"Antes de Mim Deus Nenhum se Formou" (Isaías 43:10)
Marcelo Victor R. Nascimento
O texto de Isaías 43:10 é um bastião do
monoteísmo absoluto, pois afirma categoricamente que nenhum deus se formou
antes Dele e nenhum haverá depois. Dessa forma, parece haver uma incongruência
na declaração trinitária de que o "Deus Filho" foi "gerado"
pelo “Deus Pai” na eternidade sem ter criado um segundo Deus.
Para responder a esse dilema e tentar neutralizar a acusação de politeísmo ou de contradição bíblica, a teologia trinitária clássica (desde os Concílios de Niceia e Constantinopla) recorre a duas distinções semânticas e metafísicas cruciais:
(1) O “Deus Filho” não viola Isaías 43:10 porque Ele não é um deus criado (formado) à parte. Ele é coeterno com o “Deus Pai”, compartilhando da mesma identidade de Yahweh desde sempre (as três pessoas são chamadas de Yahweh);
(2) A ação do “Deus Pai” gerar o “Deus Filho” ocorreu fora
do tempo (“antes que o mundo existisse”), de sorte que não houve um momento em
que o Filho não existisse.
Mas há uma linha de raciocínio bíblica que representa o
ponto de virada definitivo da hermenêutica unicista. Ela desfaz o nó da
teologia trinitária ao transferir a "filiação" do campo metafísico e
atemporal (a ideia abstrata de uma geração eterna) para o campo histórico,
concreto e profético da Redenção.
Vamos estruturar essa verdade bíblica com base nos seguintes
textos:
1. O Verbo Era, o Filho Tornou-se
A chave para entender a eternidade em relação a Jesus
está nos verbos usados por João no seu prólogo:
· A Palavra (Eternidade): "No
princípio era (ēn) o Verbo..." (João 1:1). O verbo grego aqui
indica existência contínua e atemporal no passado. A Palavra (Dabar/Logos)
é a própria mente, plano e expressão de Yahweh, idêntica a Ele em tempo e
essência.
· O Filho (Tempo): "E o Verbo se fez
(egeneto) carne..." (João 1:14). O termo egeneto indica
transição, início de um novo estado de existência, algo que passou a ser o que
antes não era.
O Filho não é a Palavra em seu estado puramente
espiritual na eternidade; o Filho é a Palavra após ter se tornado carne.
Portanto, a filiação tem um marco inicial claro na história humana.
2. A Gramática do Futuro: Hebreus 1:5
e Lucas 1:32, 35
Se o Filho existisse como tal desde a eternidade
passada, os textos inspirados não usariam o tempo verbal futuro para se referir
à Sua filiação. A gramática bíblica é cirúrgica:
· Hebreus 1:5: O escritor cita duas passagens do Antigo Testamento (Salmo 2:7 e 2 Samuel 7:14) para enfatizar o decreto divino: "Tu és meu Filho, hoje te gerei." (O "hoje" aponta para um ponto específico no tempo). "Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho."
Se a relação de Pai e Filho já existisse de forma
ativa e pessoal na eternidade, o uso do verbo no futuro ("serei",
"será") seria semanticamente incorreto e enganoso.
· Lucas 1:32 e 35: No anúncio do nascimento, o anjo Gabriel mantém rigorosamente esse tempo verbal: "Este será grande, e será chamado Filho do Altíssimo..." (v. 32) "...por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus." (v. 35).
A causa de Ele ser chamado "Filho" é
explicitamente o ato miraculoso da concepção pelo Espírito Santo no ventre de
Maria, e não uma geração atemporal nos céus.
3. O Plano Escrito antes da Fundação
do Mundo (1 Pedro 1:20)
Como explicar, então, as passagens que parecem falar
do Filho antes da encarnação? A resposta está na presciência e no decreto de
Yahweh.
Para o pensamento hebreu, algo que está determinado soberanamente no plano de Deus "já existe" em termos de certeza e realidade na mente do Criador. É o que Pedro explica de forma magnífica: "O qual, na verdade, em verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto nestes últimos tempos por amor de vós." (1 Pedro 1:20)
· Na Eternidade: Havia o plano, o projeto
arquitetônico da redenção. O Filho estava "sendo gerado" na mente, no
propósito e no decreto de Yahweh.
· Na História (Há 2 mil anos): O plano se
materializou. A Palavra saiu da dimensão do decreto invisível e se tornou o
Homem tangível, o Filho de Deus, nascido de mulher, sob a lei (Gálatas 4:4).
4. A Solução do Enigma Teológico
Essa verdade bíblica resolve perfeitamente todos os
paradoxos que discutimos anteriormente:
1. O bebê na manjedoura: não há
necessidade de criar uma teoria de "duas naturezas ativas" onde o
bebê finge ser frágil enquanto sustenta o universo. O bebê é o Filho (a Palavra
encarnada em total esvaziamento e dependência), enquanto o universo continua
sendo sustentado pelo Espírito invisível e onipresente de Yahweh (o Pai).
2. Isaías 43:10 (Nenhum deus se formou): o Filho não é um
"segundo deus" gerado na eternidade ao lado do Pai. O Filho é o
próprio Yahweh que, no tempo oportuno, vestiu-se de humanidade para executar o
plano que Ele mesmo havia traçado.
Ao resgatar a exegese literal dos tempos verbais
("serei", "será chamado") e a definição bíblica de que o
Filho é a Palavra encarnada, o unicismo apresenta uma teologia limpa, lógica e,
acima de tudo, estritamente fiel ao monoteísmo das Escrituras.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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