O espírito de Jesus era "Divino" ou "Humano"?
Marcelo Victor R. Nascimento
Na tentativa de explicar a divindade de Jesus Cristo,
grande parte da teologia tradicional recorreu a conceitos da filosofia grega,
criando divisões anatômicas e espirituais na pessoa de Cristo que simplesmente
não encontram eco nas Escrituras.
Uma das distorções mais comuns é a afirmação de que
Jesus possuía "espírito divino", e não um “espírito humano”. Essa
teoria, além de não ter nenhuma base bíblica, cria um abismo teológico perigoso,
pois, se Jesus possuísse uma estrutura espiritual intrinsecamente diferente da
nossa, Ele deixaria de ser o nosso representante perfeito, contrariando frontalmente
o que está escrito em Hebreus 2:17, que afirma categoricamente que Ele foi,
em tudo, semelhante aos seus irmãos.
1 - O Espírito é Um Só: O que a Bíblia
Realmente Diz
A ideia de "espírito divino" versus "espírito
humano" existindo como duas "entidades" (matérias-primas, substâncias) diferentes é uma invenção da mente
humana. A Bíblia trata o “espírito” (ruach no Antigo Testamento, pneuma
no Novo) como uma coisa só, diferenciando-se apenas quanto a origem (vindo de Deus) e
a direção (dado às criaturas, com identidades diferenciadas).
Trata-se do “fôlego de vida”, i.e., de uma emanação do ser de Yahweh que deu vida e consciência aos seres, transmitindo-lhes sua identidade (singularidade de cada ser), composta por caráter, personalidade, vontade, instintos e atributos, so quais formam o "homem interior" (2 Coríntios 4:16). Ou seja, a Escritura não fala de categorias metafísicas diferentes de espírito, como se o "espírito humano" fosse feito de uma "substância inferior" e o "espírito divino" de uma "substância superior". A Bíblia diz apenas que Deus é o "Pai dos espíritos" (Hebreus 12:9) e que Suas criaturas receberam-no d'Ele, as quais estavam, inclusive, destinadas a ser eternas (como Yahweh), caso não tivessem pecado.
No caso de Jesus, o espírito que habitava n’Ele era o
mesmo fôlego de vida que Deus soprou em Adão e que foi transmitido à sua
descendência. A diferença de Jesus para os demais homens não estava na anatomia do Seu
espírito, mas na Sua identidade, pois Ele não deixou de ser Deus, embora estivesse vazio dos atributos de poder enquanto habitou entre nós (Filipenses 2:7) e possuísse vontade própria (Lucas 22:42). É importante ressaltar que onde há esvaziamento necessariamente não pode haver plenitude em todos os aspectos, i.e., Jesus escolheu esvaziar-se de si mesmo para que pudesse tornar-se um ser humano perfeito.
Como o “segundo Adão”, Ele foi gerado sem a mácula do pecado originário, nascendo santo, mas mantendo a mesma constituição humana de qualquer um de nós. Aliás, se o espírito de Jesus fosse um "espírito divino" (de uma segunda pessoa trinitária), Ele não seria verdadeiramente homem; seria um Deus disfarçado de homem, um ser híbrido, invalidando o Seu papel como nosso mediador.
Nota: a palavra hebraica Ruach (רוּחַ) significa essencialmente
"sopro", "vento" ou "fôlego". A teologia hebraica
bíblica não faz uma divisão dicotômica (ou uma separação de essência) entre
"espírito divino" e "espírito humano". A mesma palavra é
usada para ambos, mas com papéis diferentes: (1) O “Ruach” relativo a Deus refere-se
à presença, ao poder ativo ou à força vital de Deus (o Ruach HaKodesh);
e (2) O “Ruach” relativo ao homem refere-se à centelha de vida, fôlego
ou disposição interior que Deus concedeu ao ser humano (o espírito que nos
anima e nos dá consciência). Assim sendo, de forma bastante simples, a Bíblia não fala em diferença na "substância" (natureza, qualidade, categoria, matéria-prima) do espírito, mas sim na sua origem e direção. Ela diz, inclusive, que, na nossa conversão, nos foi dada a condição de participarmos da natureza divina (2 Pedro 1:4), de forma que, na aparição de Jesus, seremos transformados para termos um corpo glorioso igual ao de Jesus (Filipemses 3:21). Portanto, se a nossa inclinação e a nossa vontade final serão
idênticas às de Deus, se habitaremos em corpos gloriosos semelhantes ao de
Jesus e se operaremos na mesma dimensão espiritual de amor e santidade, a
separação conceitual de "substâncias espirituais" perde o
sentido prático na eternidade. Outrossim, acerca da unidade do espírito, que é diferente de uniformidade (pois cada qual possui a própria identidade), o Novo Testamento nos diz o seguinte:
2 - Lucas 4:18 e a Unção no Batismo:
Posse ou Revestimento?
Muitos leitores da Bíblia confundem a atuação do Espírito Santo em Jesus com a Sua própria natureza constituinte. Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré e lê o profeta Isaías, Ele declara: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres..." — Lucas 4:18. Ou seja, o fato de o Espírito do Pai estar sobre Jesus não significa que Ele possuía um componente espiritual interno diferente dos demais homens. Significa, sim, que Ele foi ungido por Yahweh.
A Bíblia nos mostra exatamente quando essa unção de poder aconteceu de forma pública: no Seu batismo no rio Jordão. Naquele momento, o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea como uma pomba, e o Pai testificou de Sua filiação, algo que foi confirmado por João Batista ao dizer: “Não lhe dá Deus o Espírito por medida” (João 3:34). Assim sendo, Jesus operava sinais, prodígios e maravilhas não porque Sua anatomia espiritual era sobre-humana, mas porque a plenitude do poder de Deus (o Espírito Santo) operava através da Sua humanidade perfeita e obediente (Atos 10:38).
A perfeita humanidade de Jesus fica ainda mais clara quando, no momento da Sua morte, Ele disse ao Pai que recebesse o Seu espírito (fôlego de vida), cumprindo-se o que esta dito em Eclesiastes em relação a todos os homens: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7).
3 - O Padrão para a Igreja: O que
Aconteceu com Jesus Acontece Conosco
Entender que Jesus recebeu o Espírito Santo por unção
— e não por uma mutação de Sua natureza humana — é o que dá sentido à nossa
própria jornada de fé. O que aconteceu com Jesus no Jordão é o modelo do que
ocorre com cada crente no momento da conversão.
Em Atos 2:38, o apóstolo Pedro nos dá o mapa da
salvação apostólica: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito
Santo."
Quando nos convertemos e o Espírito Santo vem sobre nós, i.e., não recebemos uma "segunda alma" ou mudamos nossa constituição biológica e humana. Ao contrário, nós somos revestidos de poder do alto e passamos a ser habitados pelo mesmo Espírito que habitou em Cristo Jesus (sem que isso altere a natureza humana da pessoa ou crie uma divisão interna no indivíduo).
Se Jesus venceu o pecado e o mundo usando um
"espírito divino" exclusivo d'Ele, Sua vitória não seria um exemplo
alcançável para nós. Mas quando compreendemos que Ele, sendo em absolutamente
tudo igual a nós, venceu o mundo pelo poder do Espírito Santo que O ungiu,
entendemos que nós também podemos vencer ao procurarmos, com todas as nossas forças,
submetermos nossa mente (pensamentos) e coração (desejos) à vontade do Pai.
Conclusão
A Bíblia mostra que existe uma só realidade espiritual, pura, legítima e eterna, i.e., uma só "categoria" de espírito que sustenta toda a existência, expressando-se, de forma poderosa, na rica e infinita diversidade de cada pessoa humana. Enquanto a unidade preserva a conexão com a Fonte, a não uniformidade preserva a nossa liberdade e identidade.
Quanto à Jesus, a Bíblia mostra que Ele não era um ser mitológico com duas mentes ou
dois espíritos, mas um Homem perfeito (o cordeiro sem mácula) que dependeu
inteiramente do Espírito do Pai para cumprir o Seu ministério (Atos 10:38).
Ao rejeitarmos o mito do "espírito divino"
em Jesus, resgatamos a beleza da encarnação: a certeza de que Deus se
manifestou em carne real, viveu como homem real, foi ungido como nós somos e,
por isso, tem capacidade de nos socorrer perfeitamente nos dias de hoje.
Reflexão:
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós; e o Deus imortal se fez mortal e verdadeiramente morreu por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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