A Teologia Kenótica: A Pá de Cal no Dogma da Trindade
Marcelo Victor R. Nascimento
Como pode o Criador do universo, o Deus todo-poderoso
das Escrituras, experimentar a fome, o cansaço e a morte? Essa pergunta sempre
desafiou a mente humana.
No século XIX, um grupo de teólogos na Europa e nos
Estados Unidos encontrou uma resposta profunda e audaciosa: a Teologia Kenótica. Eles defenderam que, ao se fazer carne e habitar entre nós,
Yahweh passou por um esvaziamento radical dos Seus atributos de poder, sem
afetar Sua identidade.
Para esses pensadores, o ponto de partida foi o famoso
hino cristológico escrito pelo apóstolo Paulo na Bíblia (Filipenses 2:5-8).
O texto afirma categoricamente que Jesus Cristo, embora sendo Deus, "esvaziou-se
a si mesmo" ao assumir a forma de servo e se tornar humano. A palavra
grega usada para esse esvaziamento é kênosis, e foi ela que deu nome a
esse movimento que tentou conciliar a fé cristã com o racionalismo da época.
Conheça, abaixo, os principais teólogos do passado que
defenderam essa visão revolucionária sobre a encarnação de Jesus
I – Principais Teólogos Kenóticos
Estes são os principais teólogos que romperam com a
ordoxia tradicional católica, comprometida com as decisões do Concílio de
Calcedônia que estabeleceu como verdade absoluta a heresia chamada “união
hipostática”:
1. Gottfried Thomasius (1802–1875)
Este teólogo luterano alemão é considerado o grande
arquiteto da Cristologia Quenótica moderna. Thomasius propôs uma separação
inteligente: ele argumentou que o Logos (Jesus) abriu mão temporariamente de
seus atributos "relativos ao mundo" — como a onisciência, a
onipresença e a onipotência. No entanto, Ele manteve intactos os seus atributos
morais essenciais, como o amor e a santidade pura.
2. Wolfgang Friedrich Gess
(1819–1891)
Também alemão e de tradição reformada, Gess levou a
teoria a um extremo ainda mais radical. Para ele, o esvaziamento não foi
parcial. Gess defendia que o Filho de Deus abriu mão de sua própria consciência
e existência divina ativa durante todo o período em que viveu e caminhou na
Terra, tornando-se inteiramente dependente do Pai como qualquer outro ser
humano.
3. Charles Gore (1853–1932)
Bispo anglicano e nome influente no movimento liberal
britânico, Gore foi o responsável por popularizar a kênosis na Inglaterra. Ele
causou grande impacto ao publicar a coletânea de ensaios Lux Mundi
(1889). Gore usava o conceito do esvaziamento divino para proteger a fé cristã
das críticas da ciência e da história, provando que Jesus viveu uma experiência
humana real, limitada pelo tempo e pelo espaço.
4. Frank Hugh Foster (1851–1935)
Atravessando o oceano, a teologia kenótica encontrou
eco nos Estados Unidos através de Frank Hugh Foster. Este acadêmico e teólogo
congregacional se tornou um dos principais defensores e difusores dessa leitura
bíblica no território norte-americano, mostrando que o debate sobre a limitação
voluntária de Deus era uma necessidade global.
5. Peter Taylor Forsyth (1848–1921)
O teólogo britânico Peter Forsyth trouxe uma abordagem
profundamente pastoral e sacrificial para o debate. Ele reformulou a teoria
argumentando que a kênosis não era apenas uma questão matemática de
"perder conhecimento", mas sim o esvaziamento completo da glória e do
poder real. Para Forsyth, Yahweh abriu mão de seus privilégios divinos por
amor, escolhendo deliberadamente uma vida de sofrimento e humilhação para
garantir a redenção da humanidade.
II – Os Teólogos Quenóticos no Caminho Certo
Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1
Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda
que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28],
o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12]
permitiu-Lhe, simultaneamente, preencher o universo e acomodar-se, de forma a manifestar-se
às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8;
Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a
assembleia celestial e sobre o Universo de uma forma geral [Salmos 82:1].
Foi por esse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de
manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si
mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito
[Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque
assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas,
e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no
meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei
de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão"
(Ezequiel 34:11,12).
Kenosis: ato de derramar um líquido de um recipiente até que tudo se vá.
III - A Realidade Kenótica das Escrituras Sagradas
A realidade kenótica pode ser vista ao longo das Escrituras Sagradas em muitos aspectos, dentre os quais:
1. Ao nascer como um bebê, o Filho de Deus submeteu-se voluntariamente às leis do desenvolvimento humano. Ele teve que aprender a falar, a ler as Escrituras e a andar. Sua mente humana experimentou o tempo, o aprendizado e as limitações do conhecimento humano da sua época (Lucas 2:52; Marcos 13:32).
2. A vontade humana de Jesus escolheu submeter-se perfeitamente à vontade divina do Pai. Não havia uma fusão onde a divindade anulava a humanidade; havia uma relação de amor, confiança e obediência absoluta do homem Jesus no Pai celestial (Lucas 22:42; João 6:38).
3. Os milagres realizados por Jesus não ocorreram por
um poder mágico inerente que Ele usava para benefício próprio. Ele viveu na total
dependência do Espírito Santo que veio sobre Ele no batismo e da comunhão com
o Pai (Isaías 42:1, Lucas 4:18,21; Atos 10:38). Isso torna o Seu sacrifício
verdadeiramente valioso e o Seu exemplo perfeitamente imitável por nós. A
kênosis foi o método pelo qual o Deus Todo-Poderoso escolheu experimentar o que
significa ser frágil, sofrer e morrer.
4. A passagem de Hebreus 2:17 é devastadora para qualquer teologia que tente "suavizar" a encarnação. Jesus não saberia o que é ter fé se não fosse um humano perfeito, pois a fé exige confiar no que não se vê; Ele não saberia o que é depender do Pai por meio da oração de forma genuína; Ele não experimentaria a verdadeira tentação (Hebreus 4:15), pois um Deus que opera em onipotência ativa é incapaz de ser tentado; Ele não aprenderia realmente a obediência, se o padecimento fosse uma encenação (Hebreus 5:8).
5. A Encarnação foi real e concreta, pois a Biblia mostra que o Verbo eterno não se "fantasiou" de homem; Ele tornou-se carne (João 1:14) e foi chamado de “Filho” (Lucas 1:35; Hebreus 1:5; 1 Pedro 1:20), como parte do plano de redenção, formulado antes que o mundo existisse, segundo o qual: o "Pai" é Yahweh em Sua divindade invisível e transcendente, e o "Filho" é Yahweh na Sua manifestação humana, visível, histórica e limitada no tempo (o Emanuel).
6. Embora Jesus tenha sido um Deus vazio dos atributos de poder durante Sua jornada terrena, habita n’Ele a plenitude da divindade (Colossenses 1:19; Colossenses 2:9) por causa das seguintes razões e não por uma questão anatômica: (1) Ele encerrou a era dos símbolos; tudo aquilo que era sombra do Antigo testamento encontrou n’Ele sua substância final (Ele é o verdadeiro Tabernáculo e o sacrifício perfeito); (2) Toda a ciência e os mistérios de Deus sobre a existência, o amor e o destino humano estão depositados n'Ele, acessíveis não aos sábios deste mundo, mas àqueles que se aproximam d'Ele pela fé; (3) Ele trouxe uma porção transbordante de graça, verdade, vida e poder de reconciliação, preenchendo o abismo que o pecado cavou entre o homem e a santidade de Yahweh, sem necessidade de que se recorra a filosofias e vãs sutilezas; (4) N’Ele foram criadas todas as coisas e todas as coisas subsistem por Ele, sendo o cabeça da igreja e o primogêntidos mortos, para que em tudo tenha a preeminência.
Nota: a filosofia grega moldou a teologia tradicional ao ponto da ortodoxia clássica, ao longo dos séculos, utilizar o conceito metafísico de imutabilidade absoluta de forma rígida, aplicando-o a conceitos como “poder” e “presença”, quando os textos bíblicos o aplicam consistentemente ao caráter, à fidelidade e aos decretos de Deus. Quando o texto de Malaquias 3:6, por exemplo, afirma: "Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, filhos de Jacó, não sois consumidos", o contexto imediato não é uma discussão sobre física quântica ou limitações de poder divino, mas sobre a fidelidade pactual de Yahweh. Ele não muda em Seu amor, em Sua justiça, em Seus planos e em Suas promessas morais; entretando, tem o poder de limitar-se se assim for da Sua soberana vontade, pois não é escravo dos seus atributos, como ocorreu, por exemplo, quando: (1) Deu aos homens liberdade de tomar as suas próprias decisões, respeitando-as; (2) Quando ensinou a Sua própria sabedoria na criação (Provérbios 8:30), motrando que é maior do que os próprios atributos; (3) Quando se declarou "Pai da Eternidade" (Isaías 9:6), estando acima da dimensão tempo, i.e., não sendo eterno por possuir um longo tempo de existência, mas por possuir uma natureza eternamente viva.
Conclusão:
Diante dessas verdades bíblicas, ao conciliarmos o
atributo da onipresença divina com o esvaziamento radical de Yahweh, é possível
um refinamento da leitura kenótica liberal do século XIX.
Nessa perspectiva, o esvaziamento de Jesus em Filipenses 2:7 não precisa ser visto como uma perda acidental de divindade, mas como um ato supremo da soberania de Deus, no qual Ele, por infinito amor, obrigou-se a deixar de lado alguns de Seus privilégios divinos (atributos de poder), a fim de resgatar a humanidade como um homem perfeito, sem, contudo, perder o controle de todas as coisas, tanto do universo conhecido como do desconhecido pelas Suas criaturas.
Em outras palavras, o atributo da onipresença garantiu que o cosmos não ficasse desamparado e que a encarnação não fosse uma ilusão ou um teatro, de forma que o esvaziamento foi real, concreto e histórico na pessoa de Jesus, o Emanuel.
Reflexão Final:
A grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós; e o Deus imortal se fez mortal e verdadeiramente morreu por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.



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