O brado de Jesus na cruz: "Eli Eli..."

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Marcelo Victor R. Nascimento


O brado de Jesus no Calvário — Eli, Eli, lamá sabactâni? — Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mateus 27:46) — constitui o ponto de ruptura definitivo entre a teologia trinitária e a verdade bíblica manifesta no Unicismo. Quando analisado com rigor, o clamor da cruz expõe a insustentabilidade do dogma da Trindade, revelando que o abandono real só encontra amparo legal e existencial no modelo unicista.


1. O Impasse Trinitário: Por que o Brado Perde o Sentido na Trindade?

Dentro da dogmática trinitária, a alcunha do chamado "deus-filho" anula a própria possibilidade do desamparo relatado no Evangelho. O argumento trinitário tradicional baseia-se na premissa de que Jesus possui uma santidade divina intrínseca e coeterna à do Pai, a qual jamais poderia deixá-lo.

Esse posicionamento gera uma contradição moral e lógica insolúvel:

  • A Incompatibilidade da Luz com as Trevas: se Jesus fosse a "segunda pessoa da Trindade" retendo Sua suposta santidade divina ativa na cruz, Ele jamais poderia ter recebido o pecado da humanidade sobre Si. A luz da santidade divina absoluta não pode misturar-se com as trevas do pecado, e os pecados da humanidade não podem conviver ou habitar na pureza essencial de um Deus pleno (Habacuque 1:13).
  • A Blindagem do "Deus-Filho": se a divindade de Jesus estivesse unida a Ele de forma inseparável no Calvário, a contaminação pelo pecado seria impossível, o que significa que o pecado humano nunca foi verdadeiramente depositado n’Ele. Consequentemente, o brado de desamparo na boca de uma "co-pessoa" divina torna-se uma encenação sem sentido, uma vez que o Pai jamais poderia "virar o rosto" para uma parte de Si mesmo que permanece intrinsecamente santa.


2. A Engenharia Unicista: A Saída do Espírito como Veículo para o Pecado

O Unicismo desfaz esse paradoxo ao demonstrar que Jesus é o verdadeiro homem que recebeu a unção do Espírito Santo (a glória divina) nas águas do santo batismo. É essa estrutura que torna o mecanismo da substituição juridicamente viável:

  • A Saída do Espírito Santo: o texto bíblico demonstra que a saída do Espírito Santo do maravilhoso ser de Jesus foi o veículo exato e necessário para que o mal pudesse ser depositado n’Ele. Enquanto a unção e a glória divina estivessem plenamente ativas preenchendo a humanidade de Jesus, o pecado da humanidade não encontraria espaço para ser lançado sobre Ele.
  • A Tipologia de Saul: o processo é perfeitamente ilustrado pela passagem de 1 Samuel 16:13-14 ("E o Espírito do Senhor se retirou de Saul"). Assim sendo, como o Espírito do Senhor retirou-se de Saul, deixando-o vulnerável, Jesus experimentou a retirada do Espírito Santo doSeu ser na hora da morte.
  • O Cumprimento de Isaías 59:2: despojado do suporte vital da glória divina recebida no batismo, Jesus pôde finalmente ser feito maldição por nós. Cumpriu-se de forma literal o veredito do profeta: "as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça". O Pai virou Seu rosto e permaneceu em silêncio porque o homem Jesus, naquele instante de abandono, absorveu a nossa culpa (Isaías 53:4).

Nota: a doutrina trinitária da união hipostática constitui um artifício teológico formulado especificamente para tentar justificar o paradoxo do brado de Jesus e o recebimento dos pecados da humanidade em uma suposta divindade impassível. Essa formulação possui clara raiz platônica ao dualizar o Messias, separando a experiência do corpo da experiência da alma e argumentando que apenas a "natureza humana" sofreu o desamparo. No entanto, à luz do Unicismo e da Kénosis Radical, essa heresia cai por terra: a santidade de um "Deus-Filho" trinitário jamais poderia misturar-se com as trevas do pecado. O clamor da cruz só faz sentido real porque o Espírito Santo retirou-Se de Jesus — unção que Ele havia recebido no batismo —, tornando Seu ser o veículo limpo e esvaziado para que o mal fosse depositado, gerando o desamparo factual exigido pela justiça divina (Isaías 53:4).


Conclusão: A Confissão da Vitória Real

Longe de representar um fracasso ou uma contradição, o brado de Jesus na cruz foi a confissão de que o plano de salvação estava sendo milimetricamente cumprido. Ao contrário do artifício trinitário e platônico que afirma que "apenas o corpo de Jesus morreu" para poupar o "deus-filho" da dor da separação, o Unicismo resgata a grandessíssima vitória sobre a ruína trazida pelo primeiro Adão.

O esvaziamento da unção permitiu que Ele recebesse a culpa e a condenação integral da raça humana. E, mesmo sob o silêncio e a distância jurídica causados pelos pecados recebidos, a comunhão profunda de propósitos permanecia plena, validando as palavras do apóstolo Paulo de que "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados" (2 Coríntios 5:19). O desamparo foi real, o esvaziamento do Espírito foi factual, e o preço do resgate foi integralmente pago.

Na cruz, não há duas naturezas duelando ou uma divindade escondida sustentando o homem. Há apenas um homem — o Filho esvaziado — sofrendo por amor. Isso torna o Seu sacrifício ainda mais voluntário e heroico: Ele venceu o pecado e a morte nas mesmas condições de fraqueza humana em que nós nos encontramos, demonstrando o que a humanidade submissa a Deus é capaz de fazer. 

Nessa perspectiva, a cruz deixa de ser um mistério de mecânica teológica (como duas naturezas operam juntas) e passa a ser o ápice do realismo bíblico: um homem perfeito, desprovido de poder divino próprio, sendo esmagado pela realidade do pecado para curar a humanidade.


    A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.

 


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.






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