"O testemunho de dois homens é verdadeiro" (João 8:17)
Marcelo Victor R. Nascimento
A passagem
de João 8:12-20 é frequentemente mal interpretada como uma prova de
pluralidade de pessoas na divindade. Entretanto, sob uma análise rigorosa e
fundamentada na natureza de Deus, ela se revela como uma das maiores defesas da
manifestação progressiva do Deus único em carne.
Abaixo,
apresento os argumentos que consolidam o Unicismo como a verdade bíblica
central, baseando-me na lógica do texto bíblico:
1. A
Insuficiência da Interpretação Literal Trinitária
Se aceitarmos a tese de que Jesus e o Pai são "duas pessoas" distintas com base no v.18, caímos em uma contradição jurídica e lógica intransponível.
A Lei citada por Jesus (Deuteronômio 19:15) exigia o depoimento de homens presentes e visíveis, conforme as palavras do próprio Jesus em João 5:31, dizendo que, se Ele testificasse de si mesmo, o Seu testemunho não podia ser considerado verdadeiro, pois contrariaria a Lei Mosaica.
- O Argumento: como o Pai não é um homem e não estava ali fisicamente para ser interrogado pelos fariseus, a interpretação literal de "duas pessoas" invalidaria o argumento de Jesus perante a Lei.
- A Conclusão: Jesus não estava apresentando um "segundo indivíduo divino", mas sim apelando para diferentes esferas de validação da Sua causa que transcendem a presença física (falou a verdade de forma figurada).
2. A
Linguagem Figurada e as Multidimensões de um Único Deus
O Unicismo compreende que Deus se manifesta de diversas formas sem perder Sua essência singular. O uso do argumento das "duas testemunhas" por Jesus deve ser entendido como linguagem figurada, referindo-se a evidências distintas da mesma fonte divina:
- O Testemunho das Obras: Jesus afirma em João 5:36 que as obras que Ele realizava eram Suas testemunhas, as quais vinham da parte do Pai. Ou seja, o "Pai" (o Espírito/Divindade) testemunhava através da humanidade do Filho.
- A voz celeste: Yahweh manifestou de forma audível a respeito de Jesus, dizendo: “Este é o meu Filho amado” (Mateus 3:17).
- O Testemunho Profético: a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) são as "vozes humanas" que validam Cristo. Quando Jesus cita o Pai como testemunha, Ele evoca toda a revelação anterior que os fariseus afirmavam crer, mas não reconheciam diante de seus olhos.
3. A
Identidade Indivisível: Quem vê o Filho, vê o Pai
O ponto crucial do texto reside na cegueira espiritual dos fariseus. Ao dizer "Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai" (João 8:19), Jesus dissolve qualquer distinção de pessoas.
- Se fossem seres distintos, conhecer um não garantiria o conhecimento pleno do outro.
- Ao vincular o conhecimento de Si mesmo ao conhecimento do Pai, Jesus reafirma que Ele é a manifestação visível do Pai invisível. O Pai é a Divindade (o Espírito Eterno); o Filho é a manifestação (a forma humana). São dois testemunhos (divino e humano) em um único Ser.
4. O Escândalo da Kenosis Radical
A doutrina bíblica da kenosis, explicitada em Filipenses 2:7, descreve
o ato de Deus "esvaziar-se" de Suas prerrogativas divinas para
assumir a forma de servo.
Nota: as prerrogativas divinas são os atributos incomunicáveis de Deus: onipresença,
onisciência, onipotência, imutabilidade, imortalidade, eternidade, auto
existência, indivisibilidade, infinitude, eternidade, soberania suprema, etc. Esses
atributos eram um impeditivo para que o Cordeiro sem mancha fosse EM TUDO semelhante
aos demais(Hebreus 2:17), i.e., para que o sacrifício fosse aceito. Sendo imortal, Ele jamais poderia morrer.
- O Obstáculo dos Fariseus: eles
possuíam uma visão de Yahweh puramente absoluta e isolada na Sua
transcendência. Para eles, era uma blasfêmia sugerir que o grande Deus pudesse
habitar em um corpo humano limitado, sujeito à fome, ao cansaço e à morte, mesmo conhecendo Isaías 9:6 e Salmo 45:6.
- A Miopia Espiritual: ao rejeitarem a ideia de que
Deus poderia se manifestar em carne, eles buscavam uma "segunda testemunha" externa e humana, ignorando que a presença de
Jesus era Yahweh em uma nova condição (o Deus vazio).
Nota: a falta de compreensão da kenosis é o que empurra muitas pessoas para a visão trinitária ou para o erro dos fariseus: (1) O Erro Fariseu: "Sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo" (João 10:33) [Rejeição da manifestação humana do Deus invisível]; (2) O Erro Trinitário: "Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica o Pai [“sugere outra pessoa”]” (João 8:18) [Negação da unidade absoluta e indivisível de Deus]. A constatação do “erro dos fariseus” pode ser vista na passagem em que Jesus lhes pergunta a razão de Davi chamar o Messias de Senhor, não obtendo resposta (Salmos 110:1; Mateus 22:42-46).
5. Sítese:
|
Conclusão
A passagem
em pauta mostra que Jesus estava combatendo a ignorância dos fariseus sobre a origem
de Sua autoridade. Ele não era um segundo Deus, nem uma segunda pessoa, mas
o Deus Único manifestado em carne, cujas obras (o Pai em operação) e cujas
palavras (o Messias prometido) serviam como o duplo testemunho exigido pela
Lei.
Emboram tivessem os Escritos Sagrados em mãos, os fariseus, por inveja, escolheram fechar os olhos para as seguintes verdades bíblicas: ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27] e ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9], tamanha é a Sua grandeza [Atos 16:28], o atributo da onipresença [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso, d'onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3; Salmos 82:1].
Foi através desse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7].
A kenosis (o esvaziamento) não dividiu Deus em dois seres distintos. Ao contrário, permitiu-Lhe demonstrar a profundidade do Seu amor, quando despojou-se da Sua glória (aniquilou-se a Si mesmo) e se fez carne no ventre de uma mulher, a fim de resgatar a humanidade da perdição eterna. Negar isso é permanecer no mesmo erro jurídico e espiritual dos fariseus.
Portanto, o
Unicismo é a única conclusão que preserva a soberania de Deus sem cair em um politeísmo disfarçado.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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