Um Yahweh ou Três "Yahwehs"?
Marcelo Victor R. Nascimento
Os adoradores da Trindade defendem que Yahweh é
uma identidade triúna de Deus, argumentando que a leitura unicista ignora
nuances linguísticas fundamentais do hebraico antigo e pistas da própria
pluralidade interna de Yahweh na Escritura.
Façamos uma análise dos principais textos e conceitos apresentados
pelos trinitários como prova para tal conceito.
I. Principais Textos Usados pelo
Trinitários
(1) Yahweh interagindo com Yahweh: ha dois textos do
Antigo Testamento onde duas figuras chamadas Yahweh parecem interagir. O
exemplo clássico é Gênesis 19:24 que diz o seguinte: "Então
Yahweh fez chover enxofre e fogo, da parte de Yahweh, desde os céus". A
segunda passagem é Zacarias 2:10-11, onde quem fala é Yahweh dos
Exércitos, mas Ele diz: "...e saberás que Yahweh dos Exércitos me
enviou a ti". Para os trinitários, a gramática nesses pontos exige
mais de uma pessoa com o nome Yahweh.
Refutação: o argumento de que
há dois Yahwehs em Gênesis 19:24 ("Yahweh fez chover... da parte de
Yahweh") cai por terra quando se estuda o estilo literário hebraico
(repetição enfática). Na língua hebraica, é extremamente comum um autor
repetir o próprio nome ou substantivo em vez de usar um pronome, como pode ser
visto no triságio “Santo, Santo, Santo” (que quer dizer “santíssimo”). Um
exemplo idêntico está em 1 Reis 8:1, onde diz: "Então Salomão convocou
em Jerusalém os anciãos de Israel, todos os chefes e os chefes das tribos e os
chefes de família dos israelitas diante do rei Salomão". Ninguém lê
esse texto dizendo que existiam dois Reis Salomão na sala. É apenas a repetição
estilística da autoridade. Dessa mesma maneira, entendemos que Yahweh fez
chover da parte de Si mesmo. O mesmo pode ser aplicado ao texto de Zacarias
2:10-11, como forma de realçar.
(2) Yahweh pisando no Monte das Oliveiras:
em Zacarias
14:3-4 está dito: "E Yahweh sairá, e pelejará contra estas
nações... E naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das
Oliveiras...". Os trinitários afirmam que quem subiu ao Monte das
Oliveiras e quem retornará fisicamente e tocará o Monte com os pés é Jesus
Cristo (Atos 1:11-12). Logo, o nome Yahweh pode ser aplicado a Jesus, a
"segunda pessoa" da trindade.
Refutação: para o monoteísmo radical, o texto
de Zacarias 14:3-4 é a profecia definitiva da manifestação de Yahweh na
carne. O Deus que na eternidade é Espírito invisível e, portanto, não
possui pés físicos, assume a humanidade histórica de forma tão real que agora
possui pés literais que tocarão o solo da Terra. Se Jesus e Yahweh fossem
pessoas distintas, o texto teria que dizer que "o Filho de Yahweh"
porá os Seus pés no Monte. Mas o texto diz categoricamente que é Yahweh
quem o fará. Logo, Jesus é o próprio e único Yahweh manifestado de forma
visível e corporal. Dividir Yahweh em "duas pessoas" para explicar
esse texto é criar um politeísmo artificial.
(3) Malaquias 3:1 diz: "Eis
que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de
repente virá ao seu templo o Senhor [Ha-Adon], a quem vós
buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz Yahweh
dos Exércitos." Os trinitários dizem que quem fala no início do
versículo é Yahweh ("diante de mim"). O mensageiro que prepara
o caminho é João Batista. No entanto, quem vem ao templo é o "Senhor"
(Ha-Adon / Jesus). Eles argumentam que Yahweh fala que o caminho estava
sendo preparado para "Mim" (Yahweh), mas quem aparece fisicamente no
templo é Jesus. Logo, Jesus e a voz que fala são duas pessoas distintas
compartilhando a identidade de Yahweh.
Refutação: esse texto é uma
das maiores provas da identidade unicista de Deus. O texto hebraico diz: "preparará
o caminho diante de mim [Yahweh]". Pergunta: quem veio logo
após o mensageiro (João Batista)? Resposta: Jesus Cristo. Se o caminho
foi preparado diante de Jesus, e Yahweh diz que o caminho seria preparado
diante de Mim (no singular), a conclusão lógica e matemática é que Jesus
é o próprio Yahweh que veio em carne. A menção de que "virá ao seu
templo o Senhor [Ha-Adon]" usa um título de soberania (Adon)
que descreve a autoridade de Deus manifestada em Seu governo humano (o
Messias). Não são duas pessoas celestes conversando ou se dividindo; é o único
Deus Yahweh descrevendo o Seu próprio plano de aparecer fisicamente no templo
que Lhe pertencia. O templo em Jerusalém era o templo de Yahweh, e quando Jesus
entra nele, Ele entra no Seu próprio templo.
(4) Hebreus 1:10-12 (citando o Salmo
102:25-27) diz:
"E: Tu, Senhor [Yahweh no Salmo], no princípio fundaste a
terra, e os céus são obra de tuas mãos..." No Salmo 102, o salmista
faz uma oração direcionada exclusivamente a Yahweh (conforme os
versículos 1, 12, 15, 16, 18, 19, 21 e 22 do mesmo). No entanto, o autor de
Hebreus pega os versículos 25 a 27 desse Salmo e os aplica diretamente a Jesus.
Os trinitários usam isso para dizer que a primeira pessoa (o Deus Pai) está
chamando a segunda pessoa (o Deus Filho) de Yahweh e Criador nesse Salmo, demonstrando
a pluralidade de pessoas com esse nome na eternidade.
Refutação: o Salmo 102 é, do início ao fim, a
oração aflita de um servo direcionada ao único Deus de Israel (Yahweh). Não há
o menor vestígio de "diálogo entre pessoas da Trindade" no Antigo
Testamento nesse Salmo. Por que o autor de Hebreus aplica esse Salmo a Jesus? A
resposta hermenêutica é clara: para provar aos leitores hebreus que Jesus
Cristo não é um agente criado, uma força intermediária ou um anjo (que é o
tema central de Hebreus 1). Ao aplicar o Salmo 102 a Jesus, o escritor de
Hebreus está dizendo: "Sabe Aquele Yahweh de quem o Salmista falou, que
fundou a terra e os céus? Ele é a divindade que habita em Jesus". A
mente criadora que projetou o cosmos é a própria divindade que se manifestou no
homem Jesus. Aplicar o texto de Yahweh a Jesus é um atestado de identidade
absoluta (Jesus é Yahweh encarnado), e não de divisão pessoal.
(5) Isaías 48:16 diz: "Chegai-vos a mim,
ouvi isto: Não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que aquilo
se fez eu estava ali, e agora o Senhor Yahweh me enviou a mim, e o seu Espírito."
Os trinitários afirmam que este é um dos textos mais explícitos da Trindade no
Antigo Testamento. Eles identificam o orador (que afirma estar ali desde o
princípio) como o Messias pré-existente (o Deus Filho). Assim, teríamos o Deus Filho
sendo enviado por Yahweh (o Deus Pai) e pelo Seu Espírito. Três
pessoas distintas envolvidas na mesma ação.
Refutação: o argumento trinitário é que o
Messias pré-existente está dizendo que foi enviado por duas outras pessoas
(Yahweh e o Espírito). Refutação 1 (O Contexto do Orador): uma leitura
atenta do livro de Isaías mostra que quem está falando no versículo 16 é o
próprio profeta Isaías, e não o Messias. Isaías está defendendo o seu
comissionamento profético diante do povo rebelde, afirmando que, desde o início
do seu ministério, ele não falou em segredo e que agora o Senhor Deus o havia
enviado revestido com o Seu Espírito. Refutação 2 (A Linguagem Semita do
Espírito): Mesmo se um trinitário tentar forçar a aplicação desse texto ao
Messias, a ideia de que "o Espírito" é uma terceira pessoa separada é
completamente alheia ao pensamento hebraico. Na teologia do Antigo Testamento,
o Espírito de Deus (Ruach) é a própria presença ativa, a força e a
influência do próprio Yahweh em ação (assim como o espírito do homem é o
próprio homem). Dizer que "Deus e o Seu Espírito" enviaram alguém é
uma forma enfática e poética de dizer que o Deus Onipresente comissionou aquela
missão com poder (ao profeta). Tentar extrair uma "Trindade de
pessoas" de uma expressão idiomática hebraica é violar a hermenêutica e
impor conceitos da filosofia grega tardia sobre um texto semita antigo.
(6) Joel é associado a Romanos: em Joel 2:32 está
escrito: "Todo aquele que invocar o nome de Yahweh será
salvo". Em Romanos 10:9-13, Paulo cita exatamente esse
versículo de Joel e o aplica diretamente a Jesus, concluindo que Jesus é o
"Senhor" (Kyrios, a tradução grega para Yahweh na Septuaginta)
que deve ser invocado. Da mesma forma, Isaías é associado a Filipenses: em Isaías
45:23, Yahweh jura por si mesmo: "...diante de mim se dobrará
todo o joelho, e por mim jurará toda a língua". Em Filipenses
2:10-11, Paulo pega essa exata prerrogativa exclusiva de Yahweh e afirma
que ela pertence ao nome de Jesus. Para os trinitários, isso prova que Jesus
compartilha da identidade e do nome de Yahweh.
Refutação: a associação de textos do VT
que falam de Yahweh a Jesus no NT, como os supracitados, não prova a Trindade,
mas, o Unicismo. A explicação bíblica e lógica é muito simples:
Jesus recebe os títulos, adoração e profecias de Yahweh porque Ele é o
próprio Yahweh manifestado em carne. Não se trata de uma "segunda
pessoa" herdando o nome da essência, mas do próprio Deus do Antigo
Testamento vestindo-se de humanidade. O nome "Jesus" significa
literalmente "Yahweh é Salvação". Portanto, quando Jesus
é exaltado, é o único Yahweh sendo glorificado na face humana de Cristo.
Outrossim, Jesus nunca afirmou ser uma "segunda pessoa" que
compartilhava o nome Yahweh com outras duas. Pelo contrário, em João
8:54, Jesus diz aos judeus: "Se eu me glorifico a mim mesmo, a
minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai, o qual vós dizeis que é o
vosso Deus". Como os judeus diziam que o Deus deles era Yahweh e
o próprio Jesus define que a identidade de Yahweh corresponde à pessoa do Pai,
logo, quando a Escrituras associa Jesus a Yahweh não se tratam de pessoas
separadas que dividem esse mesmo nome na eternidade. Jesus é a manifestação
visível do próprio Pai na carne (João 14:9).
III - A Síntese das Refutações
Em determinado momento, quando Jesus foi perguntado sobre o maior mandamento da Lei por um escriba (Marcos 12:28), Ele citou o Shemà, dizendo que “Yahweh é o único Deus” e calou-se quando o escriba complementou Suas palavras dizendo “com verdade disseste que há um só Deus e não há outro além dele”.
Se houvesse de fato três pessoas
distintas na divindade, o silêncio de Jesus sobre o conceito trinitário representaria
a validação de um erro judaico. Contudo, ao concodar que "não há outro
além de Yahweh" (no singular) através do silêncio, Ele chancelou
historicamente o monoteísmo estritamente unicista, terminando por dizer que o tal escriba, ao responder sabiamente, não estava "longe do Reino de Deus" (v. 34).
Portanto, fica claro que o Novo Testamento não veio para
revelar "novas pessoas" na divindade, mas, sim, mostrar de maneira simples e cristalina o "mistério da piedade",
i.e., como o único Deus invisível (o "Pai") se fez visível (o "Filho") para a nossa
salvação (1 Timóteo 3:16).
Já, os argumentos trinitários dependem de forçar regras gramaticais artificiais no Antigo Testamento (como inventar dois "Yahwehs") e de tentar justificar conceitos filosóficos gregos tardios dentro de um texto eminentemente monoteísta e semita. Diante do crivo da linguagem bíblica, a barreira do Shemá permanece intacta: Yahweh é uma única Pessoa Absoluta.
Conclusão
Todos os esforços trinitários para pulverizar o nome Yahweh
em três pessoas falham porque eles tentam ler o Antigo Testamento com as lentes
dos Credos de Niceia e Calcedônia.
Quando a Bíblia é lida a partir do seu próprio
contexto original e sem a herança da hibridização filosófica romana, o
monoteísmo radical do Shemá permanece inabalável: Yahweh é um só
(Echad). Todas as vezes que Jesus realiza as obras de Yahweh, recebe a
adoração de Yahweh ou cumpre as profecias de Yahweh, as Escrituras não estão
revelando uma "segunda pessoa cooperando com a primeira", mas sim o
próprio Yahweh agindo de forma visível e soberana através do Seu "Plano de Redenção", ao qual chamou de "Filho".
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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