A “Síndrome de Filipe” e o "Espírito do Anticristo"
Em Apocalipse 19:12-13, João contempla o Verbo de Deus
em Sua vinda gloriosa e registra um detalhe intrigante: “Seus olhos são como
chama de fogo... e tem um nome escrito que ninguém conhece, senão Ele mesmo.”
Por que esse nome é dito como algo que “ninguém
conhece”? Será que se trata de uma sequência secreta de letras? Ou o
“desconhecimento” desse nome aponta para algo muito mais profundo?
1. A Linguagem Bíblica para Nome
Na linguagem bíblica [na cultura hebraica], conhecer
o nome de uma pessoa significa reconhecer a verdadeira essência, autoridade e identidade
daquele que o carrega. O mistério do nome desconhecido em Apocalipse 19:12 parece não
apontar para um enigma fonético, mas parece refletir a cegueira espiritual da
humanidade — a mesma cegueira que afetou o apóstolo Filipe naquele Cenáculo em que Jesus reuniu-se com Seus apóstolos para comemorar a última páscoa.
Quando Filipe disse: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta [para crermos]” (João 14:8), ele estava cometendo o mesmo erro dos judeus daquela geração que pediam sinais a Jesus para crer (João 10:38) e o mesmo erro que muitos cometem até hoje: procurar o Pai ao lado ou atrás de Jesus. Isso, sem contar o fato de que Filipe, com essa fala, confessou publicamente que as maravilhas realizadas por Jesus, Seus ensinamentos, Seu testemunho de amor e as curas milagrosas não bastavam para mostrar quem Ele realmente era (o Emanuel — Deus conosco), precisando de algo mais.
A resposta do Mestre foi categórica: “Há tanto
tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai...”
(João 14:9).
Nota Textual: o fato de haver na coroa que Jesus trazia na cabeça um nome que "ninguém conhece, senão Ele mesmo [Jesus]" (Apocalipse 19:12), por certo não está ligado auma questão gramatical, mas refere-se à essência divina de Jesus que é tão insondável que nenhuma mente criada (humana ou angelical) pode compreendê-La por completo. Como homem, Jesus podia ser conhecido e tocado, mas como Deus Supremo, Sua natureza e glória infinitas ultrapassam todo o entendimento do universo, algo que está comprovado nas falas de Filipe e Tomé, os quais, não percebendo a sublimidade da Sua presença, exigiram do Mestre provas materiais para crer (João 14:8; João 20:25,27,29). O verbo hebraico yada‘ (ידע - "conhecer") não se refere a um saber intelectual ou à pronúncia fonética de um substantivo, mas a algo muito mais profundo. Em Êxodo 6:3, por exemplo, vemos que os patriarcas conheciam muito bem o termo Yahweh (o Nome de Deus), mas não haviam experimentado a plenitude de Sua ação libertadora; por isso, o Senhor diz: "Não lhes fui pefeitamente conhecido". Assim sendo, fica claro que Deus se faz "conhecer" (yada‘) por meio de Suas obras de salvação, juízo, leis e aliança (Êxodo 31:13; Ezequiel 20:12,20). Ou seja, conhecer o Seu Nome significa reconhecer e vivenciar a presença, essência e autoridade do Deus vivo em ação. Outrossim, na Velha Aliança, Yahweh profetizou que viria o dia em que Seu povo saberia o Seu Nome ao reconhecer que Aquele que lhes falava "Eis-me aqui" era quem estava diante deles face-a-face (Isaías 52:6), refeindo-se a Jesus. E não só Israel O conheceria, mas até mesmo as nações gentílicas experimentariam o Seu poder, amor e graça (Malaquias 1:11; Jeremias 16:21; Ezequiel 36:23; Ezequiel 39:7; Ezequiel 38:23; Salmo 83:18; Filipenses 2:10-11), não pelo ensino da gramática hebraica, mas pela Sua presença santa e pela sublimidade do Espírito amoroso da Sua boca (Romanos 5:5; João 13:35). Isso cumpriu-se na pessoa de Jesus (Yeshua = "Yahweh é Salvação"), em quem o Nome de Yahweh, o único Deus, alcançou os confins da terra.
2. O Tropeço do Mundo
O mundo e os sistemas teológicos frequentemente
tropeçam na revelação maravilhosa do Emanuel, ainda mais quando lançam mão de filosofias e vã
sutilezas, citadas pelo apóstolo Paulo como altamente prejudiciais para a fé cristã: “Tende
cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não
segundo Cristo” (Colossenses 2:8).
O referido apóstolo havia predito que depois da sua
partida surgiriam “lobos cruéis" que não poupariam o rebanho; e que de entre os próprios cristãos levantar-se-iam homens
que falariam coisas perversas, para atraírem os discípulos si, i.e., após às suas doutrinas falsas e anticristãs
(Atos 20:29-30).
Foi dessa maneira que os teólogos da Idade Média criaram um ser distinto de Yahweh para dar sua vida na cruz em Seu lugar, incapacitados de enxergar que o Nome e a Identidade de Jesus revelam a presença do próprio Deus Supremo entre os mortais, um Nome que continua sendo "desconhecido" para aqueles que se recusam a admitir e confessar que Jesus é o Próprio Yahweh manifestado em carne.
Nota Textual: a expressão “vir em carne”, em 1 João 4:2-3, não
significa negar a existência de Jesus, algo que os próprios cientistas e a maioria dos estudiosos (incluindo estudiosos ateus) aceitam tranquilamente quando olham para os documentos históricos. Aliás, nem mesmo as religiões espalhadas pelo mundo negam essa verdade histórica encontrada em diversos escritos dos primeiros séculos da Era Cristã. Contudo, a crença de que Jesus era uma "segunda pessoa divina", vestida com uma "capa" humana e portadora dos atributos de poder, parece ser o alvo da profecia feita pelo apóstolo João na passagem supracitada. Isso, porque tal crença vira as costas para a simplicidade do Evangelho, abraça conceitos extrabíblicos e presta culto aos filósofos gregos (pagãos), arrastando uma multidão de pessoas após si, exatamente como profetizou o apóstolo Paulo que aconteceria depois da sua partida (Atos 20:29-30). As Escrituras afirmam que o Deus Todo-Poderoso (Yahweh), movido por um amor entranhável, escolheu esvaziar-se dos Seus atributos de poder (Filipenses 2:7) e submeter-se voluntariamente às limitações da condição humana, vindo a sentir fome, sede e cansaço, a sofrer tentação
e a passar verdadeiramente pela morte. Já, os sistemas teológicos inventados pelos teólogos da Idade Média afirmam que Jesus simplesmente escolheu não usar Sua "natureza divina" (omnipotência e
omnisciência, por exemplo), atenuando a
realidade da Encarnação e criando um "duplo ser" ou um "deus
mitológico" (híbrido) que fingia ser homem, participando de um "jogo de faz-de-conta", em oposição ao que está registrado em Hebreus 2:17: "Por
isso convinha que, em tudo, fosse feito semelhante aos irmãos". Os que assim pensam são classificados por João como "enganadores" e "anticristos", i.e., pessoas guiadas pelo "espírito do erro" e que "não pertencem a Deus", destinadas à perdição eterna (1 João 4:3; 2 João 1:7).
3. O Mistério de Deus em Colossenses e Efésios
Nas cartas paulinas, a palavra grega mysterion
não significa algo indecifrável ou impossível de entender, mas sim uma verdade
antes oculta nos tempos do Antigo Testamento que foi abertamente revelada na
era da graça.
Quando observamos Colossenses 2:2, Colossenses 4:3 e
Efésios 3:4-6 (junto com 1 Timóteo 3:16 e Colossenses 1:26-27), a palavra "mistério"
abrange dois aspectos centrais e inseparáveis:
(2) A Inclusão dos
Gentios num Só Corpo:
o Em Efésios 3:4-6, Paulo detalha o desdobramento
prático desse mistério: os gentios, antes separados das promessas de Israel,
agora tornaram-se coerdeiros e membros do mesmo corpo por meio de Cristo. Deus
unificou toda a humanidade sob a Sua presença encarnada.
(1) A Encarnação
do Próprio Deus (A Manifestação na Carne):
o
Em Colossenses 2:2-3 e 2:9, Paulo afirma expressamente
que o mistério de Deus é Cristo, em quem habita corporalmente toda a plenitude
da divindade.
o
Sob a ótica unicista, o grande mistério que esteve
oculto nas eras passadas é que o Deus invisível e transcendente dos hebreus (Yahweh)
não enviou uma pessoa distinta de Si para salvar o mundo, mas Ele mesmo esvaziou-se de Si mesmo, assumiu a forma humana e habitou entre os
homens (Fp 2:6-8; Is 9:6; Jo 14:9; 1 Timóteo 3:16; Ezequiel 34:11,12; Isaías
7:14; Mateus 1:23).
Portanto, na visão teológica unicista, além da
inclusão dos gentios na Nova Aliança, o mistério central é a encarnação do
único Deus verdadeiro em Jesus Cristo — o Criador pisando na criação como o verdadeiro Emanuel ("Deus conosco"), anunciado em Isaías 7:14.
4. O Nome Oculto de Apocalipse 19:12
Dizer que Jesus tem um nome escrito que "ninguém
conhece, senão Ele mesmo" parece contrastar com as profecias acerca do
conhecimento universal do Nome de Yahweh. Na realidade, a passagem de
Apocalipse19:12 parece apontar para a cegueira espiritual da humanidade e dos
sistemas religiosos (a "Síndrome de Filipe", descrita em João 14:8-9).
O mundo pronuncia o nome de Jesus, mas não conhece (yada‘)
a Sua real Identidade: não confessa nem reconhece que Ele é o próprio Yahweh
encarnado, o Deus Todo-Poderoso e o Emanuel prometido.
Portanto, o mistério do Nome não é um segredo
fonético, mas a revelação de que o Nome Salvador de Jesus revela a presença
pessoal do próprio Yahweh — uma verdade oculta aos olhos da religião formal,
mas revelada pelo Espírito àqueles que experimentam (yada‘) o Criador
habitando entre nós (os que O adoram em Espírito e Verdade).
Clique no vídeo e veja um breve relato sobre Apocalipse 19.
Reflexão Final:
Na apologética unicista, a negação da kenosis
radical e a rejeição da Unicidade de Deus podem ser identificadas com a
mentalidade descrita em 1 João 4:3: “Nisto conhecereis o Espírito de Deus:
todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo
espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas
este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que
está já no mundo”. Isso, porque os incrédulos das verdades bíblicas (e
crentes na filosofia platônica e aristotélica):
(1) Diluem a
Encarnação: transformam o "vir em carne" em um mero ato exterior, onde
Deus não se esvaziou de verdade (Filipenses 2:7), mas apenas
"adicionou" a natureza humana em um ser divino separado de si (uma segunda pessoa), tornando-o um
ser híbrido, diferente dos demais homens, ao contrário do que afirma Hebreus 2:17, que diz Jesus
foi EM TUDO igual aos irmãos.
(2) Negam o
Sacrifício do Criador: rejeitam a verdade revelada de que foi o próprio
Yahweh que sentiu a dor da humanidade e que verteu o Seu próprio sangue no duro madeiro da cruz, como relata o escritor bíblico em Atos
20:28.
(3) Resistem à
Revelação do Nome: ficam cegos para a revelação de que o Nome de Jesus
traz a presença pessoal do Pai, manifestada na fraqueza da carne, a fim de nos
salvar (1 Timóteo 3:16).
Portanto, defender a kenosis e o Unicismo não é
uma mera discussão acadêmica. Significa defender a própria essência da confissão de que
Jesus Cristo é o próprio Deus que se manfestou em carne.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.





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