Parte 2 - Refutando as supostas "Cristofanias" no Velho Testamento
Marcelo Victor R. Nascimento
Este estudo tem por objetivo
analisar a visita angelical recebida por Abraão nos carvalhais de Manre,
narrada em Gênesis 18:1–33, sob a ótica (1) do Unicismo [a crença de que Deus
é um em pessoa e essência, manifestado como Pai na criação, Filho na redenção e
Espírito Santo na regeneração] e (2) da Kenosis [o esvaziamento do
Logos para a encarnação].
Esta análise reveste-se de
importância em virtude dos defensores da Trindade usarem esse acontecimento para
garantir que as supostas três pessoas distintas já estavam presentes no Velho Testamento,
sugerindo que Abraão, naquela ocasião, assistiu a uma "Cristofania" [aparição
pré-encarnada de Cristo].
1. A Singularidade da
Encarnação [Kenosis e Plenitude]
A encarnação da Palavra de
Deus foi uma obra de amor tão profunda que Deus se dispôs a esvaziar-se dos
Seus atributos incomunicáveis para assumir a forma humana [frágil e falível]. Aceitar as supostas "cristofanias" na Antiga Aliança significa dizer que o nascimento de Jesus no ventre de Maria [a encarnação] deixa de ser
o evento central que ocorreu na plenitude do tempo da história [Gálatas 4.4].
- O Erro das
Pré-encarnações: se o Verbo se fez carne várias vezes para "negociar"
com os patriarcas, o sacrifício e a humilhação do Calvário perdem sua
exclusividade metafísica e excelência, como omaior evento da história da humanidade, tornando comum e corriqueiro algo que é tido como um evento extraordinário, aguardado pelos século dos séculos.
- Emanuel: o título "Deus
conosco" [Mateus 1:23] torna-se obsoleto se Ele já estivesse
fisicamente presente de forma corriqueira nos carvalhais de Manre e em
outros acontecimentos envolvendo o povo de Deus.
2. A Agência Angelical vs.
Divindade Direta
As Escrituras Sagradas dizem,
em 1 Timóteo 6.16, que Deus nunca foi visto por homem algum. Quando a Bíblia diz que "o Senhor falou", o escritor
bíblico, tão somente, utiliza a Lei da Agência, i.e., o enviado [anjo] fala em
nome daquele que o enviou [Deus] como se fosse o próprio [Êxodo
23:20-22].
- Diferenciação de
Atributos: fica claro no texto bíblico que o ser que falou com Abraão precisou
"descer para ver" a situação de Sodoma [Gênesis
18.21], caracterizando uma investigação preliminar para saber se a
destruição seria derramada sobre as cidades impenitentes. Isso refuta a
ideia de que se tratava de uma teofania, pois Deus é onisciente,
não precisando averiguar nada. Os seres criados [anjos] é
que possuem limitações [Hebreus 1.14].
- Hierarquia Funcional: não há nada de especial [ou incongruente] no fato de um anjo ter ficado ao lado de Abraão enquanto os outros dois dirigiram-se a Sodoma e Gomorra, como se aquele que ficou fosse mais importante do que os outros dois, sugerindo que se tratava de Jesus pré-encarnado. Em Daniel 10:13,20-21, é possível notar que há anjos mensageiros e anjos guerreiros, não sugerindo qualquer tipo de hierarquia entre os seres celestiais, mas diferenciando-os em termos de missão, habilidade e poder.
3. Exegese Linguística e
Hermenêutica
Quando se fala em aparição de anjos, é comum ocorrerem vícios de tradução e interpretações, em prol da Doutrina da Trindade [clara tendenciosidade].
- Anjo com "A" Maiúsculo: trata-se de uma inserção teológica posterior, muito comum em muitas traduções. Contudo, os originais [Hebraico/Grego] não possuem essa distinção, o que nivela o "Anjo do Senhor" à categoria de mensageiro espiritual, não de uma "Segunda Pessoa".
- A "Rocha Espiritual": dizer que Jesus era a “rocha espiritual” [que acompanhou os israelitas no deserto] é uma clara referência à Palavra de Deus, descartando a hipótese das pré-encarnações de Jesus no Velho Testamento. O apóstolo Paulo identifica Jesus Cristo como a Rocha [1 Coríntios 10:4], deixando claro que a Palavra de Deus [Logos] era quem acompanhava o povo, e não uma presença antropomórfica física.
- João 8.56 ["Abraão viu o meu dia"]: alguns estudiosos associam a destruição de Sodoma e Gomorra com as seguintes palavras de Jesus: “Abraão, vosso pai, exultou em ver o meu dia, e viu, e alegrou-se” (João 8.56). Trata-se de uma tentativa de dar base bíblica à crença de que Jesus esteve pessoalmente [encarnado] diante de Abraão, um argumento bastante frágil.
Nota de Contexto: parece mais apropriado
relacionar as palavras de Jesus com o dia em que Abraão ofereceu seu filho em
holocausto e Deus proveu um cordeiro para o sacrifício em lugar de Isaque, até
porque a Bíblia diz que Deus alegra-se mais com a salvação das Suas criaturas
do que com a destruição das mesmas [Salmo 30.5; Ezequiel 33.11].
4. A Invisibilidade de Deus
(O Dogma Joanino)
O argumento final, e mais
contundente, repousa nas seguintes afirmações de Jesus: "Ninguém jamais viu a
Deus" (João 1.18) e "nunca ouvistes a sua voz, nem
vistes a sua forma" (João 5.37).
- Se Abraão tivesse
comido, conversado e negociado face a face com Jesus [como Deus encarnado],
as palavras de João seriam falsas.
- Conclusão: o ser que apresentou-se em Manre era um
representante angelical. A voz de Deus ali era delegada. Deus só foi
plenamente visto, ouvido e tocado em Jesus Cristo [o Deus manifesto
em carne].
Tabela Comparativa: Visão Trinitária vs. Visão Unicista
|
Elemento |
Interpretação Trinitária [Cristofania] |
Interpretação Unicista [Angelofania] |
|
Identidade do Anjo |
Jesus pré-encarnado. |
Um espírito ministrador [Hebreus
1.14]. |
|
Investigação de Sodoma |
Deus "limitando-se"
por condescendência. |
Limitação real de
conhecimento do anjo. |
|
Gálatas 4.4 |
Uma das várias vindas de
Cristo. |
A única e exclusiva
vez que o Verbo se fez carne. |
|
Teofania de Moisés |
Cristo na sarça. |
Anjo portando a voz de
Deus [Atos 7.53]. |
Nota de Reflexão: aceitar Cristofanias
no Antigo Testamento esvazia o conceito de Kenosis, pois sugere que
o esvaziamento do Verbo era reversível ou repetitivo, tirando o peso das
palavras “está consumado”, ditas por Jesus, e da singularidade da Sua face como a única imagem do Deus invisível [João 19:30; Hebreus 1:3].
Portanto, a manifestação de
Deus no Antigo Testamento ocorria por glória, nuvem, fogo ou anjos, reservando
a forma humana exclusivamente para o Messias, o Emanuel.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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