A "Escolástica Protestante": Supremacia da Fé Trinitária na Academia e nos Púlpitos
Marcelo Victor R. Nascimento
A Escolástica Protestante ou Ortodoxia
Protestante foi um dos momentos mais decisivos para a consolidação da
teologia que hoje é considerada "ortodoxa" no mundo protestante (defendida como verdade suprema e indiscutível, e tomada como parâmetro para classificar uma instituição e pessoas como cristãs legítimas ou não).
Tratou-se de um movimento que dominou a Europa entre o
final do século XVI e o início do século XVIII (aproximadamente entre 1560 e
1730), e que se caracterizou pela institucionalização e blindagem da teologia
protestante ("reformadora") contra as dissidências.
Conheçamos de forma breve as principais características
dessa fase da cristandade.
1. O que foi a Escolástica Protestante?
Os reformadores originais (como Lutero e Calvino)
escreveram de forma muito passional, pastoral e contextual, reagindo aos abusos
de Roma. Eles usavam a Bíblia, mas não criaram um sistema filosófico fechado e
ultra-detalhado.
No entanto, duas gerações depois, os herdeiros da Reforma enfrentaram um problema: eles precisavam gerenciar universidades, treinar pastores em massa, debater de igual para igual com os jesuítas católicos (que eram mestres na lógica) e definir por lei as fronteiras das religiões estatais.
Para fazer isso, os teólogos protestantes (como Theodore
Beza na Suíça, Johann Gerhard na Alemanha e Francis Turretin
na França/Suíça) fizeram algo irônico: eles ressuscitaram o método dos
escolásticos católicos medievais (como Tomás de Aquino) e a filosofia de
Aristóteles.
2. As Principais Características desse Período
A. O Triunfo do Método Lógico e da Filosofia: a Bíblia deixou de ser lida apenas de forma narrativa ou histórico-gramatical e passou a ser tratada como um compêndio de axiomas lógicos. Os teólogos usavam a lógica aristotélica para deduzir doutrinas nos mínimos detalhes, criando as chamadas Loci Communes (Sistemas de Teologia Sistemática).
B. A Blindagem da Ortodoxia (Os Credos): foi nessa época que nasceram as grandes e rígidas confissões de fé protestantes, como as Cânones de Dort (1619) e a Confissão de Fé de Westminster (1647). Esses documentos funcionavam exatamente como o "selo de ortodoxia" que mencionamos antes: quem não assinasse embaixo ou questionasse a lógica ali exposta perdia a cátedra universitária, era exilado ou excomungado, como ocorria no mundo católico romano.
C. A Institucionalização do Ensino: a teologia tornou-se uma ciência de gabinete, altamente especulativa, focada em debates acadêmicos exaustivos sobre decretos divinos, a natureza de Deus e a mecânica da salvação.
Em suma, a existência da Escolástica Protestante prova
um ponto crucial: os protestantes históricos não abandonaram a estrutura
filosófica que os católicos herdaram de Roma e da Grécia.
Conclusão
Embora os reformadores tenham gritado "Sola
Scriptura" (Somente a Escritura), a geração seguinte percebeu que,
para manter o poder político e a ordem nas universidades, precisava de dogmas
estáticos. Eles mantiveram intactas as definições sobre a Trindade e a natureza
da alma estabelecidas em Niceia e Calcedônia, usando a metafísica grega para
defendê-las de forma ainda mais rígida do que os próprios católicos.
Se hoje um seminário presbiteriano ou reformado tradicional demite um professor que questiona a metafísica clássica, ele está apenas operando o mesmo "software" que foi programado pela Escolástica Protestante no século XVII.
Reflexão Final:
É perfeitamente possível traçar um paralelo entre os "heróis da fé" de Hebreus 11 e um professor demitido no mundo contemporâneo por questionar a metafísica clássica. Salvo melhor juízo, essa comparação traz à tona algo marcante sobre o que significa viver pela fé em diferentes momentos da história da Igreja (a verdadeira Igreja de Cristo formada pelos "verdadeiros adoradores" mencionados por Jesus em João 4:23). Guardadas as devidas proporções, ambas situações parecem tratar da fidelidade a Deus, ainda que sob lógicas distintas.
Os heróis da fé — como Abraão, que saiu sem saber para onde
ia, ou Moisés, que recusou os tesouros do Egito — viveram uma fé baseada na esperança
de coisas que não se viam e na promessa de um futuro móvel. Eles romperam
com o status quo de suas épocas, caminhando rumo ao desconhecido sob o
comando divino. Já, o sistema da Escolástica Protestante do século XVII operava
na lógica da manutenção e defesa, pois objetivo principal não era o salto
para o desconhecido, mas a blindagem e a definição cirúrgica da ortodoxia
contra aquilo que consideravam "desvios teológicos".
Sob essa lente analítica, o professor que questiona a
metafísica clássica (e acaba demitido) assume um papel muito parecido com o dos
personagens de Hebreus (os "heróis da fé"). Isso, porque ele troca a segurança institucional e o
conforto do "sistema programado" pela busca honesta da verdade,
aceitando sofrer as consequências (a demissão) por não se curvar a uma
estrutura rígida, assim como os profetas e mártires do passado enfrentaram
grandes provações.
Enquanto o seminário tradicional pune o questionamento para
proteger o "firme fundamento" de sua própria tradição sistematizada,
o texto de Hebreus nos lembra que o verdadeiro fundamento do cristão legítimo (comprometido com a verdade) é a
própria confiança em Deus — algo que frequentemente exige coragem para
questionar as certezas humanas de uma época.
Nota Teológica: o autor de Hebreus
11 mostra que a fé não trouxe apenas vitórias, mas também força para suportar
sofrimentos extremos. A partir do versículo 35, o texto detalha as perseguições
terríveis que esses heróis enfrentaram por amor e fidelidade a Deus, tais como:
· Tortura: muitos foram torturados e recusaram o resgate para obter uma
ressurreição melhor.
· Escárnios e açoites: enfrentaram zombarias públicas e agressões
físicas.
· Prisões: foram acorrentados e jogados em masmorras.
· Apedrejamento: terminaram mortos por multidões enfurecidas.
· Serrados ao meio: sofreram execuções cruéis e violentas.
· Morte à espada: foram assassinados pelo poder do Estado.
· Privação extrema: andaram errantes, vestidos com peles de
ovelhas e de cabras.
· Miséria e maus-tratos: viveram necessitados, aflitos e maltratados
pelo mundo.
· Exílio: foram isolados em desertos, montes, cavernas e covas da terra.
O versículo 38 resume a integridade dessas pessoas com uma frase marcante: "dos quais o mundo não era digno". O texto conclui que, apesar de terem sido rejeitados pela sociedade, todos eles receberam um bom testemunho por causa da sua fidelidade.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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