Jesus e a tentação no deserto [os sinais]

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento


Antes de analisarmos a necessidade que Jesus possuía de contemplar sinais que confirmassem Sua identidade [o Messias prometido], é importante lembrarmos de dois detalhes fundamentais:

         (1) O Unicismo defende a crença de que Deus é absolutamente UM em pessoa e essência, e não um conjunto de pessoas distintas formando uma entidade chamada “deus”; e

         (2) Na encarnação do Verbo, houve uma Kenosis Radical, i.e., o esvaziamento total dos atributos incomunicáveis de Deus [onipresença, onisciência, Onipotência, auto existência, imutabilidade, imortalidade, eternidade, indivisibilidade, etc.], a fim de que Jesus pudesse ser EM TUDO semelhante aos demais homens e viesse a morrer pelos pecadores, como o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" [Filipenses 2:7; Hebreus 2:17; João 1:29].

Portanto, na cosmovisão Unicista, Jesus não é uma "segunda pessoa" de uma Trindade, mas a manifestação humana do próprio Yahweh, que, ao assumir a condição humana, submeteu-se, de fato, a uma limitação real e absoluta.


1. A Kenosis e a Fragilidade Biológica

As Escrituras Sagradas mostram que Jesus, quando foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, jejuou 40 dias, algo que, na Antiga Aliança, havia ocorrido com Moisés e Elias. 

  • Abandono da Onipotência: se Jesus tivesse retido Sua onipotência, o jejum teria sido um verdadeiro "teatro" sem risco real. A análise correta aqui é que, ao esvaziar-se da Sua autossuficiência, a sobrevivência física de Jesus dependeu inteiramente da sustentação do Espírito Santo, e não de Sua divindade intrínseca.
  • Identidade com a Humanidade: Jesus foi um "homem comum" capacitado pelo poder do alto. Ele não “deixou de usar” Seus atributos divinos, a fim de facilitar Sua jornada terrena, mas viveu a experiência humana em sua totalidade de dependência, sendo o “Deus vazio” [dos atributos exclusivos da divindade].

2. A Crise de Identidade e a Necessidade de Confirmação

Em virtude do esvaziamento dos atributos exclusivos da divindade, Jesus precisava de sinais para "convencê-Lo" e "dar-Lhe a certeza" de Sua missão. Aliás, por causa da difícil missão, Ele mais do que todos os servos de Deus precisava da manifestação divina a todo momento. 

  • Esvaziamento da Onisciência: Jesus não nasceu com o inventário total do conhecimento divino. Ele cresceu em sabedoria durante Sua vida terrena [Lucas 2:52], corroborando com a interpretação de que Ele buscou, nas Escrituras e nos sinais, a confirmação de Sua identidade messiânica.
  • A Memória Exegética: por certo, Jesus associou Sua experiência no deserto à de Daniel, Moisés e Elias, no que se refere ao jejum de 40 dias e à sobrevivência entre as feras [Êxodo 34.28; 1 Reis 19.8; Daniel 6:22; Marcos 1:13].

Nota de Contexto: essa premissa reforça a tese de um Messias que descobre Sua vontade e natureza através do relacionamento com o Pai [o Espírito eterno] e com as Escrituras Sagradas, e não por uma consciência divina plena e ininterrupta desde o berço.

3. O Conflito com o Dogma Trinitário

Há, nesses aspectos, uma dicotomia real entre a visão Unicista [kenótica] e a Trinitária:

Aspecto

Visão Unicista

[Kenosis]

Visão Trinitária Tradicional

Natureza de Jesus

Homem igual aos demais, mas sem pecado.

Deus-Homem

[duas naturezas coexistentes].

Fonte dos Milagres

Yahweh operando através do homem Jesus.

Jesus operando por Sua própria virtude divina, ora adormecida ora despertada.

Sinais de Confirmação

Necessários para legitimar Sua consciência humana.

Desnecessários, pois o Logos é onisciente.


4. A Unidade de Pessoa e o Espírito sem Medida

As passagens de João 3:34 e Atos 2:22, mostram, de forma clara, que a distinção entre "Pai" e "Filho" não é de pessoas, mas de modo de existência:

1.O Pai [Yahweh]: a divindade invisível, onipotente e onisciente.

2.O Filho [Jesus]: a humanidade limitada; o tabernáculo que sofreu a kenosis.

A "aprovação" de Deus em relação ao “Filho”, mencionada em Atos 2:22, é, para o Unicismo, o selo de Yahweh sobre Sua própria manifestação na carne. Jesus não é um "segundo Deus" sendo aprovado pelo primeiro, mas a face visível de Deus sendo legitimada no mundo físico.

Nota de Contexto: o unicismo rejeita a ideia de que o Filho exista desde a eternidade como uma pessoa distinta. O "Filho" teve um início: a encarnação [Salmos 2:7; Hebreus 1:5]. Por isso, faz sentido que o Filho, na condição de servo, recebesse aprovação e sinais de Yahweh.


Síntese da Análise

A defesa de que Jesus precisava de sinais para fortalecer Sua certeza messiânica leva a doutrina da kenosis às suas últimas consequências: Deus, ao se tornar homem, aceitou o risco da dúvida e a necessidade da fé.

Se a imutabilidade e a onisciência fossem mantidas por Jesus na terra, a tentação no deserto teria sido apenas um exercício retórico. Ao afirmar que Ele foi "vencido" pela fome e "fortalecido" pelos sinais, a análise acaba por legitimar a ideia de um Deus que se tornou tão humano que precisou ser convencido de Sua própria glória pela ação do Espírito Santo.

 


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Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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