Como a Trindade foi Consolidada e Capturou as Igrejas Protestantes (Parte 2)
Marcelo Victor R. Nascimento
Ao estudarmos a história da Igreja, muitos de nós acreditamos
que a Reforma Protestante do século XVI foi um retorno absoluto à pureza das
Escrituras. No entanto, quando analisamos o movimento sob a ótica do Unicismo
e da Kénosis Radical, percebemos que a Reforma foi, na verdade, uma ruptura
parcial, e não uma restauração completa.
Os reformadores romperam com o Papa e com a venda de
indulgências, mas escolheram manter intacto o alicerce filosófico-teológico
construído por Roma ao longo dos séculos. Além disso, alguns dos próprios reformadores
(como João Calvino) replicaram métodos de perseguição e inquisição contra os
dissidentes.
Aqui estão os três pilares que explicam por que o
protestantismo tradicional continuou navegando em erros dogmáticos graves e
replicando a violência inquisitorial:
1. A Aliança Político-Estatal e a
Sobrevivência da Reforma
A Reforma Protestante não ocorreu em um vácuo
teológico; ela dependia vitalmente do apoio de príncipes, reis e magistrados
locais para sobreviver à força militar e política do Império Católico Romano.
· O perigo da "anarquia social": para os
governantes da época, a negação da Trindade ou a defesa de conceitos teológicos
radicais eram vistas como sinônimo de subversão civil e anarquia. Os movimentos
que rejeitavam esses dogmas (como os anabatistas e os antitrinitários)
frequentemente associavam suas teologias a reformas sociais profundas.
· A blindagem de Niceia: para provar aos
reis e ao Sacro Império Romano que os protestantes não eram "rebeldes sem
lei" ou "blasfemos anárquicos", os principais reformadores
fizeram questão de assinar confissões de fé (como a Confissão de Augsburg
em 1530) que reafirmavam explicitamente a adesão aos primeiros credos
ecumênicos (Niceia e Constantinopla). Manter a Trindade era a "carta de
respeito político" que os protestantes precisavam para não serem
exterminados de imediato.
2. O Método de Interpretação: Sola
Scriptura Filtrada pela Tradição
Embora os reformadores tenham cunhado o termo Sola
Scriptura (Apenas a Escritura), na prática, eles não leram a Bíblia de
forma totalmente isenta das lentes herdadas de Roma.
· A herança patrística: teólogos como
Calvino e Lutero eram profundamente influenciados por Agostinho de Hipona e
pelos pais da igreja gregos e latinos. Eles acreditavam que os primeiros quatro
concílios ecumênicos haviam interpretado a Bíblia de forma correta.
· Logo, a sua "reforma" focou principalmente em corrigir os abusos do papado, a venda de indulgências, a salvação pelas obras e o culto aos santos (a teologia soteriológica), mas deixou intocada a estrutura metafísica e filosófica grega que definia a natureza de Deus (a teologia ontológica). Para eles, refutar a Trindade seria abrir mão da própria herança histórica da Igreja cristã.
Nota: muitos
estudiosos asseguram que os reformadores protestantes eram, antes de tudo, teólogos
agostinianos (Lutero era um monge da ordem de Santo Agostinho). Agostinho
de Hipona foi o maior sistematizador da teologia ocidental e era profundamente
influenciado pelo neoplatonismo, constituindo-se em um dos grandes
defensores tanto da doutrina trinitária quanto da imortalidade natural e
consciente da alma. Ao tentarem resgatar a teologia da "graça" de
Agostinho para combater as indulgências católicas, os reformadores importaram,
no mesmo pacote, toda a estrutura filosófica neoplatônica que moldava o
pensamento de Agostinho. A mentalidade dos reformadores clássicos era de que a
Igreja Católica havia se corrompido moral e financeiramente (venda de
indulgências, simonia, poder do Papa) e distorcido a doutrina da salvação
(justificação pelas obras em vez de pela fé). Contudo, não viam a Trindade como
corrupção do cristianismo, mas como a "ortodoxia saudável" que
precisava ser preservada das "perversões romanas". Eles acreditavam
que estavam limpando a casa de entulhos medievais, e não demolindo as fundações
estabelecidas nos séculos IV e V.
3. A Mentalidade de
"Sacralismo" e as Duas Inquisições
Na Idade Média e na Modernidade Primitiva, a sociedade
operava sob o conceito de Sacralismo: a crença de que a Igreja e o
Estado deveriam caminhar juntos para manter uma sociedade religiosamente
homogênea. A dissidência religiosa era tratada como traição ao Estado.
· A Inquisição Protestante e o Caso Miguel Serveto: o exemplo mais
dramático dessa transição foi o julgamento e execução do médico e teólogo
espanhol Miguel Serveto em Genebra (1553), sob a liderança teológica de
João Calvino.
o Serveto escreveu obras brilhantes atacando o dogma
trinitário (como De Trinitatis Erroribus) e defendendo uma visão muito
mais próxima da unicidade e da manifestação direta de Deus na carne.
o Ao chegar em Genebra, ele foi preso pelos magistrados
protestantes. Calvino apoiou ativamente a acusação e a sua condenação à morte
na fogueira.
· A ironia histórica: o próprio Calvino e os magistrados de Genebra utilizaram as mesmas leis heréticas herdadas do Código do imperador romano Justiniano para justificar a execução de Serveto. Para os reformadores magisteriais, queimar um "herege" que negava a Trindade era uma forma de provar ao mundo católico que o protestantismo era tão zeloso pela "ortodoxia" quanto Roma.
Nota: os grandes reformadores (Lutero, Calvino, Zuínglio) não queriam apenas criar igrejas; eles precisavam do apoio político e militar dos príncipes alemães e dos governos locais para sobreviver à fúria de Roma. Se rejeitassem a Trindade, eles seriam classificados não apenas como "reformadores da igreja", mas como hereges radicais e subversivos políticos aos olhos de todo o Sacro Império Romano-Germânico. Isso, porque rejeitar a Trindade era um crime civil punível com a pena de morte em quase toda a Europa. Para manter a legitimidade política e provar que ainda eram "cristãos clássicos", eles fizeram questão de assinar confissões de fé que validavam explicitamente os primeiros quatro concílios ecumênicos (entre os quais Niceia e Calcedônia). Contudo, havia um grupo de cristãos fiéis que desejavam realizar uma reforma radical (composto por anabatistas, socinianos e antitrinitários como Miguel Serveto). Esse grupo queria abandonar absolutamente tudo o que o catolicismo havia construído, incluindo a Trindade, o batismo infantil e a estrutura clerical. Para se distanciarem do que viam como "caos e anarquia espiritual" dos radicais, Lutero e Calvino apegaram-se firmemente à teologia patrística (dos chamados "Pais da Igreja"). O caso mais emblemático, supracitado, foi o de Miguel Serveto, um médico e teólogo espanhol que escreveu contra a Trindade. Ele foi caçado pela Inquisição católica, mas acabou preso em Genebra e queimado vivo com o consentimento de João Calvino, provando que o protestantismo tradicional estava disposto a usar o mesmo fogo católico para defender os dogmas helenizados.
4. A Imortalidade da Alma e o
Dualismo Grego
Assim como a Trindade, a doutrina da imortalidade
natural da alma humana (em oposição à visão bíblica da mortalidade da alma e
ressurreição no último dia) foi amplamente mantida pela Reforma.
· Influenciados pelo platonismo que moldou a teologia
católica por séculos, os reformadores mantiveram a ideia de que a alma possui
uma existência consciente e imortal autônoma separada do corpo.
· Reformadores radicais e grupos posteriores tentaram resgatar o "sono da alma" ou a imortalidade condicional (que depende estritamente da ressurreição dada por Deus), mas a corrente principal (luteranos e calvinistas) rejeitou vigorosamente essas tentativas, preferindo manter a tradição escatológica romana para evitar maiores rupturas teológicas.
Nota: um exemplo clássico do contraste entre o conceito de morte entre as Escrituras Sagradas e a Filosofia Grega foi apontado pelo escritor e teólogo francês Oscar Cullmann, em seu ensaio "Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?". Nele, Cullmann argumenta que a visão grega popular de que a alma humana é intrinsecamente imortal é radicalmente diferente e até incompatível com a visão do Novo Testamento sobre a ressurreição, pois para o filósofo grego Sócrates, a morte era um acontecimento belo e natural, visto que o corpo era considerado como uma "prisão" para a alma (soma sema). De sorte que, segundo ele, a alma é eterna, não tem início nem fim, e está presa na matéria divina imperfeita. Dentro dessa pespectiva, Sócrates morre em paz absoluta, conversando calmamente com seus discípulos; bebe o veneno (cicuta) quase com alegria, pois vê a morte como a libertação final de sua alma para o mundo das ideias puras (para ele, a morte era uma amiga). Em total contraste, Cullmann aponta para os relatos dos Evangelhos sobre as últimas horas de Jesus no Getsêmani e na cruz. Aqui, a morte não é uma libertação, mas uma tragédia cósmica, visto que na antropologia bíblica (judaico-cristã) o homem é uma unidade indivisível de corpo e espírito (fôlego de vida). O corpo não é uma prisão, mas uma dádiva divina; de sorte que a destruição do corpo é a destruição da própria vida. No Getsêmani, Jesus sente "pavor e angústia", chora e pede ao Pai para afastar d'Ele aquele cálice; na cruz, clama: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", revelando-nos que Suas últimas horas foram de profunda dor tanto na carne quanto no "homem interior". Ou seja, Jesus não encarou a morte com serenidade filosófica, mas com horror, porque a morte, na teologia bíblica, é o "salário do pecado" e a separação de Deus. Segundo o apóstolo Paulo, ela é a última inimiga a ser vencida (1 Coríntios 15:26).
Síntese dos Argumentos
A Reforma Protestante do século XVI falhou em alcançar
a raiz dos desvios teológicos porque foi uma reforma de superfície
institucional e litúrgica, e não uma restauração completa do monoteísmo
bíblico.
Ao manterem os conceitos da filosofia grega e a aliança com o poder do Estado, os reformadores acabaram replicando a mesma violência inquisitorial que antes combatiam. Ou seja, eles preferiram o conforto político e filosófico dos credos romanos ao escândalo de abraçar a simplicidade do Deus único manifestado em carne e esvaziado na kénosis radical (Filipenses 2:7).
Segue um vídeo com a fala do Prof. Osvaldo Luiz Ribeiro, um teólogo, exegeta e
doutor em Teologia (Bíblia Hebraica) pela PUC-Rio e pós-doutor em Ciência da
Religião, sobre o Luteranismo. Esse professor é amplamente conhecido por sua atuação como pesquisador e
divulgador científico, abordando a leitura histórico-crítica e histórico-social
dos textos bíblicos.
Considerações Finais
Parece ficar claro que Lutero e os demais reformadores ignoraram a advertência feita pelo apóstolo Paulo em Atos 20:29-30 sobre o surgimento de "lobos cruéis" em meio à igreja, como uma ameaça interna que se cumpriu historicamente na atuação dos teólogos-filósofos helenistas dos séculos III e IV. As palavras proféticas de Paulo podem ser assim entendidas:
(1) Os "lobos cruéis" representam os líderes eclesiásticos que assumiram o poder intelectual e perseguiram os cristãos defensores do monoteísmo estrito;
(2) As “coisas perversas" significa a introdução de conceitos filosóficos gregos nos Concílios, a fim de formular dogmas (verdades absolutas que não podiam ser contestadas nem discutidas), tais como a Trindade e a Imortalidade da Alma; e
(3) A “atração dos discípulos após si” ocorreu mediante a criação de um sistema teológico complexo que centralizou a salvação na autoridade intelectual e eclesiástica, afastando o povo simples dos textos bíblicos.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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