O suor transformou-se em gotas de sangue: a razão de tanto sofrimento
Marcelo Victor R. Nascimento
Para os teólogos que defendem um Messias
imperturbável — uma divindade vestindo uma "capa"
humana apenas para encenar um roteiro pré-escrito —, o Jardim do Getsêmani é um
labirinto exegético intransitável.
Como explicar que Aquele que ordenou ao mar que
se calasse e ressuscitou mortos agora se encontra prostrado, com o rosto no pó,
tomado por um pavor paralisante? A resposta para esse enigma não reside em uma
divisão de pessoas na divindade, mas sim no Unicismo e na profundidade
da Kenosis Radical (esvaziamento dos atributos de poder, descrito em Filipenses 2:7).
Ao se manifestar em carne, o Deus Único e
Transcedente não encenou a humanidade; Ele a viveu em sua plenitude biológica e
psicológica mais crua. O ápice dessa vulnerabilidade humana ficou registrado no
DNA teológico do Novo Testamento, sintetizado com uma honestidade avassaladora
pelo autor da Epístola aos Hebreus: "Nos dias de sua vida mortal,
dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar
da morte..." (Hebreus 5:7).
1. O Cenário da Kenosis: O Pavor Biológico da
Morte
Sob a perspectiva da Kenosis Radical, Jesus
abriu mão voluntariamente do uso de Seus atributos incomunicáveis de poder
(como a imunidade ao sofrimento) para operar estritamente dentro das balizas da
nossa natureza, visto que a primeira baliza da natureza humana reta — assim
como era em Adão antes da queda — é o instinto de autopreservação.
- Uma Humanidade Perfeita: o medo da morte em
Jesus não era um pecado, nem uma falta de fé; era a prova cabal de que Sua
carne era perfeitamente real. O corpo humano foi projetado por Deus para amar a
vida e repelir a destruição.
Nota: diante da
iminência de ser torturado, ter pregos rasgando Seus tendões e morrer por
asfixia em uma cruz romana, o sistema nervoso de Jesus reagiu com o horror
biológico máximo.
2. Clamores e Lágrimas: O Tribunal da Mente
Humana de Jesus
A matéria descrita em Hebreus 5:7 nos
transporta para o tribunal psicológico que ocorreu na mente santa de Jesus no
Getsemani. Lucas, o médico, registra o diagnóstico clínico desse pavor: hematidrose
— o suor de sangue, um fenômeno raríssimo que ocorre quando o estresse
psicológico extremo rompe as veias capilares sob as glândulas sudoríparas.
Por que tamanho pavor?
- A Solidão da Escolha: ao contrário do Primeiro Adão, que foi sitiado pelo apelo visual da ausência da morte em Eva e pelo desgaste afetivo provocado porsua esposa (o "Efeito Dalila") e cedeu à autonomia de olhos abertos, o Último Adão (Jesus) estava em total solidão espiritual. Seus amigos dormiam. Ninguém o induzia a ir para a cruz; pelo contrário, toda a Sua biologia e o próprio diabo o incitavam a fugir dela.
- O Paradoxo do Salvador: a mente de Jesus processava o fato de que Aquele que preenche o infinito e em quem "vivemos, nos movemos e existimos" (Atos 17:28) estava ali, confinado à fragilidade de um crânio humano, experimentando a vertigem do abandono.
Nota: Jesus não temia
apenas a dor física; Ele temia o peso espiritual de se tornar o pecado pela
humanidade e experimentar a ruptura da comunhão com a Essência Divina invisível
(o Pai), tanto é que o escritor bíblico diz que Ele “foi ouvido quanto ao
que temia”. Se fosse a dor física, isso não ocorreu, pois Ele passou
pela tortura que o pecado da humanidade merecia.
3. A Prece da Submissão contra o Sonho da
Autonomia
É nesse cenário de "clamores e
lágrimas" que a vitória de Jesus se agiganta sobre o fracasso de
Adão e sobre a soberba dos anjos “acorrentados” no Tártaro (presos em trevas
morais).
- O Mal x O Bem: Satanás e suas hostes olharam para o Trono de Deus, julgaram-no limitado e buscaram a autonomia a qualquer custo. Adão recebeu o teste na abundância e preferiu quebrar o mandamento para manter seu vínculo com a criatura. Jesus, no entanto, enfrentou o teste no limite do pavor mortal.
- O Significado Real do Amor Verdadeiro: Sua prece foi legítima: "Pai, se é possível, passe de mim este cálice". Ele pediu para ser salvo da morte. Mas o desfecho de Sua oração destrói a lógica do Império das Trevas: "Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua." (Lucas 22:42).
Nota: como Jesus foi consolado para conseguir caminhar voluntariamente em direção aos soldados, ao chicote e ao Calvário? A Epístola aos Hebreus desvenda esse mistério em outro capítulo, confirmando exatamente a sua tese: "...olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus." (Hebreus 12:2). Que alegria era essa que estava "proposta" diante Dele no momento do suor de sangue? Era a visão de você, de mim e de toda a humanidade remida.
No momento mais escuro da Kenosis, quando a carne de Jesus fraquejava sob o pavor biológico da morte, o Pai descortinou diante da mente humana de Jesus o "fruto do Seu penoso trabalho". Jesus viu o filme da história humana rodar ao contrário: Ele viu as vidas transformadas, os cativos libertos do Império das Trevas, os homens lavados pelo Seu sangue e a comunhão com a criação restaurada para sempre (Isaías 53:11).
4. O Contraste da Motivação: Adão vs. Jesus
Essa dinâmica do consolo pela visão dos remidos fecha com chave de ouro a comparação com o Primeiro Adão:
- O Erro de Adão: olhou para a criatura (Eva) e decidiu pecar com ela por um apego afetivo que gerou morte e destruição.
- A Vitória de Jesus: olhou para as criaturas (a humanidade caída) e, movido por um amor e um afeto redentor infinitamente superior, decidiu morrer por elas para lhes dar a vida.
Nota: Jesus olhou para o fruto da Sua
dor e considerou que valia a pena. O sofrimento da alma de Jesus foi extremo,
mas o resultado final gerou Nele uma satisfação e uma alegria eternas (Isaías 53:11).
Conclusão: O Homem Perfeito Vence o Medo
Ao submeter Sua vontade humana e legítima de
viver à soberania invisível do Pai, Jesus desbancou a legalidade do diabo. Ele
provou que um ser humano real, operando sob as mais violentas pressões
psicológicas, físicas e espirituais, pode escolher a obediência por amor puro à
verdade.
Hebreus 5:7 conclui dizendo que Ele "foi
ouvido por causa da sua piedosa submissão". Deus não o livrou de passar
pela morte física, mas o salvou da morte através da Ressurreição,
quebrando para sempre as algemas do inferno e da morte, e garantindo a redenção da raça
humana.
O medo de Jesus no Getsemani não diminui Sua
glória; é a moldura humana que comprova que o Seu sacrifício foi real,
voluntário e infinitamente justo.
A
grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta,
em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo;
o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao
poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus
cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável
Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se
revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não
pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez
maldição por nós.
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Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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