Um só Deus (o Pai) e um só Senhor (a Palavra)
Marcelo Victor R. Nascimento
A teologia bíblica em sua pureza original estabelece um alicerce inabalável: existe um só Deus, o Pai (Yahweh), e um só Senhor, o Filho, que é a materialização e a manifestação histórica da Palavra de Deus. No entanto, ao longo dos séculos, formulações humanas obscureceram essa dinâmica textual.
O exemplo mais drástico dessa mudança é o Credo de
Atanásio — o documento que consolidou a ortodoxia trinitária —, que ao tentar
definir a divindade, comete uma omissão estrutural profunda: ele falha em
reconhecer o Filho sob sua real e eterna identidade bíblica: a Palavra de Deus.
1 - O Confronto Textual: O Credo vs.
Apocalipse 19:13
O Credo de Atanásio gasta dezenas de linhas dissecando a
coeternidade de três pessoas distintas, afirmando que o Filho é
"eterno" na condição de Filho. Contudo, em nenhum ponto de sua
extensão o credo cita ou trabalha o conceito do Filho como a Palavra.
Essa ausência negligencia diretamente o que as Escrituras
afirmam com clareza em Apocalipse 19:13, onde o Filho manifestado em
glória é explicitamente identificado: "E estava vestido de uma veste
salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus."
Ao ignorar essa definição, a tradição trinitária helenística
substituiu o conceito bíblico da Palavra pela ideia filosófica de um
"Filho Eterno" — um termo que não encontra amparo nos textos
sagrados.
2 - Palavra Eterna, Filho Gerado: O Plano
de Salvação no Tempo
A distinção entre o que é eterno e o que foi gerado no tempo é a chave para compreender o Unicismo bíblico em detrimento do pensamento trinitário:
- A Palavra é Eterna: A Palavra sempre existiu como o próprio pensamento, expressão e o espírito que emana do ser de Yahweh (Salmo 33:6). Ela é a mente de Deus em ação desde o princípio.
- O Filho foi Gerado na História: Não existe a figura de um "Filho eterno". O Filho passou a existir na terra há quase dois mil anos, quando essa Palavra eterna se fez carne. O Filho é o plano de salvação de Yahweh manifestado na plenitude dos tempos.
O decreto divino é claro: "Tu és meu Filho, eu hoje
te gerei" (Salmo 2:7 / Hebreus 1:5). A palavra "hoje"
denota um ponto específico no tempo, o momento da encarnação, e não uma
eternidade passada.
3 - O Sopro Criador: Palavra e Espírito
são Um
Para compreender a natureza de Deus, é preciso voltar ao princípio. O texto sagrado não deixa margem para a existência de um comitê divino no ato da criação. Em vez disso, mostra que a ação de Deus é direta e integrada: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca." — Salmo 33:6
Neste versículo, "palavra" e "sopro" (que
no original hebraico é Ruach, ou seja, Espírito) são utilizados em um
paralelismo perfeito. O espírito que sai da boca de Yahweh é a Sua própria
palavra falada. Portanto, Palavra e Espírito não são duas pessoas distintas,
mas uma única e mesma emanação do ser de Yahweh.
Se Jesus afirmou em João 4:24 que "Deus é
Espírito", não há espaço lógico ou bíblico para separar o Espírito de
Deus do próprio Deus. O Espírito é a própria essência invisível e onipresente
de Yahweh, e a Palavra é a expressão audível, visível e realizadora dessa mesma
essência.
4 - O Caminho, a Verdade e a Vida: A
Palavra como Condutor
Essa Palavra viva, que criou o cosmos, é o único Senhor. Ela
se manifestou na história humana com um propósito claro: ser o elo que nos
reconecta ao Pai. Ela é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Dizer que a Palavra nos conduz a Deus significa entender o processo de restauração da identidade humana. O objetivo final dessa jornada não é apenas a salvação formal, mas uma transformação profunda que nos capacita a:
- Sermos como Ele é: refletir o caráter santo e amoroso do Criador.
- Estarmos na Sua presença de cabeça erguida: desfrutar de uma comunhão sem culpa, justificados pela obediência à Sua Palavra.
- Agradarmos o Seu coração: viver uma vida que ressoe com a vontade divina.
5 - A Filiação por Meio da Fé
A transição de meras criaturas para a posição de filhos de
Deus não ocorre por ritos vazios ou dogmas filosóficos complexos. Ela
acontece exclusivamente por meio da fé viva.
Essa fé opera em duas frentes indissociáveis, como bem
descreve o texto bíblico: é necessário crer que Yahweh existe e que Ele
é galardoador daqueles que o buscam. O Deus único não é uma força
impessoal ou um mistério incompreensível de três faces; Ele é o Pai zeloso que
recompensa, aproxima e adota aqueles que decidem alinhar seus corações à Sua
Palavra e ao Seu Espírito.
Distanciar-se das divisões trinitárias e abraçar a Unicidade
de Yahweh é, em última análise, retornar à fé dos profetas e apóstolos: um só
Deus, uma só Palavra, um só Espírito agindo para manifestar a glória do
Altíssimo em toda a criação.
6 - Um Só Deus, Um Só Senhor (1 Coríntios 8:6)
Dessa forma, o Unicismo resgata a harmonia das Escrituras sem
a necessidade de criar divisões na divindade. Existe um só Deus, a
essência espiritual e invisível conhecida como o Pai (Yahweh). E existe um
só Senhor, a Palavra eterna de Deus vestida de
humanidade para cumprir o plano de redenção.
Ao omitir a identidade do Filho como a eterna Palavra e forçar a existência de "um Filho gerado desde a eternidade", o Credo de Atanásio acabou por criar uma heresia conceitual que fragmentou o monoteísmo puro. A verdade bíblica permanece simples e direta: o Deus que falou no princípio é o mesmo e único Deus que se manifestou em carne para salvar a humanidade.
Ela (a Sagrada Escritura) é aquela que conduz o homem à presença de Yahweh; que transforma o seu interior, para ser reflexo de quem Ele é; que alinha o coração do homem à Sua verdade; que faz com que o homem O agrade e receba a dignidade de se tornar Seu filho por meio da fé.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima
Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de
Autores.






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