"A Igreja de Deus, que Ele Resgatou Com o Próprio Sangue" (Atos 20:28)
Marcelo Victor R. Nascimento
A passagem de Atos 20:28 é um dos textos mais
extraordinários do Novo Testamento e, quando lido sob a ótica da Teologia Unicista
(ou da unidade de Deus), ele se torna uma das maiores e mais explícitas provas
bíblicas da divindade absoluta de Jesus Cristo.
Para compreender de quem é o sangue mencionado pelo apóstolo Paulo, precisamos olhar para a estrutura do texto e para as variantes dos
manuscritos originais.
1. O Texto e a Gramática: O Sangue de
Deus
A tradução direta do grego mais antigo e confiável (como o Códice
Sinaítico e o Vaticano) traz uma declaração que choca a mente
natural: "...para pastoreardes a igreja de Deus (tou Theou), a qual ele
resgatou com o seu próprio sangue (dia tou aimatos tou idiou)."
Se analisarmos o sujeito da frase de forma literal e linear:
1. O sujeito que possui a igreja é Deus.
2. O verbo é "resgatou" ou
"comprou" (periepoiēsato).
3. O meio pelo qual Ele resgatou é "com o Seu
próprio (idiou) sangue".
Gramaticalmente, o antecedente imediato do pronome "Seu
próprio" é Deus. Portanto, em termos estritamente textuais, o texto
afirma categoricamente que Deus derramou o Seu próprio sangue.
2. O Dilema dos Tradutores e a Solução
Unicista
Isso cria um dilema teológico profundo para quem tenta
separar Deus e Jesus em duas pessoas distintas (trinitarianismo) ou quem nega a
divindade de Cristo: Como pode Deus, que é Espírito, ter sangue para
derramar?
Para tentar resolver esse "nó" teológico,
diferentes vertentes tomam caminhos distintos:
(1) A alteração ou suavização do
texto (Traduções Modernas): algumas
traduções (como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje - NTLH) alteram o
texto para: "com o sangue do seu próprio Filho". No entanto, a
palavra grega para "Filho" (Huios) não existe nesse
versículo nos manuscritos gregos originais. É uma adição puramente
interpretativa para tentar poupar o leitor do escândalo de ouvir que "Deus
derramou sangue".
(2) A Comunicação de
Propriedades: para os trinitários, não foi a "natureza divina" (ou o Pai)
que sangrou na cruz, mas sim a Pessoa divina do Filho na Sua natureza
humana. Dizer que "Deus derramou Seu próprio sangue" é uma forma de
enfatizar que Aquele que estava morrendo na cruz era verdadeiramente Deus
encarnado (o Filho), e não um mero homem. Além de alegarem
que existe outra forma de traduzir e interpretar o grego desse versículo: o
termo é “igreja do Senhor” e não “igreja de Deus”.
(3) A perspectiva Unicista (A
Kenosis Radical): para
a Teologia Unicista, o texto não precisa de correções ou malabarismos
hermenêuticos. Ele é perfeito como está, de sorte que o sangue derramado na
cruz pertence ao próprio Yahweh.
Nota: as tentativas
trinitárias de explicar Atos 20:28 revelam uma necessidade constante de
fragmentar a divindade ou suavizar o texto bíblico para que ele caiba em seus
credos históricos. A divisão trinitária entre "natureza" e
"pessoa" na divindade é uma formulação filosófica grega tardia
(estabelecida séculos após os apóstolos em concílios como o de Calcedônia), e
não um conceito bíblico. A Bíblia não conhece um Deus dividido em "duas
naturezas" onde uma sofre e a outra assiste de longe. Ao dizer que "apenas
a natureza humana de Jesus sofreu e sangrou, enquanto a natureza divina não
participou disso", a teologia trinitária esvazia o valor do
sacrifício. Se apenas um "homem" (a natureza humana) morreu na cruz,
então o sacrifício foi puramente humano e finito. Para que o sacrifício tenha
valor infinito de redenção, Aquele que morreu tinha que ter a identidade do
próprio Deus. Outrossim, o texto de Atos 20:28 diz claramente "igreja de Deus,
a qual ele resgatou com o seu próprio sangue", e não "igreja do Senhor". Portanto, como a
palavra grega para Deus (Theos) refere-se esmagadoramente ao Deus Único
(Yahweh), forçar o texto a dar outro significado a essa passagem significa introduzir um anacronismo
teológico para salvar um dogma (o texto é claro em associar o sangue diretamente à
identidade do único Deus).
Conclusão: De quem é o sangue?
As Escrituras Sagradas mostram que Deus é Espírito e,
em Sua transcendência divina, não possui sangue (Lucas 24:39). Contudo, ao operar a Sua Kenosis
(esvaziamento), o único Deus verdadeiro vestiu-se de carne e sangue (Hebreus
2:14), fazendo com que Aquele homem pendurado na cruz não fosse uma
"segunda pessoa" agindo em nome de Deus. Tratou-se do próprio Deus
manifestado em carne, o Emanuel (1 Timóteo 3:16; Mateus 1:23), derramando o
sangue que Ele próprio preparou para si na encarnação.
Ao declarar que Deus comprou a igreja com o Seu próprio
sangue, o escritor bíblico mostra que, na encarnação, caiu a barreira entre o
Deus invisível e a humanidade, não havendo necessidade de retórica e conceitos filosóficos
mirabolantes.
Por fim, o apóstolo Paulo resume todo o conselho de Deus em
uma única e poderosa verdade: o Criador tornou-se o Salvador (“Eu, eu sou o Senhor (Yahweh), e fora
de mim não há salvador." — Isaías 43:11).
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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