A Fórmula Batismal [Parte 3]: Considerações finais
Marcelo Victor R. Nascimento
Para quem estuda as Escrituras Sagradas de
forma sincera, os documentos históricos e a tradição eclesiástica têm seu valor
descritivo. No entanto, o princípio fundamental da fé cristã nos lembra que a
Bíblia deve falar por si própria. Ela é a verdade suprema, infalível,
inerrante e a suficiente Palavra de Deus.
Quando nos despimos de ideias
preconcebidas e realizamos uma leitura cuidadosa de Mateus 28:19,
comparando o contexto próximo e o remoto de toda a Bíblia, percebemos que a
tradicional fórmula batismal trinitária (“Em nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo”) carece de nexo com o restante do Novo Testamento.
Diante disso, a teologia unicista aponta
para uma harmonia perfeita: o batismo bíblico é realizado, invariavelmente, em
Nome de Jesus.
1. O Nome que está Acima
de Todo Nome
Uma análise estritamente textual da
fórmula trinitariana revela um paradoxo gramatical e teológico: "Pai",
"Filho" e "Espírito Santo" não são nomes, são títulos.
A ordem de Jesus em Mateus é para batizar no Nome (singular), e não nos nomes
(plural) de três pessoas distintas, o que seria gramaticalmente mais apropriado para personalidades distintas.
A coerência das Escrituras aponta para uma identidade centralizada:
- Soberania Absoluta: Efésios 1:21 e Filipenses 2:10 afirmam categoricamente que o NOME DE JESUS está acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, tanto no presente século quanto no vindouro.
- A Remissão de Pecados: Em Atos 2:38, o apóstolo Pedro declara que o propósito do batismo é a "remissão de pecados". Mais tarde, em 1 João 2:12, o apóstolo João confirma que a remissão dos pecados ocorre pelo NOME DE JESUS CRISTO. O batismo em Nome de Jesus é o elo que harmoniza perfeitamente esses dois textos.
- Identidade de Propriedade: Apocalipse 5:9 testifica que Jesus comprou almas para Deus com o Seu próprio sangue, tornando-Se o proprietário delas. Sendo a Igreja a sua propriedade (o "corpo de Cristo", cf. 1 Coríntios 12:27), é perfeitamente lógico que o registro dessa propriedade seja feito em SEU NOME.
2. O Testemunho Prático
da Igreja Primitiva
O argumento mais contundente contra a
repetição literal de uma fórmula trinitária está na própria prática dos
apóstolos no livro de Atos.
O apóstolo Mateus estava presente no monte
quando ouviu as instruções de Jesus em Mateus 28:19. Poucos dias depois, no dia
de Pentecostes, ele também estava presente quando Pedro ordenou publicamente
que todos fossem batizados EM NOME DE JESUS CRISTO (Atos 2:38).
Se houvesse um conflito real de termos ou
se Pedro estivesse descumprindo uma ordem literal, Mateus certamente o teria
corrigido. No entanto, o livro de Atos demonstra que todos os batismos da
igreja primitiva foram feitos em Nome de Jesus.
3. Duas Hipóteses
Plausíveis: Adulteração ou Simbolismo?
Diante do evidente contraste entre a narrativa isolada de Mateus 28:19 e a prática unânime da Igreja Apostólica, a erudição bíblica e a teologia consideram duas grandes possibilidades:
Hipótese 1: Adulteração
Textual nas Cópias
Embora os autógrafos (os manuscritos
originais) não existam mais para verificação, sabe-se que as cópias manuscritas
eram passíveis de alterações por copistas posteriores. Um exemplo claro disso
foi reconhecido publicamente pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) no famoso
caso do Comma Johanneum em 1 João 5:7-8:
|
Versão
Adulterada (Antiga) |
Versão
Corrigida (Atual) |
|
"Porque três são
os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três
são um. E três são os que testificam na terra..." |
"Há três que dão
testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes." |
A própria Bíblia de Jerusalém, uma das mais respeitadas em termos de crítica textual, traz uma nota de rodapé em Mateus 28:19 sugerindo essa influência posterior: "É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula (Pai, Filho e Espírito Santo) reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar no nome de Jesus..."
Além disso, ao fazermos um paralelo com os
finais dos Evangelhos de Marcos (16:17) e Lucas (24:46-47), ambos registram a
ordem da grande comissão apontando diretamente para o uso do Nome de Jesus
("em meu nome expulsarão demônios", "em seu nome se pregasse o
arrependimento"). Mateus 28:19 é o único que destoa desse padrão.
Hipótese 2: O Simbolismo
das Três Manifestações
Por outro lado, pode não ter ocorrido uma adulteração textual em
Mateus 28:19, mas sim uma incompreensão generalizada do termo
"NOME" dito por Jesus.
Sob essa ótica, Jesus não teria ordenado a repetição mecânica dos títulos "Pai, Filho e Espírito Santo", mas teria revelado que o NOME que carrega a autoridade dessas três manifestações do EU SOU é o Nome de JESUS.
- O Nome do Pai é Jesus: Em João 17:6, Jesus afirma que manifestou o Nome do Pai aos homens e, em João 8:58, declarou ser o próprio EU SOU. O profeta Ezequiel (39:7) profetizou que Deus faria Seu santo Nome conhecido, o que se cumpre em Jesus (cujo nome significa Yahweh é Salvação). Paulo também atesta em Filipenses 2:11 que Jesus é o cumprimento de Isaías 45:23 — Ele é o próprio Yahweh do Velho Testamento.
- O Nome do Filho é Jesus: A expressão "Filho" refere-se à manifestação histórica e salvífica de Deus na carne.
- O Nome do Espírito Santo é Jesus: Em João 14:26, Jesus diz que o Pai enviaria o Consolador (o Espírito Santo) em SEU NOME. Em João 14:17, Ele conforta os discípulos dizendo que o Espírito da Verdade já habitava com eles (na carne, como Jesus) e estaria neles (em espírito). Trata-se da mesma pessoa em duas manifestações distintas.
Os discípulos entenderam perfeitamente esse simbolismo. Sabiam que Jesus era a totalidade da divindade manifestada (as três manifestações distintas do mesmo e único Deus). Por isso, ao longo de todo o seu ministério, batizaram estritamente no Nome do Senhor Jesus Cristo.
4. Evidências Adicionais
no Novo Testamento
A tese do batismo em Nome de Jesus
encontra eco em várias outras analogias bíblicas:
1. A Tipologia de
Moisés:
Em 1 Coríntios 10:2, a Bíblia afirma que os judeus foram "batizados em
Moisés" (o libertador típico). Sendo Moisés a figura e Jesus a realidade,
Paulo corrobora em Romanos 6:3 que os cristãos foram batizados em Jesus
Cristo.
2. O Batismo na
Morte:
Ainda em Romanos 6:3, está escrito que fomos batizados na Sua morte.
Sendo assim, o batismo deve invocar o Nome daquele que de fato morreu por nós
na cruz: Jesus.
3. A Prática Prévia
dos Discípulos: Em João 3:22 e 4:1-2, vemos que os discípulos já batizavam
nas águas durante o ministério terreno de Jesus. A razão pela qual Jesus não
batizava pessoalmente parece ser óbvia: as pessoas eram batizadas em Seu nome, e seria
incoerente Jesus dizer "eu te batizo em meu próprio nome".
4. A Lavagem dos
Pecados:
Em 1 Coríntios 6:11, Paulo escreve que fomos lavados, santificados e
justificados EM NOME DO SENHOR JESUS e pelo Espírito Santo, uma clara
alusão à fórmula aplicada no ato do batismo.
Conclusão
A robustez dos argumentos teológicos e
textuais nos permite concluir que as hipóteses de adulteração textual ou
do simbolismo da expressão em Mateus 28:19 são historicamente e
biblicamente muito mais plausíveis do que a existência de uma "fórmula
trinitária" no autógrafo [original].
Quando a igreja primitiva batizava Em Nome
de Jesus, ela não estava desobedecendo ao Mestre; estava, sim, aplicando a
revelação plena de que Jesus é o Nome acima de todo nome, no qual reside
toda a autoridade nos céus e na terra (Mateus 28:18).
Portanto, ao receberem os dons do Espírito Santo no Dia de Pentecostes, os
discípulos ganharam uma profunda iluminação espiritual que abriu seus olhos
para a identidade plena de Jesus Cristo (Atos 2:1-13). Eles compreenderam a revelação por trás dos
títulos, i.e., conheceram a seguinte verdade: o Filho se chama Jesus, veio no nome do Pai e o Espírito Santo seria enviado em Seu nome. Portanto, ao
pronunciarem "Em nome do Senhor Jesus Cristo" no
momento do batismo, os apóstolos não estavam desobedecendo a ordem inicial, mas
sim cumprindo a ordem bíblica em seu sentido mais profundo.
Referências Bibliográficas:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Um só batismo, em nome de Jesus Cristo. Joinville: Clube de Autores.


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