A Soberania além dos Atributos: O Deus que Governa o Seu Próprio Poder
Marcelo Victor R. Nascimento
Uma das
maiores armadilhas da teologia humana é tentar trancar Deus dentro de caixas
conceituais. Costumamos listar os atributos divinos — onipresença, onisciência,
onipotência, imutabilidade, imortalidade, eternidade, auto existência,
indivisibilidade, infinitude, eternidade, soberania suprema, etc. — como se
fossem leis rígidas que governam as ações do Criador.
No entanto, as Escrituras Sagradas nos
revelam uma verdade muito mais profunda e libertadora: Deus é maior do que
os Seus próprios atributos de poder. Ele não é escravo ou refém daquilo que
pode fazer; Ele reina soberanamente sobre o Seu próprio poder, limitando-se
apenas por uma coisa: o Seu caráter moral.
1. O Único Limite de
Deus: Os Atributos Morais
Dizer que Deus é todo-poderoso não
significa que Ele faz qualquer coisa de forma caótica. A Bíblia deixa claro que
o Senhor está perfeitamente sujeito e limitado aos Seus atributos morais,
dos quais Ele jamais abre mão por causa da Sua natureza santa e imutável.
A Palavra de Deus estabelece com precisão cirúrgica o que o Senhor não pode fazer:
- Deus não pode mentir (Tito 1:2);
- Deus não pode praticar a impiedade nem perverter o juízo (Jó 34:12);
- Deus não pode habitar com o mal, olhar para ele ou contemplar a opressão (Salmos 5:4; Habacuque 1:13);
- Deus não pode ser tentado pelo mal (Tiago 1:13);
- Em Deus, não há trevas nenhumas (1 João 1:5).
Esses "limites" não diminuem a
Deus; pelo contrário, garantem que Ele é perfeitamente confiável. O Seu caráter
moral é a rocha inabalável do Universo.
2. Soberano Sobre o
Poder: A Liberdade de Abrir Mão
Se nos atributos morais Deus mantém Sua
imutabilidade estrita, no que diz respeito aos Seus atributos de poder,
Ele demonstra uma liberdade absoluta. Deus não está cativo à Sua própria força.
Se assim o desejar, Ele tem a capacidade de abrir mão do exercício pleno desses
atributos por amor e para se relacionar com Suas criaturas.
Vejamos exemplos práticos e claros nas
Letras Sagradas:
- O "Esquecimento" Voluntário: embora seja omnisciente (sabe todas as coisas), Deus tem o poder de escolher não lembrar se assim decidir. Quem, em sã consciência, poderia dizer que Deus é incapaz de esquecer algo se Ele desejar? Ele afirma categoricamente: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43:25) e “Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais” (Hebreus 8:12).
- A Sabedoria como Aluna: no livro de Provérbios, a sabedoria divina (um atributo divino) é personificada de forma figurada como alguém que aprendia com o Criador: “Então eu estava com ele, e era seu aluno; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo” (Provérbios 8:30). Isso nos mostra que Yahweh transcende e gerencia a própria sabedoria; Ele é a fonte, não o prisioneiro dela, e está além de tudo que se pode conhecer.
- A Autolimitação da Soberania no Éden: ao dar a Adão o livre-arbítrio e a escolha real entre comer ou não do fruto proibido (Gênesis 2:17), o Senhor, por um ato de Sua própria vontade soberana, obrigou-se a abrir mão do controle absoluto sobre as ações humanas. Ele permitiu que o homem decidisse, limitando voluntariamente a Sua própria interferência imediata.
- O Pai da Eternidade: até mesmo o conceito de tempo é governado por Ele. Embora a Bíblia o classifique como eterno, o profeta Isaías vai além e o chama de “Pai da eternidade” (Isaías 9:6). Deus não habita na eternidade como se fosse uma dimensão que O molda; Ele é o gerador e o dono da própria eternidade.
3. Da Transcendência à
Acomodação no Trono
Essa liberdade de gerenciar o Seu próprio poder é o que fundamenta o mistério da Sua condescendência: ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 16:28], Ele não cabe no espaço físico. Por pura graça e usando o atributo da onipresença, Ele abriu mão da manifestação de Sua imensidão sobrenatural para acomodar-se e manifestar-se assentado em um trono visível à assembleia celestial (1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3).
Foi por esse mesmo atributo que Ele foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se
de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem
perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia
prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo,
procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu
rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei
as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam
espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12).
Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Dessa forma, Yahweh lançou por terra o “Mito
da Imutabilidade”, um conceito grego que desvirtuou a verdade
bíblica da Kenosis Radical (o esvaziamento dos atributos de poder), revelado em
Filipenses 2:7, ignorando que Yahweh é limitado apenas pelos Seus atributos morais.
Conclusão: Um Deus
Próximo e Soberano
Deus não está limitado por Suas próprias
ferramentas. Ele usa Seus atributos de poder com total liberdade teológica e
operacional, guiado sempre pelo Seu amor perfeito e pelo Seu caráter moral
irretocável.
Ele limita o Seu próprio poder para que
nós possamos existir, escolher, ser perdoados e, finalmente, ser abraçados por
Ele. Um Deus tão grande que é capaz de se fazer pequeno para nos alcançar.
Glória, pois, a Ele
eternamente!!! Amém!!!
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.


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