As Mãos de Deus, O Dedo de Deus, O Espírito de Deus e a Voz de Deus: O Que Eles Têm em Comum?
Marcelo Victor R. Nascimento
Quando lemos as Escrituras com profundidade,
descobrimos que a linguagem bíblica é de uma riqueza poética e teológica
impressionante. Ao descrever as grandes obras de Deus, os autores sagrados
frequentemente recorrem a figuras de linguagem para nos ajudar a compreender a
grandeza do Criador. Uma das imagens mais belas e recorrentes é a de Deus como
um artesão atento, que utiliza Suas próprias “mãos” e “dedos” para esculpir o
universo e realizar Seus prodígios.
Contudo, longe de sugerir divisões no Ser Divino ou a
existência de múltiplas pessoas na divindade, essa rica linguagem bíblica
aponta para uma verdade fundamental e inabalável: a absoluta Unicidade de
Deus.
1. O Artesão Divino: As Mãos e os Dedos
de Deus
As Escrituras afirmam explicitamente que os céus e a terra são a “obra das mãos de Deus” (Salmo 102:25; Salmo 19:1) e que são a “obra dos Seus dedos” (Salmo 8:3). A imagem de um artesão trabalhando com as próprias mãos transmite a ideia de proximidade, poder operacional e cuidado minucioso.
Mas quem são essas “mãos” e esses “dedos” na linguagem bíblica? O próprio texto sagrado se encarrega de nos dar a resposta ao associar essas expressões ao Espírito de Deus. Ao compararmos passagens paralelas nos Evangelhos, percebemos com clareza essa equivalência.
Em Mateus 12:28, Jesus declara: "Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus." Já, no relato paralelo de Lucas 11:20, a mesma declaração de Jesus é registrada assim: "Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o reino de Deus."
Fica evidente, portanto, que o "Espírito de Deus" e o "dedo de Deus" não são entidades separadas de Deus, mas sim o próprio Deus em ação, estendendo o Seu poder operacional no mundo dos homens.
2. A Palavra que Ordena e o Espírito que
Executa: Inseparáveis por Natureza
Se por um lado a Bíblia atribui a criação e os
milagres às "mãos" (ao Espírito) de Deus, por outro lado Ela afirma
categoricamente que todas as coisas foram feitas pela Sua Palavra — a
Sua fala, a Sua expressão, a Sua ordem e a Sua voz.
· "Porque falou, e tudo se fez; mandou, e logo
apareceu." (Salmo 33:9)
· "Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de
Deus foram criados..." (Hebreus 11:3)
· "Todas as coisas foram feitas por ele [o Verbo], e sem ele
nada do que foi feito se fez." (João 1:3; veja também Colossenses 1:16)
Aqui surge a grande questão: haveria uma
contradição ou uma divisão de tarefas entre o "Espírito" e a
"Palavra"?
Absolutamente não! Na teologia unicista, entendemos
que é impossível separar aquilo que é essencialmente inseparável. Pense na
dinâmica do ato de falar: quando alguém emite uma palavra ou dá uma ordem, a
voz (a palavra) é transportada exatamente pelo fôlego (o espírito) que sai da
boca de quem fala. Não existem duas pessoas ali — há apenas uma única pessoa se
expressando e agindo.
O mesmo paralelismo perfeito ocorre nos milagres de
Jesus. Quando Ele expulsava demônios, Mateus registra que isso ocorria pelo Espírito
de Deus (Mateus 12:28). Contudo, ao testemunharem a mesma cena, os
discípulos e a multidão exclamavam surpresos: "Que nova doutrina é
esta? Pois com autoridade ordena [pela Palavra] aos espíritos imundos, e
eles lhe obedecem!" (Marcos 1:27).
A ordem falada (Palavra) e o poder liberado (Espírito) são a manifestação simultânea do único e mesmo Senhor, como ratifica a seguinte passagem bíblica em perfeita harmonia: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” (Salmos 33:6).
3. Uma Única Pessoa na Divindade
Tentar fragmentar a Deus em pessoas distintas com base
nesses termos é o mesmo que tentar separar um homem de Suas próprias mãos, ou
um orador do fôlego da sua própria voz. As mãos de um artesão não são um
indivíduo separado dele; são a extensão do seu próprio ser em atividade.
A Bíblia é cristalina: Deus é único (uma só pessoa), e ao criar o universo ou ao libertar os oprimidos do diabo, Ele o faz por meio da Sua
Palavra e do Seu Espírito — o Seu decreto soberano e o Seu poder invisível em
ação.
Assim sendo, da Criação na gênese do tempo até os milagres operados
no Novo Testamento, vemos o mesmo Deus Altíssimo agindo de forma plena. O Deus
que falou e tudo fez é o mesmo Deus cujo Espírito operou maravilhas,
revelando-nos a beleza indivisível do único Criador e Senhor de todas as
coisas.
Reflexão Final:
Com base nessa breve argumentação sobre a riqueza poética e teológica da linguagem bíblica, fica a seguinte pergunta: onde encaixaríamos a pessoa de Jesus de Nazaré — o Emanuel, que traduzido é "Deus conosco" (Isaías 7:14; Mateus 1:23)? Quem é Ele em meio a todo esse processo?
A Bíblia Sagrada nos responde com as seguintes citações: (1) "Todas as coisas foram feitas por Ele" (João 1:3); (2) “Nele foram criadas todas as coisas [...] Tudo foi criado por Ele e para Ele (Colossenses 1:16); (3) "O nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus” (Apocalipse 19:13). Ou seja, Jesus é o artíficie que tudo criou; Ele é as mãos; Ele é o dedo; Ele é o Espírito de vida; Ele é a Palavra que saiu da Sua própria boca.
Portanto, de uma maneira real e concreta, em Jesus (o caminho, e a verdade e a vida): o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós; e o Deus imortal se fez mortal e verdadeiramente morreu por nós.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.


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