma Vontade Divina, Uma Vontade Humana: os trinitários argumentam que a vontade pertence à natureza, e não à pessoa. Como Jesus é 100% Deus e 100% homem (União Hipostática), Ele possui:
1.A Vontade Divina: que é idêntica, coigual e
perfeitamente unida à vontade do Pai e do Espírito Santo. Em Sua divindade,
Jesus queria a cruz tanto quanto o Pai.
2.A Vontade Humana: que possui as limitações
naturais da carne, o instinto de preservação e o horror natural à morte e à
separação de Deus.
- A Explicação do Getsêmani: para o trinitário, o "seja o que eu quero" de Jesus em Mateus 26:39 não é a segunda pessoa da Trindade divergindo da primeira. É a natureza humana de Jesus expressando sua fragilidade criada, que logo em seguida é voluntariamente subjugada e harmonizada com a sua própria vontade divina (que é a mesma do Pai).
Refutação
ao Dioteismo: na Kenosis, a vontade divina não operava
como uma "segunda voz" ou um "segundo motor"
concorrente dentro da cabeça de Jesus. Ele voluntariamente sujeitou toda a sua
existência terrena à condição humana. Ao se esvaziar, a única vontade ativa
pela qual Jesus respondia, sofria, escolhia e operava na Terra era a sua vontade
perfeitamente submetida à condição humana (“não teve por usurpação
ser igual a Deus quando veio à terra”), i.e., Ele escolheu não trazer a condição divina em
Si, para ser, em tudo, semelhante aos irmãos [Hebreus 2:17]. Dizer que Jesus
dispunha de uma vontade divina paralela à vontade humana anula o peso real da
Kenosis, fazendo com que não haja mérito na Sua vitória sobre as tentações, como
sendo o “segundo Adão”, pois Adão não possuía uma vontade divina intrínseca para
defendê-lo.
3. A Distinção entre Pessoa (Quem) e Natureza (O Quê)
A teologia trinitária afirma que a "natureza" é o que se é (o conjunto de atributos), enquanto a "pessoa" é quem se é (o centro de consciência e relacionamento). Segundo o Concílio de Calcedônia, na encarnação, a Pessoa do Filho assumiu a natureza humana, sem que a natureza divina sofresse alteração. Tratou-se uma manobra para rebater a acusação de que a Trindade cria "três deuses com opiniões diferentes".
- Essência/Natureza (O que Deus é): a natureza divina é uma só, dizem os trinitários. Há apenas uma mente divina, um poder divino e um querer divino essencial.
- Pessoa (Quem Deus é): existem três subsistências (Pai, Filho e Espírito Santo) que compartilham essa única substância.
Quando o texto bíblico mostra Jesus conversando com o Pai, os trinitários afirmam que há uma distinção real de Pessoas (o Filho não é o Pai), o que permite o relacionamento e o diálogo, mas não uma divisão de Essência. O "conflito" no Getsêmani, portanto, ocorre na dimensão humana de Jesus, e não dentro do Ser eterno de Deus.
Refutação
da Distinção entre Natureza e Pessoa: na
Bíblia, a natureza divina não é uma substância abstrata que pode ser separada
da consciência. As Escrituras dizem apenas que Deus é Espírito e não faz
separação alguma no ser de Deus (João 4:24). Se essa distinção de "natureza" e "pessoa" fosse real, a "Pessoa do Filho" teria se
esvaziado na Terra enquanto sua "Natureza Divina"
continuava governando o universo de forma onipresente e onisciente. Isso faz
com que a Kenosis se transforme em uma "ilusão" ou em um "teatro",
onde Jesus apenas fingia cansaço, limitação e ignorância. A Kenosis, descrita
em Filipenses 2:7, exige que o único Eu consciente de Deus tenha se
limitado voluntariamente à experiência humana. Se o sujeito que opera na Terra
está limitado pelo esvaziamento, não há uma "natureza divina ativa"
em paralelo operando de forma ilimitada no mesmo indivíduo. Portanto, Pessoa e
Natureza na divindade são indissociáveis na manifestação.
4. Uma Kenose "Parcial" ou "Funcional" (Não Radical)
A teologia trinitária enxerga a Kenosis de Filipenses 2 de forma diferente da Unicidade:
- Ocultamento, não renúncia: para os trinitários, Jesus não abriu mão de Sua divindade ou de Seus atributos ao encarnar. Ele apenas "velou" (escondeu) Sua glória divina sob o véu da carne humana.
- A "Adição" da Humanidade: eles argumentam que a encarnação não foi uma subtração (Deus deixando de agir como Deus), mas uma adição (Deus assumindo a natureza humana). Sendo assim, no Getsêmani, a divindade plena de Jesus continuava ativa, mas Ele permitiu que a Sua mente humana experimentasse o peso total do sofrimento para que o sacrifício fosse genuíno.
Refutação: as Escrituras falam que o “rico” (o Verbo) se fez “pobre” (Jesus) para enriquecer a muitos (2 Coríntios 8:9), tornando-se, por um pouco de tempo, "menor do que os anjos" (Hebreus 2:7). Caso Jesus mantivesse os atributos incomunicáveis em Seu ser, Ele jamais seria menor do que qualquer dos anjos e teria acrescentado algo ao seu ser ao invés de esvaziar-se, como diz o texto bíblico (Filipenses 2:7).
5. O Argumento do "Exemplo
Pedagógico" e Redentor
Os trinitários interpretam a agonia e as palavras de Jesus no Getsêmani como um ato necessário para a redenção e para a instrução da Igreja, de sorte que a aparente separação de vontades entre o Pai e o Filho serviram como uma encenação didática: uma forma de ensinar a humanidade a submeter sua vontade a Deus e, ao mesmo tempo, provar que Jesus tinha uma alma humana real:
- A Redenção da Vontade Humana: eles argumentam que, desde a queda no Éden, a vontade humana se rebelou contra Deus. Para salvar o homem, Jesus precisava assumir uma vontade humana real e fazê-la obedecer perfeitamente ao Pai. O Getsêmani é visto como o "anti-Éden": onde Adão disse "minha vontade seja feita" e Jesus diz "a Tua vontade seja feita".
- Prova de Humanidade Real: se Jesus não demonstrasse pavor diante do cálice, os trinitários argumentam que Ele pareceria um "fantasma" ou um “robô de carne” (uma heresia antiga conhecida como Docetismo). A diferença de vontades serve, na visão deles, para provar aos crentes que Ele foi tentado em tudo, como nós, mas sem pecado.
Refutação: se
a Trindade estivesse correta, toda a agonia, o suor de sangue e o clamor
pelo afastamento do cálice seriam, no fundo, uma encenação. Entretanto, o
texto bíblico diz que Ele "começou a entristecer-se e a angustiar-se
gravemente" (Mt 26.37). Somente diante de um esvaziamento total, Jesus
não estava fingindo ou dando uma "aula" de submissão;
Ele estava experimentando o pavor genuíno da morte biológica e do peso do
pecado sobre a natureza humana fraca (Mt 26.41). Reduzir o conflito de vontades
a uma "pedagogia" transforma o Getsêmani em um monólogo artificial.
Se Ele era o Deus onipotente fingindo ter uma vontade humana resistente, apenas
para nos dar o exemplo, o sofrimento deixa de ser um resgate real e passa a ser
uma simulação. Para que essa vitória sobre a carne fosse válida, Jesus
precisava vencer exatamente nas mesmas condições que nós, e não blindado
por uma coigualdade divina ativa. A Bíblia mostra que Jesus venceu a fraqueza
da carne porque Seu espírito humano estava "preparado",
i.e., fortalecido pelo Espírito Santo (o poder de Yahweh que veio habitar n’Ele),
exatamente como os crentes devem vencer hoje. Mas, se a vitória de Jesus contra
a própria carne no Getsêmani veio do fato de Ele ser uma pessoa divina coigual
ao Pai, Seu "exemplo" deixa de ser pedagógico para nós,
pois nós não somos pessoas divinas. O exemplo só é real e aplicável se Ele
venceu como homem autêntico e esvaziado, provando que o ser humano,
cheio do Espírito de Deus, pode subjugar sua própria vontade carnal. No que se
refere à afirmação trinitária que "apenas a natureza humana sofreu e
se submeteu, enquanto a natureza divina continuava igual ao Pai", há
uma clara contradição com Filipenses 2.7-8, que assegura que Aquele que estava
em forma de Deus "esvaziou-se a si mesmo... humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente". Quem obedeceu e se humilhou não foi uma "natureza
de carne" adicionada à divina, mas o próprio Verbo manifesto (na Sua totalidade). Para o
unicista, a beleza e o impacto do Getsêmani não estão em um "teatro
didático" entre duas pessoas divinas, mas no fato chocante de que o
único Deus Supremo (Yahweh), ao manifestar-se na carne, escolheu
experimentar a limitação, a dor da escolha e a angústia da renúncia.
Síntese do Contra-argumento
|
O Argumento
Pedagógico (Trinitário) |
A Resposta da
Unicidade / Kenose |
|
O conflito de
vontades foi uma demonstração didática para ensinar o homem a obedecer. |
O conflito foi orgânico
e real, fruto de uma mente humana genuína sofrendo as pressões da carne e
do instinto de sobrevivência. |
|
Jesus venceu porque
Sua pessoa divina estava em harmonia eterna com o Pai. |
Jesus venceu
porque, como homem esvaziado, preferiu a direção do Espírito Santo em
detrimento dos apelos de Sua carne fraca. |
|
Apenas a
"natureza humana" se submeteu no Getsêmani. |
O próprio Deus
manifesto em carne (Jesus) se humilhou por completo, tornando Sua obediência
um ato real e definitivo, e não uma encenação. |
Argumento Final Resumido
Se a natureza pudesse ser separada da pessoa, o esvaziamento de Cristo teria sido parcial e falso (apenas a pessoa mudou de status, a natureza continuou intacta). Como as Escrituras Sagradas mostram que a Kenosis foi real e absoluta, o Ser de Deus se envolveu por completo na encarnação (sem que tenha havido, logicamente, mudança em termos morais, mas somente em relação aos atributos de poder).
Deus é um Espírito individual (João 4:24). Na
gramática bíblica, "Deus", "Pai", "Espírito" e
"Santo" referem-se ao mesmo e único sujeito consciente. A distinção
entre natureza e pessoa foi um conceito criado com base na filosofia grega para
justificar a existência de três consciências divinas sem que isso parecesse politeísmo.
Retirando a filosofia e aplicando a Escritura, Deus é uma única Natureza que é uma única Pessoa, a qual se manifestou plenamente na carne sob o nome de Jesus Cristo, que significa Yahweh é salvação.
A
grande verdade das Escrituras sagradas é que, de uma maneira real e concreta,
em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo;
o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao
poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus
cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável
Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se
revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não
pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez
maldição por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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