O Ladrão da Cruz foi mesmo para o Paraiso no dia em que morreu?
Marcelo Victor R. Nascimento
A Bíblia diz que "um abismo chama outro abismo" (Salmos 42:7), algo que ocorre com o Dogma da Trindade que usa algumas heresias para sustentar parte de suas premissas, tal como a "doutrina da imortalidade da alma".
Dentre todas as passagens
bíblicas utilizadas para defender essa heresia (de que o ser humano possui uma
"alma imortal" que se desprende do corpo e vai direto para o
céu após a morte), a mais citada é o diálogo entre Jesus e o ladrão
arrependido na cruz. O texto clássico diz o seguinte: "E disse-lhe Jesus: Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" (Lucas 23:43).
À primeira vista, uma leitura superficial e isolada desse versículo parece validar a tese imortalista. Porém, quando confrontamos essa interpretação popular com o restante das Escrituras, o castelo de cartas cai. Afinal, a Bíblia não se contradiz.
Na cena da crucificação, diante do pedido do malfeitor arrependido, a maioria das nossas Bíblias traduz a resposta de Jesus assim: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” Para os defensores do dualismo (a ideia de que temos uma alma imortal que se desprende do corpo no momento da morte), essa passagem é a prova cabal de sua teoria. Afinal, Jesus e o ladrão teriam subido ao Céu naquele mesmíssimo dia. Contudo, a interpretação depende apenas de uma vírgula colocada no lugar errado pelos tradutores.
Quando analisamos as
Escrituras a partir do holismo bíblico — a verdade de que o homem é uma
unidade indissociável e que os mortos aguardam a ressurreição —, percebemos que
o "hoje" de Jesus tinha um significado muito mais profundo e
coerente. Vamos entender o porquê.
1. O mistério do Grego
Original (Onde fica a vírgula?)
O primeiro detalhe que
todo estudante da Bíblia precisa saber é: o grego original em que o Novo
Testamento foi escrito não tinha pontuação, nem vírgulas, nem espaços entre as
palavras.
Além disso, a palavra
“QUE” (presente em algumas versões) não existe no texto original. O manuscrito
reza literalmente: “Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”.
A decisão de onde colocar a vírgula foi dos tradutores modernos. E isso muda tudo. Veja a diferença:
- Opção A (Tradicional): “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso.” (Dá a entender que o cumprimento seria naquele dia).
- Opção B (Hermenêutica Correta): “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso.” (Jesus está garantindo naquele dia difícil uma promessa que se cumprirá no futuro).
Dizer "Em verdade
te digo hoje" era uma expressão idiomática solene muito comum no
ambiente semítico. Encontramos essa mesma estrutura em Deuteronômio 30:16,
quando Moisés diz: "Te ordeno hoje que ames o Senhor". Moisés
não estava dizendo que o povo deveria amar a Deus apenas nas 24 horas daquele
dia, mas sim que a ordem estava sendo dada naquela data solene.
2. A Rota de Jesus: Ele
foi ao Paraíso na Sexta-Feira?
Se aceitarmos a Opção A
(de que Jesus e o ladrão foram ao Paraíso na sexta-feira da crucificação),
criamos uma contradição insustentável dentro da própria Bíblia.
No domingo de manhã, após ressuscitar, Jesus se encontra com Maria Madalena e faz uma declaração categórica: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai.” (João 20:17). Ora, se no domingo de manhã Jesus ainda não havia subido ao Pai (onde fica o Paraíso), como Ele poderia ter estado lá na sexta-feira com o ladrão?
A própria Bíblia nos
mostra que, nos três dias em que esteve morto, Jesus não subiu; Ele desceu à
sepultura (o Sheol ou Hades no grego, o "coração da
terra", conforme Mateus 12:40 e Atos 2:27). Jesus estava realmente morto,
aguardando a ressurreição.
3. O Contexto: O que o
ladrão realmente pediu?
Para entender a resposta de Jesus, precisamos olhar para a pergunta do malfeitor no versículo anterior: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu Reino.” (Lucas 23:42)
Como um bom judeu, aquele
homem não acreditava que sua alma iria flutuar para o Céu assim que ele
morresse. Ele cria na Segunda Vinda do Messias e na ressurreição dos
mortos no último dia. Ele estava pedindo para ser lembrado no futuro, no dia da
glória de Cristo.
A resposta de Jesus foi
um conforto imediato para um coração aflito. É como se Ele dissesse: “Você
está me pedindo para te lembrar num futuro distante, quando eu reinar. Mas eu
te garanto hoje, agora mesmo, enquanto estamos aqui pendurados nesta cruz de
vergonha: você estará comigo no Paraíso (quando esse Reino se manifestar)”.
4. O Testemunho da
História
Essa forma de ler o texto
não é uma "invenção moderna". Manuscritos antiquíssimos e traduções
antigas que precisavam organizar a frase em outros idiomas já colocavam o
"hoje" colado ao verbo dizer.
O manuscrito Códice de
Beza e antigos fragmentos Siríacos do século II trazem o texto de forma a
deixar claro: "Hoje eu lhe digo a verdade...". Pais da igreja
antiga, como Hesíquio de Jerusalém e Teofilacto, também reconheciam essa
estrutura gramatical.
5. O Mortalismo: A Clara
Verdade Bíblica
A doutrina bíblica autêntica é o mortalismo (conhecido como "sono da alma"). A Bíblia ensina de forma uníssona que a morte é um estado de completa inconsciência e silêncio, onde o homem aguarda a ressurreição final. O plano de Deus nunca foi criar almas flutuantes, mas sim restaurar seres humanos completos (corpo, mente e fôlego de vida). Veja o peso das evidências bíblicas:
- A Sentença Divina: no Éden, Deus foi claro sobre o destino humano após o pecado: "até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gênesis 3:19). A morte não é um portal de libertação ou um benefício para ir a um lugar melhor; ela é uma penalidade.
- A Igualdade no Pó: o sábio Salomão confirmou que homens e animais têm o mesmo destino físico na morte: "Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó" (Eclesiastes 3:19-20).
- O Exemplo dos Santos: o apóstolo Pedro afirmou em Atos 2:34 que o rei Davi — um homem segundo o coração de Deus — "não subiu aos céus". O anjo prometeu ao profeta Daniel que ele apenas "descansaria" e só se levantaria para sua herança "no fim dos dias" (Daniel 12:13).
- A Coroa Guardada: o apóstolo Paulo declarou que a coroa da justiça lhe seria dada pelo Justo Juiz apenas "naquele dia", referindo-se ao último dia, na segunda vinda de Cristo (2 Timóteo 4:7-8).
Conclusão: A Vitória da
Ressurreição
A doutrina da
imortalidade da alma tenta criar atalhos espirituais que esvaziam o real poder
da ressurreição dos mortos. Se o ladrão já foi para o Paraíso na sexta-feira em
espírito, a ressurreição do seu corpo no último dia passa a ser apenas um
detalhe sem importância.
Mas para o holismo bíblico, a morte é um "sono profundo" e a nossa esperança repousa inteiramente no despertamento final. Naquela sexta-feira de agonia, o malfeitor fechou os olhos na morte com uma promessa selada em seu coração.
Para quem está morto, o tempo não passa, de sorte que, entre o momento em que o ladrão fechou os olhos na cruz e o momento em que ele os abrirá na ressurreição dos justos, parecerá apenas uma fração de segundo — "um abrir e fechar de olhos" (1 Coríntios 15:52)
A promessa foi feita naquele
dia, mas a realidade do Paraíso nos aguarda na consumação de todas as
coisas!
A promessa Recomendo aos leitores o seguinte debate entre o professor e teólogo Lucas Banzoli e o Pastor Elias Soares de Moraes sobre a "doutrina da imortalidade da alma", que possui fortes raízes platônicas:
Referências Bibliográficas:
BANZOLI, Lucas. (2012). Hoje estarás comigo no Paraíso? Blog Heresias Católicas. Disponível em: https://heresiascatolicas.blogspot.com/2012/09/hoje-estaras-comigo-no-paraiso.html
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). "Certamente não morrereis!" Joinville: Clube de Autores.


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