Jesus e a tentação no deserto [os sinais]
Marcelo Victor R. Nascimento
Antes de analisarmos a necessidade
que Jesus possuía de contemplar sinais que confirmassem Sua identidade [o
Messias prometido], é importante lembrarmos de dois detalhes fundamentais:
(1) O Unicismo defende a crença de que Deus é
absolutamente UM em pessoa e essência, e não um conjunto de pessoas distintas
formando uma entidade chamada “deus”; e
(2) Na encarnação do Verbo, houve uma Kenosis Radical,
i.e., o esvaziamento total dos atributos incomunicáveis de Deus [onipresença,
onisciência, Onipotência, auto existência, imutabilidade, imortalidade,
eternidade, indivisibilidade, etc.], a fim de que Jesus pudesse ser EM TUDO
semelhante aos demais homens e viesse a morrer pelos pecadores, como o "Cordeiro
de Deus que tira o pecado do mundo" [Filipenses 2:7; Hebreus 2:17; João 1:29].
Portanto, na cosmovisão
Unicista, Jesus não é uma "segunda pessoa" de uma
Trindade, mas a manifestação humana do próprio Yahweh, que, ao assumir a condição
humana, submeteu-se, de fato, a uma limitação real e absoluta.
1. A Kenosis e a Fragilidade
Biológica
As Escrituras Sagradas mostram que Jesus, quando foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, jejuou 40 dias, algo que, na Antiga Aliança, havia ocorrido com Moisés e Elias.
- Abandono da Onipotência: se Jesus tivesse retido Sua onipotência, o jejum teria sido um verdadeiro "teatro" sem risco real. A análise correta aqui é que, ao esvaziar-se da Sua autossuficiência, a sobrevivência física de Jesus dependeu inteiramente da sustentação do Espírito Santo, e não de Sua divindade intrínseca.
- Identidade com a Humanidade: Jesus foi um "homem comum" capacitado pelo poder do alto. Ele não “deixou de usar” Seus atributos divinos, a fim de facilitar Sua jornada terrena, mas viveu a experiência humana em sua totalidade de dependência, sendo o “Deus vazio” [dos atributos exclusivos da divindade].
2. A Crise de Identidade e a Necessidade de
Confirmação
Em virtude do esvaziamento dos atributos exclusivos da divindade, Jesus precisava de sinais para "convencê-Lo" e "dar-Lhe a certeza" de Sua missão. Aliás, por causa da difícil missão, Ele mais do que todos os servos de Deus precisava da manifestação divina a todo momento.
- Esvaziamento da Onisciência: Jesus não nasceu com o inventário total do conhecimento divino. Ele cresceu em sabedoria durante Sua vida terrena [Lucas 2:52], corroborando com a interpretação de que Ele buscou, nas Escrituras e nos sinais, a confirmação de Sua identidade messiânica.
- A Memória Exegética: por certo, Jesus associou Sua experiência no deserto à de Daniel, Moisés e Elias, no que se refere ao jejum de 40 dias e à sobrevivência entre as feras [Êxodo 34.28; 1 Reis 19.8; Daniel 6:22; Marcos 1:13].
Nota de Contexto: essa premissa reforça a
tese de um Messias que descobre Sua vontade e natureza através do
relacionamento com o Pai [o Espírito eterno] e com as Escrituras Sagradas, e
não por uma consciência divina plena e ininterrupta desde o berço.
3. O Conflito com o Dogma
Trinitário
Há, nesses aspectos, uma dicotomia
real entre a visão Unicista [kenótica] e a Trinitária:
|
Aspecto |
Visão Unicista [Kenosis] |
Visão Trinitária
Tradicional |
|
Natureza de Jesus |
Homem igual aos demais,
mas sem pecado. |
Deus-Homem [duas naturezas
coexistentes]. |
|
Fonte dos Milagres |
Yahweh operando através
do homem Jesus. |
Jesus operando por Sua
própria virtude divina, ora adormecida ora despertada. |
|
Sinais de Confirmação |
Necessários para legitimar
Sua consciência humana. |
Desnecessários, pois o
Logos é onisciente. |
4. A Unidade de Pessoa e o
Espírito sem Medida
As passagens de João 3:34 e
Atos 2:22, mostram, de forma clara, que a distinção entre "Pai"
e "Filho" não é de pessoas, mas de modo de
existência:
1.O Pai [Yahweh]: a
divindade invisível, onipotente e onisciente.
2.O Filho [Jesus]: a
humanidade limitada; o tabernáculo que sofreu a kenosis.
A "aprovação"
de Deus em relação ao “Filho”, mencionada em Atos 2:22, é, para o
Unicismo, o selo de Yahweh sobre Sua própria manifestação na carne. Jesus não é
um "segundo Deus" sendo aprovado pelo primeiro, mas a
face visível de Deus sendo legitimada no mundo físico.
Nota de
Contexto:
o unicismo rejeita a ideia de que o Filho exista desde a eternidade como uma
pessoa distinta. O "Filho" teve um início: a encarnação
[Salmos 2:7; Hebreus 1:5]. Por isso, faz sentido que o Filho, na condição de
servo, recebesse aprovação e sinais de Yahweh.
Síntese da Análise
A defesa de que Jesus
precisava de sinais para fortalecer Sua certeza messiânica leva a doutrina da
kenosis às suas últimas consequências: Deus, ao se tornar homem, aceitou o
risco da dúvida e a necessidade da fé.
Se a imutabilidade e a
onisciência fossem mantidas por Jesus na terra, a tentação no deserto teria sido apenas um
exercício retórico. Ao afirmar que Ele foi "vencido"
pela fome e "fortalecido" pelos sinais, a análise acaba por legitimar a ideia de um Deus que se tornou tão humano que precisou ser convencido de Sua
própria glória pela ação do Espírito Santo.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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