O que define uma instituição como Cristã, a Trindade?
Marcelo Victor R. Nascimento
Doutrinas e dogmas religiosos costumam ser defendidos por teólogos e instituições com unhas e dentes, muitas vezes como fronteiras intransponíveis que determinam quem está "dentro" ou "fora" do cristianismo. O dogma da Trindade, por exemplo, é frequentemente utilizado como o critério definitivo de validação: se uma organização não o professa exatamente nos moldes tradicionais, é sumariamente desclassificada como cristã.
Contudo, essa postura negligencia uma realidade teológica fundamental, brilhantemente sintetizada pelo professor doutor e teólogo Ênio R. Mueller com as seguintes palavras: "Toda teologia é uma tentativa de aproximar o homem da verdade e, por mais profunda que seja, não passa de uma tentativa".
Essa visão ecoa diretamente o que o apóstolo Paulo escreveu à igreja de Corinto: "Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos." (1 Coríntios 13:9). Assim sendo, se o nosso conhecimento nesta Terra é parcial, elevar conceitos formulados por religiosos — como o próprio dogma da Trindade, que carece de uma referência explícita e clara nas Escrituras Sagradas — ao status de termômetro da salvação é um equívoco infantil e grosseiro.
Pergunta:
Qual seria o critério quando desejamos avaliar se uma instituição religiosa é verdadeiramente cristã?
Resposta:
Não devemos olhar para os dogmas complexos criados por homens, mas sim para o que o Espírito Santo chama na Bíblia de "os rudimentos da doutrina de Cristo" (Hebreus 6:1-2) — ou seja, os fundamentos básicos da fé.
Com base no texto sagrado supracitado (Hebreus 6:1-2), a identidade do verdadeiro cristianismo está alicerçada em seis pilares práticos e espirituais.
1. ARREPENDIMENTO DE OBRAS MORTAS
O primeiro rudimento é um convite definitivo para deixar para trás tudo o que não agrada a Deus, abraçando uma nova vida em Cristo. Isso envolve abandonar tanto as obras abertamente pecaminosas quanto as obras religiosas — aquelas que as pessoas praticavam julgando estarem vivas e agradando a Deus, mas que, na realidade, eram mortas e sem valor.
Originalmente, a Epístola aos Hebreus confrontava diretamente a confiança cega nas "obras da Lei" como meio de salvação. O esforço puramente pessoal para cumprir ritos e ordenanças é incapaz de salvar. Após a conversão, o cristão é chamado ao culto racional, oferecendo diariamente o seu próprio corpo como um sacrifício vivo a Deus, onde quer que esteja.
- O perigo da hipocrisia: tudo o que é feito com a intenção de impressionar a sociedade — como dar esmolas publicamente, orar em pé para ser visto ou ostentar o jejum — constitui uma obra morta.
- O estado de espírito: ser firme e fiel até o fim da vida é uma ordem divina (Mateus 24:13). Isso não significa buscar a salvação pelo próprio mérito, mas manter uma disposição interior de um coração constantemente inclinado a Deus, humilhado e consagrado. Diante dessa postura, o Criador envia o Seu socorro no tempo oportuno.
Pergunta:
Durante a sua caminhada terrena, quando um cristão comete um pecado, ele está praticando uma "obra morta"?
Resposta:
Sim. O pecado é, por natureza, uma obra que não conduz à vida e não agrada a Deus. No entanto, o cristão não está desamparado. Se alguém pecar, a Escritura garante que "temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" (1 João 2:1), para que não permaneçamos na prática dessas obras sem valor.
2. FÉ EM DEUS
A Escritura é categórica: "Sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11:6). Mas quem é esse Deus em quem se crê?
A fé cristã se direciona ao Deus que se revelou a Moisés no Monte Horebe sob o nome: "EU SOU O QUE SOU" — o Eterno, Aquele que era, que é e que há de vir, o Único que não teve princípio e não terá fim. A Bíblia detalha Seus atributos inconfundíveis:
- Sua Natureza: Ele é Espírito, Criador de todas as coisas e imutável.
- Seus Atributos: Ele é Onisciente (conhece todas as coisas), Onipotente (pode todas as coisas), Onipresente (está em todos os lugares ao mesmo tempo), Imutável (não há sombra de variação), imortal (eternamente vivo), auto existência, indivisibilidade, infinitude, etc.
- Seu Caráter: Ele é fiel, santo, misericordioso, piedoso, justo em Seus caminhos e a própria definição do amor.
Sabemos que Ele existe porque Ele se manifestou através da harmonia da criação e, de forma particular, pela Sua Palavra escrita. Contudo, não se trata de uma fé meramente intelectual; há um componente transcendente e vivo, pois o crente de fato O sente pulsar dentro do coração. A fé exige crer que Deus reconhece e retribui aqueles que O buscam, e essa busca se dá basicamente por três vias práticas: a oração, o conhecimento da Palavra e a obediência à Sua vontade.
Aqui cabe uma reflexão teológica:
Como Yahweh resolveu revelar-se pelas Escrituras Sagradas, Sua Palavra maravilhosa, a instituição verdadeiramente cristã deve tê-La como única regra de fé e prática, rejeitando qualquer acréscimo e subtração das verdades bíblicas.
Outrossim, essa fé envolve a crença na divindade de Jesus, que representa o cumprimento da seguinte promessa, relacionada diretamente à pessoa de Yahweh: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12).
3. DOUTRINA DOS BATISMOS
O texto sagrado não fala de apenas um, mas apresenta fundamentalmente três tipos de batismos na experiência da fé:
- O Batismo de João: um ato simbólico de arrependimento e preparação para a manifestação do Messias. João Batista cumpriu a promessa profética de que "Elias viria primeiro", servindo como um sinal divino para o povo reconhecer seus pecados.
- O Batismo nas Águas: é a resposta prática da fé, uma aliança que une o crente a Jesus Cristo. Simboliza a morte para o pecado e a ressurreição para uma nova vida. Deve ser realizado por imersão completa, seguindo o modelo do próprio Cristo, ilustrando a sepultura integral do velho homem e a lavagem dos pecados.
- O Batismo no Espírito Santo: uma experiência distinta do batismo em águas, onde o fiel recebe a capacitação e o poder através dos dons espirituais para cumprir uma missão. Trata-se do mover consolidado no dia de Pentecostes — a "Festa da Colheita" que marcava o término de um ciclo e o início da Nova Aliança. Igrejas que preservam a identidade pentecostal clássica creem na atualidade e na continuidade desses sinais e dons prometidos por Jesus.
Aqui cabe uma reflexão teológica:
Sobre a importância do Nome Jesus, as Escrituras enfatizam o batismo nas águas e a invocação feitos especificamente nesse Nome, pois a liderança apostólica de Pedro e João atesta claramente que é pelo Seu nome que os pecados são perdoados (Atos 2:38; 1 João 2:12).
4. IMPOSIÇÃO DAS MÃOS
Prática recorrente conduzida pelos presbíteros e líderes da igreja primitiva, a imposição de mãos possui três aplicações claras relatadas no Novo Testamento:
- No Batismo nas Águas: como ponto de contato para a recepção do Espírito Santo, acompanhado por evidências espirituais como línguas e profecias (Atos 19:5,6).
- Nas Orações: utilizada para abençoar indivíduos, transmitir dons espirituais e ministrar a cura aos enfermos.
- Na Ordenação: o ato formal de consagrar e separar obreiros para o presbitério e o serviço oficial da igreja.
5. RESSURREIÇÃO DOS MORTOS
A esperança cristã aguarda uma ressurreição geral, tanto de justos quanto de injustos. Esse evento marcante ocorrerá no retorno glorioso de Jesus, que descerá dos céus com alarido, som de trombetas e acompanhado por Seus santos anjos.
- A Ressurreição dos Justos: os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Em seguida, os fiéis que estiverem vivos serão transformados instantaneamente, despindo-se do corpo corruptível para se revestirem de incorruptibilidade, sendo arrebatados para estar com o Senhor (1 Ts 4:16-17).
- A Ressurreição dos Ímpios: aqueles que rejeitaram a justiça divina ressurgirão para enfrentar o destino final de separação, sendo lançados no lago de fogo (Ap 20:12-13).
6. JUÍZO ETERNO
O desfecho de todas as coisas culminará em um julgamento de consequências eternas, onde o mal será erradicado de forma definitiva e completa da existência, inaugurando um estado onde não haverá mais dor, pranto ou clamor (Ap 20:11-15).
Aqui cabe uma reflexão teológica:
A ideia defendida por alguns sistemas teológicos de que haverá seres humanos e criaturas sofrendo tormentos conscientes por toda a eternidade traz consigo um dilema complexo: isso significaria que o mal e a dor nunca teriam fim, e retrataria um Deus cuja ira dura para sempre. No entanto, o texto bíblico afirma explicitamente no Salmo 30:5 que "a sua ira dura só um momento". O Juízo parece ser eterno em seus efeitos, mas a destruição do mal permanente, garantindo que o universo seja perfeitamente purificado.
Ficam, portanto, duas grandes questões para reflexão: (1) Se Deus fará novas todas as coisas e extinguirá o sofrimento (não haverá mais lágrimas), faria sentido o mal e a angústia coexistirem em algum lugar do universo por toda a eternidade, com pessoas odiando e blasfemando do Nome do Senhor? (2) A palavra "eterno" (sofrimento, castigo, fogo) nas Escrituras Sagradas significa sempre "um tempo sem fim"?
CONCLUSÃO
A importância de conhecer os rudimentos da fé cristã resume-se em cinco pontos fundamentais:
- Aproximação real: melhora o relacionamento com Deus, pois passamos a entender o que O agrada (Romanos 12:1-2).
- Base sólida: promove um crescimento espiritual firme, comparado à construção de uma casa na rocha (Mateus 7:24-27).
- Testemunho prático: gera uma vida mais frutífera, capacitando o cristão a agir como "sal da terra e luz do mundo" (Mateus 5:13).
- Proteção espiritual: evita que o fiel seja enganado por falsas doutrinas e distorções da verdade (2 Pedro 2:1-3).
- Destino eterno: conduz à santificação e, consequentemente, à salvação da alma, blindando-a contra a perdição (João 17:17).
Resumindo, definir o cristianismo pela rigidez de dogmas complexos e debatidos ao longo dos séculos é ignorar a simplicidade do Evangelho. As instituições que se apegam estritamente aos rudimentos descritos pelo Espírito Santo — o arrependimento sincero, a fé genuína no Deus Eterno, a vivência dos batismos, a imposição de mãos, a esperança na ressurreição e o respeito ao juízo divino — estão firmadas na rocha.
O resto, como bem pontuou o professor Ênio Mueller, são apenas tentativas humanas de enxergar através de um espelho embaçado, aguardando o dia em que veremos a Verdade face a face.
Professor e Teólogo Ênio R. Mueller - Editora Grafar
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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