Como a Trindade foi Consolidada e Capturou as Igrejas Protestantes (Parte 1)
Marcelo Victor R. Nascimento
Saber como a ortodoxia trinitária foi construída e consolidada ao longo dos séculos é algo que o mundo religioso parece fazer questão de jogar na lata do lixo da história. Isso, porque, outrora, os helenistas da Idade Média lançavam nas fogueiras quem não bebia das suas fontes.
Hoje, os tais procuram calar as vozes contrárias rotulando-as de "hereges" destinados ao fogo do inferno. Contudo, sob a ótica da teologia bíblica estrita e do desenvolvimento histórico da Igreja Romana, há fortes argumentos de que as premissas trinitárias clássicas dependeram muito mais de decisões políticas imperiais e de categorias filosóficas platônicas do que das próprias Escrituras Sagradas.
Para os defensores do Unicismo e analistas históricos neutros, o desenvolvimento do dogma trinitário revela exatamente esse cenário de blindagem teológica a qualquer custo, conforme pode ser visto no "Livro Negro do Cristianismo", de Jacopo Fo, Laura Malucelli e Sérgio Tomat.
1. O Recurso à Filosofia Grega para
Explicar o Inexplicável
Quando os escritores do Novo Testamento, imersos no
monoteísmo judaico rígido, escreveram sobre Deus e Jesus, eles usaram termos
funcionais e relacionais (Pai, Filho, Palavra, Emanação). No entanto, à medida
que a Igreja se helenizou, os teólogos dos séculos III e IV recorreram à
metafísica grega para formular seus credos.
Surgiram conceitos que não existem na Bíblia, tais
como:
· Ousia (Substância/Essência): para dizer que Pai e Filho
partilham da mesma "matéria" divina.
· Hypostasis (Substância individual/Pessoa): para tentar separar o Pai do
Filho sem criar dois deuses.
· Homoousios (Consubstancial): o termo central do Concílio de
Niceia (325 d.C.) que gerou intensos debates por não ser bíblico, mas importado
da filosofia pagã.
Ao adentrar no terreno da filosofia grega, a teologia
trinitária criou uma estrutura onde Deus é definido por "substâncias"
e "subsistências", distanciando-se da revelação direta das Escrituras, onde Deus simplesmente se manifesta na carne na pessoa de Jesus.
2. A Blindagem das Decisões dos Concílios
Imperiais
A partir do momento em que o Império Romano, sob o imperador
Constantino e seus sucessores, adotou o Cristianismo e convocou os Concílios
Ecumênicos (Niceia em 325 d.C., Constantinopla em 381 d.C., Calcedônia em 451
d.C.), as definições de fé ganharam força de lei imperial.
· Quem
discordasse das definições filosóficas dos concílios não era apenas considerado
um "herege teológico", mas um inimigo do Estado, sujeito ao exílio,
confisco de bens e morte.
· Essa
pressão política e histórica criou uma blindagem dogmática tão forte que, ao
longo dos séculos, a teologia ocidental passou a ler a Bíblia através das
lentes dos credos, e não os credos através das lentes da Bíblia.
3. A Inabilidade de Admitir Erros
Teológicos Graves
Para os proponentes do Unicismo e da Kénosis Radical
(Filipenses 2:7), a teologia trinitária navega em contradições que só são
sustentadas apelando ao conceito de "mistério insondável" toda vez
que a lógica e a exegese bíblica direta falham.
Admitir que passagens claras como João 17:3, João 16:28 ou
Atos 10:38 apontam para uma unicidade absoluta de pessoa (onde Jesus é o
próprio Deus esvaziado de Seus atributos para viver como homeme ungido com o Espírito Santo no batismo) significaria
assumir que:
1. A teologia oficial errou por
séculos ao
abraçar definições filosóficas gregas em vez do monoteísmo bíblico puro.
2. A autoridade dos grandes concílios
ecumênicos e das
tradições eclesiásticas estabelecidas seria colocada em xeque.
Como as grandes instituições religiosas e acadêmicas
construíram toda a sua sistemática teológica sobre os pilares trinitários,
admitir essas lacunas exegéticas exigiria uma reforma teológica estrutural
profunda demais. Por isso, a imensa maioria dos teólogos e estudiosos das
Escrituras Sagradas dos últimos seculos prefere rotular leituras diretas e bíblicas como
"heresias", em vez de confrontar o fato de que a sua própria teologia
depende de termos e conceitos herdados de Platão e Aristóteles, e não dos
profetas e apóstolos.
4. O cumprimento de Atos 20:29-30: Os "Lobos Cruéis"
Provavelmente, os estudiosos da Bíblia da atualidade
não conseguem enxergar na Idade Média o cumprimento da advertência feita pelo
apóstolo Paulo em Atos 20:29-30, acerca dos “lobos cruéis” que não perdoariam o
rebanho. Ou melhor, os tais, por certo, entendem que a matança de cristãos
legítimos que criam na unidade absoluta de Yahweh foi exatamente o combate
ferrenho da “santa igreja romana” aos tais "animais" indesejáveis.
Contudo, a advertência que Paulo faz aos presbíteros
de Éfeso em Atos 20:29-30 é cirúrgica. Ele não diz que o ataque viria de fora
(de perseguidores pagãos), mas que surgiria de dentro: "Porque
eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis,
que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que
falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si."
Quando sobrepomos essa profecia à história, a
engrenagem se revela:
· Os "lobos" que não pouparam o rebanho: foram os
teólogos-filósofos dos séculos III e IV (os pais da igreja helenizados) que, ao
assumirem o controle intelectual da igreja, começaram a perseguir e excomungar
os cristãos simples (frequentemente chamados de "monarquianos" ou
"patripassianos" pelos historiadores) que defendiam o monoteísmo
estrito e a unicidade de Deus.
· Falar coisas perversas (distorcidas): no grego
original, a palavra para "coisas perversas" é diastrepho, que
significa "distorcer, desviar, deformar". É exatamente o que os
concílios fizeram ao pegar passagens bíblicas claras e distorcê-las através de
conceitos metafísicos estranhos às Escrituras para justificar a divisão de Deus
em três "pessoas" subsistentes e criar a doutrina da sobrevivência da
alma sem a necessidade da ressurreição física.
· Atrair os discípulos após si: ao criarem um
sistema teológico complexo que apenas iniciados na filosofia grega conseguiam
debater, esses bispos e filósofos tiraram a Escritura das mãos do povo simples
e colocaram a salvação sob o crivo de sua própria autoridade intelectual e
eclesiástica.
Considerações Finais
O vídeo abaixo mostra o Prof. Felipe Aquino, um dos
apologetas, escritores e professores católicos mais conhecidos do Brasil
explicando o porquê, na sua visão, a inquisição foi "boa" e fez um "grande serviço para o
cristianismo", mesmo tendo matado centenas de milhares de pessoas (como as "bruxas", por exemplo), sendo acompanhado pelos seus companheiros de bancada.
Referências Bibliográficas:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.
FO, J., MALUCELLI L., TOMAT, Sérgio. (2009). O Livro Negro
do Cristianismo. Ediouro Publicações. Rio de Janeiro.




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