Lutero e Calvino: Uma Reforma Parcial
Marcelo Victor R. Nascimento
Os Reforma Protestante do século XVI tiveram como um
de seus principais lemas o Sola Scriptura (Somente a Escritura).
Alguns estudiosos defendem a ideia de que líderes como
Martinho Lutero e João Calvino iniciaram um forte ataque à filosofia grega —
especialmente a Aristóteles — para tentar purificar a fé cristã. No entanto, o
movimento não conseguiu eliminar esses conceitos das academias a longo prazo
devido a fatores históricos e práticos.
1. A Intenção Inicial dos
Reformadores
Dizem alguns estudiosos que os reformadores queriam
implodir a Escolástica, o sistema teológico medieval da Igreja Católica
que fundira a Bíblia com a filosofia de Aristóteles (via Tomás de Aquino).
· Martinho Lutero: parece ter chamado Aristóteles de "aquele bastardo cego e pagão" e rotulou a teologia escolástica como uma "prostituição da razão". Em sua obra À Nobreza Cristã da Nação Alemã (1520), Lutero defendeu que os livros de Aristóteles deveriam ser completamente banidos das universidades cristãs. Ele via a ideia da imortalidade natural da alma como uma "fábula papal" que obscurecia a necessidade da ressurreição no último dia, acreditando que, entre a morte e a volta de Cristo, os mortos entram em um estado de descanso/inconsciência, chamado de "sono da alma" (Assertio omnium articulorum, 1520). Contudo, era um discípulo de Agostinho de Hipona e, portanto, cria que os credos ecumênicos (Nicéia e Atanásio) simplesmente resumiam o testemunho bíblico. Para ele, embora a razão não pudesse conceber a Trindade, o crente a aceitava porque a Escritura assim a havia revelado (Debate sobre o Homem, 1536 & Dos Concílios e da Igreja, 1539).
· João Calvino: alguns historiadores garantem que embora tivesse formação humanista e fosse mais tolerante com a filosofia clássica para o uso civil e das ciências, Calvino rejeitava enfaticamente o uso da metafísica grega para ditar dogmas bíblicos, insistindo que a teologia deveria se limitar estritamente à revelação literal das Escrituras. Quanto à Trindade, ele definiu Deus como "uma única essência na qual subsistem três pessoas", tendo combatido abertamente os antitrinitarianos de sua época, com a tese de que negar a Trindade destruiria a própria natureza de Deus e invalidaria a obra da redenção ((Defensio orthodoxae fidei, 1554 & Institutas da Religião Cristã, Livro I, Cap. XIII,1559). No que se refere à imortalidade da alma, Calvino, na sua primeira obra teológica, escrita especificamente contra os anabatistas radicais que ensinavam o "sono da alma", usa passagens como Lucas 23:43 ("Hoje estarás comigo no Paraíso") e Filipenses 1:23 ("Desejo partir e estar com Cristo") para provar que a alma sobrevive à morte do corpo e permanece consciente, aguardando a ressurreição final.
2. O Fracasso na Eliminação Completa:
Por que a Filosofia Grega Voltou?
Apesar do radicalismo inicial, a história mostra que em poucas décadas as próprias universidades protestantes reintroduziram a
filosofia grega. Esse fenômeno é conhecido na história como a Escolástica
Protestante ou Ortodoxia Protestante. Isso aconteceu por três razões
principais:
(1) A Necessidade
de Métodos de Ensino (O Papel de Melanchthon): Lutero era um
reformador profético e impetuoso, mas precisava de alguém para organizar o
sistema educacional das novas universidades alemãs. Essa tarefa coube a Filipe
Melanchthon, braço direito de Lutero. Melanchthon percebeu que, para
ensinar lógica, dialética, física e ética nas academias, os textos da Bíblia
não funcionavam como manuais escolares. Ele reintroduziu os manuais de Aristóteles
nas universidades luteranas. A estrutura do pensamento grego voltou para as
salas de aula protestantes como uma ferramenta pedagógica indispensável.
(2) A Polêmica
Contra a Contra-Reforma Católica: após o Concílio de Trento, a Igreja Católica utilizou
a refinada lógica aristotélica e tomista dos jesuítas para atacar as
contradições teológicas do protestantismo. Para se defenderem e debaterem em
igualdade de condições nas arenas acadêmicas da Europa, os teólogos
protestantes (tanto luteranos quanto calvinistas) foram forçados a adotar as
mesmas armas intelectuais. Eles começaram a escrever extensos tratados de
teologia sistemática usando as definições de substância, essência e natureza
herdadas do pensamento grego.
(3) A Manutenção
dos Dogmas dos Primeiros Concílios: os reformadores romperam com o Papa, mas não
romperam com os credos ecumênicos dos primeiros séculos (Niceia,
Constantinopla, Calcedônia). Como esses credos já haviam sido formulados no
século IV e V sob profunda influência da ontologia e da metafísica grega
(definindo a Trindade e a dupla natureza de Cristo através de termos como ousia
e hypostasis), os protestantes acabaram herdando, protegendo e ensinando
a própria estrutura helenizada que historiadores como Adolf von Harnack criticaram séculos
mais tarde.
3. O Legado nas Academias
Contemporâneas
Como resultado desse processo histórico, a maioria das
faculdades de teologia e seminários protestantes ao
longo das eras Moderna e Contemporânea continuou a ensinar:
· A antropologia dualista (divisão grega entre
corpo mortal e alma imortal), em vez da visão monista/holística do Antigo
Testamento.
· A teologia sistemática abstrata baseada em
atributos divinos imutáveis e atemporais (conceito do "Motor Imóvel"
de Aristóteles), em vez da narrativa histórica e dinâmica do Deus da Bíblia
Hebraica.
O historiador Adolf von Harnack assegura que a Reforma realizou uma revolução eclesiástica e soteriológica (na doutrina da salvação), mas falhou em realizar uma revolução estritamente filosófica nas academias, mantendo a cristandade sob o mesmo teto conceitual grego.
Aqui está um quadro comparativo relacionando os
argumentos de quem defende que a Reforma foi "incompleta" e a posição
dos que entendem que os Reformadores cumpriram o objetivo, incluindo o foco de
cada visão e as respetivas fontes primárias:
|
Eixo de Análise |
A Reforma foi
"Incompleta" (Reforma Radical, Historiadores e Restauracionistas) |
A Reforma Cumpriu seu Objetivo (Protestantismo
Magisterial: Luteranos e Reformados) |
|
Alvo Principal da Reforma |
Restauração Total: deveria ter
restaurado a Igreja Primitiva do séc. I, eliminando não só o Papa, mas toda a
cultura, política e filosofia de matriz greco-romana do cristianismo. |
Reforma Soteriológica: o objetivo
central era corrigir a doutrina da salvação (justificação unicamente pela fé)
e remover abusos medievais (indulgências, purgatório), não reconstruir a fé
do zero. |
|
Visão sobre a Filosofia Grega |
Helenização Corruptora: conceitos como ousia
(essência) e hypostasis (pessoa) foram vistos como filosofias pagãs
que adulteraram a simplicidade da mensagem bíblica original. |
Ferramenta Linguística: a linguagem e
os termos conceituais gregos eram interpretados apenas como ferramentas
lógicas necessárias para organizar a verdade bíblica e evitar heresias. |
|
Avaliação dos Concílios Ecumênicos |
Rejeição dos Concílios: os Concílios
dos séculos IV e V (Niceia, Constantinopla, Calcedônia) eram vistos como o
início da decadência e da aliança entre a Igreja e a filosofia do Império. |
Recepção e Autoridade: os primeiros
quatro Concílios Ecumênicos foram aceitos e honrados por defenderem a
ortodoxia bíblica em continuidade com o cristianismo universal e histórico. |
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Uso da Escolástica e de Aristóteles |
Contradição e Retrocesso: apontam como
falha o fato de o Protestantismo ter reintroduzido o método de Aristóteles
(Escolástica Protestante) nos seminários poucas décadas após Lutero tê-lo
criticado. |
Utilidade Didática e Defensiva: O rigor
aristotélico e a lógica formal eram vistos como indispensáveis para o ensino
acadêmico e para debater em pé de igualdade contra a Contra-Reforma jesuíta. |
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Doutrinas Mantidas |
Rejeição da Imortalidade Natural
da Alma (vista como platonismo) e, no caso dos antitrinitários, rejeição
do Dogma da Trindade (visto como construção filosófica). |
Preservação da Trindade
(vista como fundamento essencial da salvação por Cristo) e assimilação da Imortalidade
da Alma nos currículos confessionais. |
|
Principais Fontes Primárias |
• Miguel Serveto: De Trinitatis Erroribus (1531); • Fausto Sozzini / Socinianos: Catecismo Racoviano (1605); • Anabaptistas (Grebel / Manz): Carta a Thomas Müntzer (1524). |
• Melanchthon / Lutero: Confissão de Augsburgo (1530); • João Calvino: Institutas da Religião Cristã (1559); • Martinho Lutero: Sobre os Concílios e a Igreja (1539). |
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase
dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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