Uma Questão de Raciocínio Lógico: Onde Há Esvaziamento (ekenōsen) Não Pode Haver Plenitude (pleroma)

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento

Muitas vezes, ao tentarmos defender a divindade de Jesus, corremos o risco de criar um personagem que não existe nas Escrituras: um "super-homem" espiritual. Uma espécie de herói que andava pela Terra fingindo ter limitações, um "Deus-homem" que apenas fazia de conta que sentia cansaço, fome ou que não sabia o dia e a hora do Seu retorno.

Se Jesus estivesse operando na Terra com Seus atributos divinos de poder ativados (onipresença, onisciência, onipotência, imutabilidade, imortalidade, eternidade, auto existência, indivisibilidade, infinitude, eternidade, soberania suprema, etc.), Sua experiência humana teria sido um teatro. 

Quando Ele afirmou, por exemplo, “não posso de mim mesmo fazer coisa alguma” (João 5:30) e As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo” (João 14:10), seria um jogo de faz de conta e um engano se isso não fosse a mais pura verdade. Portanto, para que Jesus fosse homem, a Kenosis (o esvaziamento) de si mesmo precisou ser real e radical.


1 - O que a Bíblia quer dizer com "Semelhante em tudo"?

O autor da epístola aos Hebreus destrói qualquer ideia de um Jesus "privilegiado" por superpoderes ocultos: "Por isso, convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas de Deus, para expiar os pecados do povo." (Hebreus 2:17). A expressão "em tudo" não deixa margem para exceções metafísicas.

Se Jesus retivesse o uso de Seus atributos incomunicáveis de poder na Sua caminhada terrena, Ele não seria semelhante a nós. Um homem que vence a tentação porque tem um "seguro divino" não pode servir de modelo para nós, que lutamos na fragilidade da carne. Jesus venceu o pecado não porque era um "Deus-homem" imune, mas porque foi um homem perfeito, totalmente dependente do Espírito Santo que veio sobre Ele nas águas do santo batismo (Lucas 3:22; Lucas 4:18-19; Atos 10:38).

Nota: a imagem abaixo mostra uma representação do "Mito do Andrógino", contido na obra "O Banquete", do filósofo grego Platão (428–348 a.C.). No centro e à direita, destaca-se a figura com "Natureza Dual: Metade Homem, Metade Deus", dividida entre o lado "Mortal" (humano, terrestre) e o lado "Divino" (iluminado, celestial). Como a teologia católica romana tradicional rejeitou a visão da kenosis radical, descrita em Filipenses 2:7, devido à forte influência da filosofia grega clássica (particularmente de Platão e Aristóteles), essa figura faz uma ponte entre o pensamento grego e a ideia de que "Jesus possuia duas naturezas" através do conceito de reunificação da dualidade e da perfeição divina. Na mitologia e na filosofia antiga, o andrógino original não era apenas um humano duplo, mas um ser com poderes quase divinos que desafiou os próprios deuses do Olimpo. No século XIX, teólogos protestantes liberais (os chamados "quenóticos" alemães, influenciados por Hegel) propuseram a kenosis ontológica, i.e.,  a ideia de que, para se tornar um homem perfeito, o Verbo de Deus abdicou temporariamente de seus atributos divinos, conforme Hebreus 2:17. Contudo, a teologia católica — fortemente moldada pelo pensamento de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino (pelo aristotelismo cristão) — rejeitou veementemente essa teoria com base na "imutabilidade de Deus" e por causa do Concílio de Calcedônia (451 d.C.), que havia estabelecido (como verdade indiscutível) a heresia da "união hipostática" (duas naturezas em Jesus). Ocorre que a imutabilidade de Yahweh está sempre relacionada nas Escrituras ao Seu caráter  e aos Seus planos, bastando considerar o contexto dos versos que são tomados como base para esse grave erro teológico (Malaquias 3:6; Tiago 1:17; Hebreus 13:8).

Imagem gerada por Google AI, 2026.


2 - O Esvaziamento Real vs. O Jogo de Faz de Conta

Em Filipenses 2:7, o termo grego ekenōsen nos mostra que Yahweh se esvaziou de si mesmo. No entendimento unicista, esse esvaziamento não foi de identidade — Ele continuou sendo o Próprio Deus manifesto em carne —, mas foi uma subtração real de Seus atributos de poder, a fim de que pudesse ser igual a cada um de nós (exceto em relação ao pecado)

Se não houve esvaziamento real, caímos em contradições graves:

·  Quando Jesus sentia cansaço, era apenas encenação?

· Quando Ele orava ao Pai pedindo forças, era um monólogo didático para os discípulos verem?

· Quando Ele dependeu do Espírito Santo no batismo para iniciar Seu ministério, aquilo foi um simbolismo vazio?

A verdade bíblica é muito mais profunda: Yahweh abriu mão de Seus privilégios cósmicos para viver a limitação humana na pele. O Espírito Santo que repousou sobre Ele no batismo não era um acessório, era a fonte de Seu poder ministerial, exatamente como é para nós (Ezequiel 36:26-27).

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3 - Entendendo a "Plenitude" em Colossenses

Mas se Ele se esvaziou de Seus atributos de poder, como entender textos como Colossenses 1:19 e 2:9, que dizem que n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade?

Logicamente, se houve esvaziamento (subtração), a palavra "plenitude" (pleroma) não pode significar que Jesus estava operando com todos os atributos metafísicos na Terra, i.e., fica claro que algo necessariamente foi subtraido de Seu ser, a fim de que Ele pudesse tornar-se um homem perfeito e cumprisse Sua missão na terra.

Pergunta: o que Deus tem que nós humanos não temos? Resposta: os atributos de poder. Portanto, foi exatamente isso que Yahweh obrigou-sea abrir mão para que pudesse satisfazer a Sua própria justiça (vida humana por vida humana, através de um substituto).

O contexto de Colossenses e Efésios nos dá a chave interpretativa correta. A plenitude em Jesus significa que:

1. Ele é a Realidade, não a Sombra: enquanto o Antigo Testamento tinha sombras (o templo, os sacrifícios, o maná), Jesus é a realidade plena de tudo isso. Ele é o nosso altar, o nosso sacrifício e o nosso tudo em todos (Colossenses 3:11).

2. Ele é o Depósito da Sabedoria: n’Aquele homem estavam escondidos todos os tesouros da ciência e da sabedoria divinas (Colossenses 2:3), reservados para os que creem.

3. Ele é a Resposta ao nosso Vazio: enquanto a humanidade estava em trevas, desolação e vaidade, habitava n’Ele a plenitude de tudo o que diz respeito à vida e à reconciliação (Efésios 1:10).

4. Ele é Antes de Tudo e Cabeça da Igreja: enquanto Palavra de Deus (emanação de Yahweh, o Espírito da Sua boca), Jesus é antes de tudo, criou todas as coisas e mantém tudo em perfeito funcionamento (Salmos 33:6; Colossenses 1:16-18; Apocalipse 1:17-18).

Nota: na passagem de Colossenses 2:4-13, o apóstolo Paulo alertou a igreja para a importância de não dar ouvidos a “palavras persuasivas”, a fim de não se tornar presa fácil de “filosofias e vãs sutilezas, segundo as tradições de homens, segundo os rudimentos do mundo”, e para que os cristãos estejam arraigados e edificados em Jesus, que é o cabeça de todo principado e potestade, o responsável pela circuncisão do coração dos cristãos, aquele em quem os cristãos foram mortos, vivificados e justificados, não havendo necessidade de recorrer a qualquer outra pessoa ou coisa. Dessa forma, a "plenitude" daquilo que os cristãos precisam para a salvação está n’Ele e não em qualquer outro, sendo esse o sentido dessa expressão usada pelo apóstolo Paulo no texto bíblico.


Conclusão: A Glória do Sacrifício Perfeito

Jesus não foi um ator divino interpretando um papel humano. Ele foi a expressão perfeita da glória de Yahweh (Hebreus 1:3), o princípio e o fim de todas as coisas, caminhando entre nós como um homem real (a Palavra de Yahrh feita carne), de tal forma que todo aquele que confessa essa verdade é de Deus e quem não a confessa é um anticristo (1 João 4:3).

Somente quando compreendemos a kenosis radical é que podemos valorizar o Seu sacrifício. Ele sentiu o peso da tentação, a dor dos cravos e a agonia da cruz sem nenhum "amortecedor" divino. Ele se esvaziou do Seu poder para que nós pudéssemos ser cheios da plenitude da Sua graça. 

Imagem gerada por Google AI, 2026.

Reflexão Final: 

Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe acomodar-se e manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo [Salmos 82:1]. 

Foi por esse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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