O Unicismo e a Eternidade Passada

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento


As Escrituras Sagradas dizem: “Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90:2).

Dizer que a Bíblia não dá pistas sobre a eternidade passada é um equívoco. Na verdade, as Escrituras deixam rastros teológicos profundos sobre o que se passava na mente e no ser do único Deus antes que o primeiro átomo do universo existisse.

A eternidade passada não era um período de solidão ou inatividade, mas sim o momento da concepção e do estabelecimento do mundo atual, a partir do conhecimento que Deus possui de tudo o que é (o conhecimento natural de Deus), do que será (o conhecimento livre de Deus sobre o futuro) e do que seria (o que as pessoas fariam em todos mundos possíveis).

Abaixo estão as principais "pistas" bíblicas que revelam o que ocorria na eternidade com o único Deus:


1. A Geração do Plano da Encarnação (O Logos)

A pista mais famosa está no prólogo do Evangelho de João que diz: "No princípio era o Verbo [Logos], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus" (João 1:1-2)

Para o Unicismo, o Logos não é uma segunda pessoa coeterna, mas a mente, a razão, o pensamento e o plano de Deus expressos.

  • O que se passava na eternidade passada: Deus estava idealizando a Sua própria manifestação futura na carne. Jesus Cristo já existia na eternidade, não como uma pessoa separada, mas como o projeto perfeito no coração do Pai.
  • A eternidade era o ambiente onde Deus estruturava o Seu propósito de Redenção.

2. A Presciência e a Escolha dos Salvos

Outra pista contundente nos mostra que Deus já se relacionava com a humanidade em Sua mente onisciente antes do tempo existir: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Efésios 1:4)

  • O que se passava: o único "Eu" divino já conhecia cada ser humano pelo nome (personalidade e caráter). Na eternidade passada, o amor de Deus já estava em pleno exercício porque, para a mente infinita de Deus, a humanidade já existia em Seu decreto criador. Ele nos amou, planejou nossa existência e decretou a salvação pela fé antes mesmo de criar a matéria.

3. O Sacrifício do Cordeiro já Estava Consumado

O livro de Apocalipse traz uma afirmação impressionante sobre a realidade do relógio eterno de Deus: "...o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo" (Apocalipse 13:8)

  • O que se passava: na dimensão eterna, o plano da cruz não foi um "Plano B" ou uma reação ao pecado de Adão. Na eternidade passada, Deus já havia assumido a responsabilidade da criação e da redenção. O sacrifício de Jesus na carne já estava determinado, selado e considerado "feito" na soberania de Deus antes mesmo do Éden ser plantado.

4. A Glória Solitária e a Auto Existência

Em João 17:5, Jesus ora dizendo: "E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse".

  • O que se passava: sob a lente unicista, essa passagem descreve a glória do próprio Deus invisível (o Pai) que estava reservada para se manifestar plenamente na humanidade (o Filho), i.e., "cheio de graça e verdade" (João 1:14). Antes da criação, Deus habitava em Sua própria e exclusiva glória incomensurável (a perfeição de todos os Seus atributos). Não havia anjos para louvá-Lo, nem homens para temê-Lo; a atmosfera da eternidade era a plena e total satisfação, santidade e gozo de Deus em Seu próprio Ser.

Nota: aquilo que Gênesis chama de "o princípio" é apenas o princípio daquilo que Deus escolheu nos contar, de sorte que tudo o que aconteceu antes faz parte das "coisas encobertas" que pertencem exclusivamente a Ele. A base bíblica para tal premissa encontra-se nas seguintes linhas: "As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre..." (Deuteronômio 29:29). Sabendo que a mente de Deus possui uma capacidade infinita de criação e realização, pensar na eternidade passada como um período de "ócio" absoluto até a criação do homem limita a própria natureza dinâmica de Deus. Ele pode muito bem ter estabelecido, governado e encerrado eras inteiras de realidades espirituais ou cósmicas que simplesmente não têm relevância para o plano de salvação do homem — e, por isso, foram mantidas em segredo. A Bíblia foca estritamente na história da redenção humana; se Deus decidiu manter em oculto reinos passados, dimensões espirituais anteriores ou decretos que operaram antes do tempo existir, isso só engrandece a Sua majestade. 


Resumo

A Bíblia mostra que a eternidade passada com o Deus Único era um período de plenitude mental e volitiva. Deus estava concebendo Seu próprio plano criativo e redentor.

Ele governava Seu decreto de criação e de redenção em Jesus (o Filho), amava Seus futuros filhos através da presciência e tinha, na Sua Palavra (Logos), a origem de tudo o que vemos. Longe de ser um vácuo, a eternidade era o projeto arquitetônico mais perfeito do Universo, desenhado por uma única mente divina.

A revelação bíblica é suficiente para a nossa salvação, mas não esgota quem Deus é ou tudo o que Ele já fez. Aceitar que Deus pode ter governado reinos invisíveis e anteriores ao nosso universo é um ato de humildade exegética: significa reconhecemos que o único Deus soberano é infinitamente maior do que as páginas da história humana conseguem registrar. Aquilo que Gênesis chama de "o princípio" é apenas o princípio daquilo que Ele escolheu nos contar.

 



"As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre..." (Deuteronômio 29:29).



Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.







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