Expressões que parecem apontar para a pré-existência de Jesus

 

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Marcelo Victor R. Nascimento


Há expressões bíblicas que parecem apontar para a pré-existência do Filho de Deus, antes que o mundo fosse criado, tais como:

(1) “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1.4); e

(2) “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13.8).

Será que tais expressões comprovam o Dogma da Trindade e depõem contra o Unicismo? Como entendê-las?


Definição:

Incialmente, é importante lembrar que o Unicismo defende a unidade absoluta de Deus e interpreta a figura do "Filho" como Sua manifestação humana [a encarnação], ocorrida háquase 2 mil anos, e não como uma “pessoa eterna e preexistente”, integrante de um conjunto de “três pessoas distintas” que formam uma entidade chamada “deus”.


1. O Logos como Pensamento e Plano

A preexistência do Filho não é ontológica [uma pessoa distinta vivendo ao lado do Pai], mas como parte de um plano existente na mente de Deus.

  • Fundamentação Teológica: Jesus é o próprio Yahweh manifestado em carne [1 Timóteo 3:16]. Antes da encarnação, o "Filho" existia como o Logos — que no grego clássico e no hebraico remete à ideia de “pensamento”, “razão”, “propósito” e "verbo".
  • Aplicação em Efésios 1:4: nossa eleição "n’Ele" [no Filho] antes da fundação do mundo não exige que o Filho existisse fisicamente ou como pessoa espiritual distinta naquele momento. Significa que o Messias era o eixo central do plano de Deus.

2. Onisciência vs. Preexistência Literal

O uso de Isaías 46:10 é o ponto fulcral da argumentação Unicista, pois confundir o plano de Deus com a execução do plano é um erro exegético.

  • O Atributo da Onisciência: se Deus conhece o fim desde o princípio, Ele pode falar de eventos futuros no tempo pretérito [prolepsis].
  • O Exemplo de Abraão: Romanos 4:17 corrobora com essa visão ao dizer que Deus "chama as coisas que não são como se já fossem". Assim, o Filho "estava lá" da mesma forma que os eleitos "estavam lá", i.e., no conselho presciente de Deus.

3. Reductio ad Absurdum: O Cordeiro em Apocalipse 13:8

A interpretação literal da preexistência do Filho, tomando por base Apocalipse 13:8, beira ao absurdo.

  • A Incongruência da Morte Literal: se o Filho preexistia literalmente como o "Filho" [gerado eternamente], e o texto diz que ele foi "morto desde a fundação do mundo", a interpretação trinitária literalista enfrentaria um problema: Jesus não morreu no Gênesis, mas no Calvário.
  • Conclusão Unicista: se a "morte" do Cordeiro na fundação do mundo é claramente figurativa [referindo-se à certeza do plano de redenção], então a "existência" do Filho naquele mesmo período também deve ser entendida como o decreto divino, e não como uma pessoa distinta coexistindo com o Pai.


4. Diferenciação entre Divindade e Humanidade

A análise profunda dos textos bíblicos revela a distinção necessária entre a Divindade (Pai) e a Humanidade (Filho):

Conceito

Visão Unicista no Texto

Pai [Yahweh]

O Espírito eterno, o arquiteto do plano, aquele que possui onisciência.

Filho

A humanidade de Deus, que tem um início temporal [em Belém], mas que estava "preparada" na mente de Deus.

Preexistência

Ideal/Forense: o Filho existia na presciência de Yahweh.


Síntese Crítica

O argumento apresentado resolve a tensão entre passagens que parecem sugerir uma pluralidade eterna ao transferir o cenário da "preexistência" do campo da existência física/espiritual para o campo do propósito divino.

Em suma, é correto entender que o Filho não estava "com Deus” como outra pessoa, mas "em Deus" como Sua própria vontade expressa para a salvação futura da humanidade, concordando com as seguintes palavras de Jesus: "Saí do Pai, e vim ao mundo" (João 16:28).

Considerar o Filho como alguém que já existia de forma independente antes da encarnação seria, para o Unicismo, uma negação do monoteísmo estrito de Yahweh, ratificado, de forma cristalina, pelas seguintes passagens: Deuteronômio 6:4; Isaías 43:10-11; Isaías 44:6; Isaías 45:5-6; e Isaías 46:9.


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Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade: quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

 


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