Deus não pode ser tentado pelo mal [Tiago 1:13]
Com relação às tentações sofridas por Jesus [Hebreus 2.18, Hebreus 4.15; Isaías 7.15], há que se fazer uma análise bíblica, a fim de testificarmos se Ele as sofreu de fato.
E,
se as sofreu, torna-se imperativo responder, biblicamente, como isso foi possível, uma vez que Ele era Deus e Deus não pode ser tentado pelo mal [João 1.1; Hebreus 1:8; Tiago 1:13].
1. A Kénosis e a Ausência de
Atributos Incomunicáveis
Jesus, enquanto homem, não podia possuir atributos como “onisciência” ou “imortalidade”, por exemplo, pois, se os tivesse, as tentações teriam sido um “jogo de faz de conta”.
- Esvaziamento Real: o conceito de Kénosis (Filipenses 2:7) explica que Deus, ao se manifestar como homem, obrigou-se a esvaziar-se dos atributos exclusivos de Yahweh [onisciência, onipotência, onipresença, imortalidade, imutabilidade, auto existência, indivisibilidade, etc.].
- Limitação Voluntária: Jesus, em sua humanidade, era (1) limitado em espaço, i.e., não era onipresente [João 11:14-15], (2) limitado em conhecimento, i.e., conhecia o que o Espírito revelava [Marcos 13:32] e (3) limitado em poder, i.e., dependia totalmente da unção do Espírito [Mateus 28:18].
- Conclusão Unicista: se houvesse possibilidade de usar os atributos incomunicáveis para evitar o sofrimento ou a tentação, Jesus não seria o "segundo Adão". Ele viveu como um homem para que sua vitória fosse, de fato, uma vitória humana sobre o pecado, uma vez que o homem foi o responsável pela entrada do pecado no mundo.
2. A Realidade da Tentação [Tiago
1:13 vs. Hebreus 4:15]
O paradoxo apresentado pelo texto — "Deus não pode ser tentado", mas "Jesus foi tentado" — é o pilar da distinção entre Pai e Filho no Unicismo:
- O Pai [Espírito]: Deus, em Sua essência espiritual e absoluta, é transcendente e imune ao mal.
- O Filho [Carne]: a "carne" é, por definição, o campo de batalha da tentação. Jesus possuía uma vontade humana e desejos naturais [fome, preservação da vida, cansaço].
- A Não-Teatralidade: se Jesus não pudesse pecar por uma impossibilidade metafísica [como se fosse um robô divino, por exemplo], a tentação no deserto e no Getsêmani teriam sido uma farsa [Mateus 4:1-11; Mateus 26:36-46].
Nota de Contexto: as tentações que Jesus sofreu foram reais porque a possibilidade de escolha da vontade humana de Jesus era real, de sorte que, diferentemente de Aão, Ele não pecou porque escolheu submeter Sua vontade humana à vontade do
Espírito [o Pai] que veio habitar n'Ele por ocasião do batismo nas águas.
3. Vigilância e Dependência:
Mateus 26:41
Jesus necessitava "vigiar para não entrar em tentação", reforçando a ideia da humanidade perfeita, mas totalmente dependente:
- Jesus é o modelo do homem cheio do Espírito Santo. Ele não venceu o mal como "Deus fingindo ser homem", mas como um homem que não possuía os atributos exclusivos de Yahweh.
- A necessidade de oração e vigilância prova que Sua carne era idêntica à nossa em termos de suscetibilidade, embora pura em termos de origem [gerada sem a semente do pecado de Adão].
4. Tabela Comparativa: A
Perspectiva Unicista
|
Elemento |
A Divindade [O Pai/Espírito] |
A Humanidade [O Filho/Carne] |
|
Tentação |
Impossível (Tiago 1:13) |
Real e Necessária (Hebreus 4:15) |
|
Conhecimento |
Onisciente |
Limitado ao que o Espírito
revelava |
|
Presença |
Onipresente |
Localizado no corpo físico |
|
Morte |
Imortal e Eterno |
Mortal [provou a morte por
todos] |
|
Pecado |
Santo por Natureza |
Santo por Nascimento e
Escolha |
Síntese Final
A análise feita confirma que
Jesus Cristo foi o sacrifício perfeito justamente, pois abriu mão
de vir ao mundo na “forma de Deus”, i.e., em Sua missão, escolheu possuir a “forma
de homem” [Filipenses 2:7];
Ao afirmar que Jesus não
possuía atributos incomunicáveis, o texto não nega que Ele
era Deus, mas confirma que Deus se fez verdadeiramente homem [esvaziou-se].
A vitória de Jesus sobre as tentações não foi a vitória de Deus sobre o homem, mas a vitória de Deus através do homem, tornando-O o mediador perfeito [Hebreus 4:15].
O fato de Deus ter entrado verdadeiramente no sofrimento humano, por meio de Sua manifestação em carne, autolimitando-se, não anula Sua divindade, antes a torna ainda mais manifesta e admirável, fazendo-O plenamente Deus, ainda mais soberano, maior e mais glorioso do que antes se podia imaginar.
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Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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