De Atenas Até Nicéia: Desconstruindo as Justificativas Trinitárias
Marcelo Victor R. Nascimento
Para defender o seu sistema teológico diante das
evidências de helenização, a apologética e a academia trinitárias desenvolveram
estratégias de defesa muito bem estruturadas. Eles não negam que termos gregos
foram utilizados, mas reinterpretam o significado histórico e teológico desse
processo.
Se você apresentar esses dados históricos a um teólogo
trinitário instruído, a refutação dele se apoiará, essencialmente, em quatro
argumentos principais:
1. A Tese do "Despojamento do
Egito" (Apropriação Cultural)
Os trinitários argumentam que a Igreja não foi
"corrompida" pela filosofia grega, mas que ela se apropriou das
ferramentas linguísticas e conceituais do seu tempo para defender e
expressar verdades que já estavam implicitamente na Bíblia.
· O argumento deles: assim como os israelitas saíram do
Egito levando o ouro e a prata dos egípcios para construir o Tabernáculo de
Yahweh (Êxodo 12:35-36), os pais da igreja usaram a terminologia de Platão e
Aristóteles para "construir" a teologia sistemática.
· A defesa: eles alegam que termos como ousia (essência) e hypostasis (pessoa) foram "batizados" e ressignificados. Para um trinitário, a filosofia grega serviu apenas como um andaime para construir o edifício teológico; uma vez de pé, o edifício é puramente bíblico, e não grego.
Refutação: usar o "ouro do Egito" para
construir o tabernáculo é muito diferente de pegar a teologia do Egito
(ou da Grécia) para definir quem é Deus. Mudar a própria definição da natureza
de Deus usando metafísica pagã não é usar uma ferramenta; é mudar o Deus da
Bíblia.
2. A "Doutrina da Revelação
Progressiva"
Para rebater o argumento de que a Trindade não está
explicitada com termos técnicos no Novo Testamento, os trinitários recorrem ao
conceito de revelação progressiva ou desenvolvimento do dogma.
· O argumento deles: Deus não revelou todas as verdades
de uma vez só. No Antigo Testamento, a unidade de Deus é enfatizada para
proteger Israel do politeísmo vizinho. No Novo Testamento, com a vinda de Jesus
e do Espírito Santo, a natureza triúna de Deus começa a ser manifestada, mas
ainda de forma sementar.
· A defesa: os concílios do século IV e V não criaram uma nova doutrina; eles apenas "desenterraram" e definiram de forma madura o que já estava latente nas Escrituras. Para eles, o Espírito Santo guiou a Igreja ao longo dos séculos para que ela chegasse à formulação correta diante das heresias que surgiam.
Refutação: a verdadeira revelação bíblica não progride para se contradizer. Deus não passa de um monoteísmo absoluto e estrito no Antigo Testamento para um modelo de "três pessoas distintas" no Novo Testamento. Nesse caso, a verdadeira progressão bíblica são os diferentes modos da manifestação divina, i.e., o Deus invisível do Antigo Testamento manifestou-Se visivelmente como homem em Jesus Cristo (1 Timóteo 3:16) e agora manifesta-Se em Espírito no coração daqueles que creem: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada" (João 14:23).
3. A Exegese Reversa (Tentativa de
Prova Bíblica)
Os trinitários tentam provar que a Trindade e a
imortalidade da alma não dependem da filosofia grega, mas de uma leitura direta
dos textos bíblicos. Para isso, eles utilizam passagens isoladas para construir
o que chamam de harmonia bíblica:
· Para a Trindade: Eles citam passagens como a fórmula
batismal de Mateus 28:19 ("em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo"), a bênção apostólica de 2 Coríntios 13:14, e passagens onde o
Pai, o Filho e o Espírito Santo aparecem realizando ações divinas distintas
simultaneamente (como no batismo de Jesus).
· Para a Imortalidade da Alma: Eles utilizam textos como a parábola do Rico e Lázaro (Lucas 16:19-31), a promessa de Jesus ao ladrão na cruz ("hoje estarás comigo no paraíso" em Lucas 23:43), e o desejo de Paulo de "partir e estar com Cristo" (Filipenses 1:23) para argumentar que a consciência pós-morte imediata é uma revelação bíblica, e não uma importação de Platão.
Refutação: (1) Em relação à suposta fórmula trinitária de Mateus 28:19, é importante destacar que as expressões usadas nesse verso são títulos e não “nomes”, dificultando a compreensão de quem assiste que se trata de um batismo cristão ("Pai" de quem? "Filho" de quem? "Espírito Santo" de quem?), apesar de Yahweh ter escolhido manifestar-se às criaturas de três modos distintos ao longo da história, sem contar o fato de haver menção na Bíblia de Jerusalém e em outras enciclopédias famosas que a expressão "em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" é um acréscimo aos originais, os quais trazem o batismo "em Nome de Jesus". Além disso, se os apóstolos tivessem entendido Mateus 28:19 como uma fórmula litúrgica trinitária, eles a teriam usado; contudo, em todo o livro de Atos, os batismos foram realizados exclusivamente "em nome de Jesus" (Atos 2:38, 8:16, 10:48, 19:5); (2) A Bênção Apostólica de 2 Coríntios 13:14 que cita os três modos como Yahweh manifestou-se ao mundo trata-se tão somente de uma saudação de comunhão cristã, não de uma definição da "essência" divina (da natureza de Deus); (3) No batismo à beira do Rio Jordão, o homem Jesus, vazio dos Seus atributos de poder, recebeu sobre si a unção do Espírito Santo (a emanação de Yahweh), pelo qual andou fazendo o bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Yahweh era com ele (Atos 10:38), não tendo, essa passagem, relação alguma com o Dogma da Trindade; (4) A imortalidade da alma é refutada de forma clara e objetiva através do seguinte verso bíblico: "A alma que pecar, essa morrerá" (Ezequiel 18:4), revelando-nos que a única esperança de vida pós-morte é a ressurreição física no último dia, não uma partida “fantasmagórica” imediata para o céu (João 6:40); (5) Quanto à parábola do Rico e do Lázaro, Jesus usou uma história para ilustrar uma lição moral e de julgamento contra a ganância dos fariseus (v.14). A moral da história está no v.31: "a incredulidade deles era tamanha que nem mesmo a ressurreição física de alguém os convenceria"; (6) No que se refere à fala de Jesus ao ladrão da cruz arrependido sobre seu destino final, o problema é puramente de pontuação. No grego original (códices unciais), não havia vírgulas, pontuação ou mesmo espaço entre as palavras. De sorte que, o correto é entender que Jesus disse-lhe “"Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso.", pois o próprio Jesus, três dias depois, disse a Maria Madalena: "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai" (João 20:17). Se Jesus não foi ao paraíso no dia da crucificação (permanecendo sepultado), o ladrão também não poderia ter ido lá "naquele mesmo dia". Consequentemente, o "hoje" dito por Jesus refere-se ao momento em que a promessa solene foi feita (na cruz); (7) Por fim, quando o apóstolo Paulo disse que queria “partir e estar com Cristo” (Filipenses 1:23), por certo, ele pensava na ressurreição do último dia, pois para quem morre, o tempo deixa de existir. Assim sendo, o milésimo de segundo seguinte à morte (mesmo que se passem 2.000 anos na história humana) será o som da trombeta e o despertar na ressurreição para estar com Cristo (1 Tessalonicenses 4:15-17). Por isso, do ponto de vista da percepção do próprio apóstolo Paulo, morrer é o equivalente imediato a estar com o Senhor, até porque, ele própro diz em 1 Coríntios 15:18 que se não houver ressurreição dos mortos "os que dormiram em Cristo estão perdidos" (essa declaração seria uma grande mentira se as almas deles já estivessem conscientemente felizes no céu). Portanto, queiram os trinitários ou não, as Escrituras descrevem a morte como um "sono" inconsciente (Eclesiastes 9:5: "os mortos não sabem de coisa nenhuma"; Salmo 146:4: “...naquele mesmo dia, perecem os seus pensamentos”).
4. O Argumento da Catolicidade e a
"Redução ao Absurdo"
Por fim, a apologética trinitária utiliza um argumento
de autoridade histórica e de consenso para deslegitimar as visões dissidentes
(como o Unicismo).
· O argumento deles: se a Trindade e as doutrinas
fundamentais dos concílios são uma apostasia grega completa, isso significa que
a Igreja de Jesus Cristo passou mais de 1500 anos no erro total e na
idolatria, sem que o Espírito Santo a guiasse à verdade (contradizendo João
16:13).
· A defesa: eles acusam os unicistas de "restauracionismo
extremo" (a ideia de que a igreja verdadeira desapareceu logo após a morte
dos apóstolos e só foi redescoberta séculos depois). Para os trinitários, é
historicamente implausível que Deus permitisse que a esmagadora maioria dos
mártires, teólogos e reformadores da história vivesse e morresse sob uma
"farsa filosófica grega".
Refutação: a história bíblica mostra que a maioria do povo de Deus frequentemente caiu em apostasia (como no período dos reis de Israel). O consenso da maioria nunca foi garantia de verdade na Bíblia; a verdade sempre esteve com o remanescente que guardou a Palavra pura, sem misturá-la com as filosofias das nações vizinhas. O “Livro Negro do Cristianismo”, de Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli, mostra o triste fim daqueles que ousaram discordar da helenização promovida pelos padres da Igreja Romana durante a Idade Média. Aliás, hoje não é diferente, pois aqueles que outrora matavam fisicamente, usando todo o aparato do Estado, agora usam a estratégia do cancelamento (nas redes sociais inclusive) rotulando como "membros de seitas diabólicas" as pessoas e instituições que não aceitam o desvirtuamento das Escrituras Sagradas.
Referências Bibliográficas:
FO, J., MALUCELLI L., TOMAT, Sérgio. (2009). O Livro Negro
do Cristianismo. Ediouro Publicações. Rio de Janeiro.
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). "Certamente não morrereis!". Joinville: Clube de Autores.
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Um só batismo, em nome de Jesus Cristo. Joinville: Clube de Autores.


Eu acredito na imortalidade da alma como está descrito em Lucas 16:9-31, já que em outros livros do VT e NT traz relato sobre a imortalidade da alma com consciência, inteligência e bem acordada e não adormecida;
ResponderExcluirQuanto ao Mistério Trinitário, eu acredito que são três pessoas distintas com a mesma essência e natureza Divina e se revelam de acordo com o momento Histórico Blibico, o resto é interpretação de correntes Teológicas do século 17.