Eu Mesmo Resgatarei as Minhas Ovelhas (Ezequiel 34:11-12)

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Marcelo Victor R. Nascimento

Para compreender verdadeiramente o alcance das Escrituras — e em especial a revelação manifesta em passagens como 1 Timóteo 3:16, João 14:9 e Mateus 1:23, que mostram claramente que o próprio Deus manifestou-se em carne —, é preciso ler a Bíblia através da ótica da tipologia e da profecia

Quando olhamos para o Antigo Testamento com olhos atentos (desprovidos de construções filosóficas), percebemos que o Novo Testamento não é um plano "B", mas sim o cumprimento exato e glorioso das promessas feitas pelo único Deus Vivo (Deuteronômio 6:4). Uma das conexões proféticas mais profundas de toda a Bíblia, entre outras, encontra-se em Ezequiel 34 e João 10:11.


1. O Fracasso dos Pastores Humanos e a Promessa Solene de Yahweh

No contexto de Ezequiel 34, os líderes e reis de Israel haviam falhado miseravelmente. Em vez de cuidarem do rebanho de Deus, eles apascentavam a si mesmos, exploravam o povo e deixavam as ovelhas dispersas, feridas e desamparadas.

Diante do fracasso moral e espiritual dos pastores humanos, o próprio Deus toma uma decisão histórica e solene. Yahweh não promete enviar um mero intermediário, um anjo de alta patente ou um segundo agente divino. O próprio Criador declara que Ele mesmo viria: "Porque assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas..."  Ezequiel 34:11-12.

A ênfase do texto original é inquestionável: "Eis que eu, eu mesmo..." (no hebraico, Hineni-ani). É a promessa do Pai em resgatar pessoalmente a Sua criação.


2. O Cumprimento em Jesus: "Eu Sou o Bom Pastor"

Avançando no tempo até aos Evangelhos, encontramos o momento em que a promessa de Ezequiel deixa o plano profético e se torna realidade histórica.

Quando Jesus de Nazaré entra em cena e declara em João 10:11: "Eu sou o bom pastor", Ele não estava apenas usando uma metáfora poética. Para os judeus da época, instruídos nas Escrituras, a mensagem era clara e inconfundível: Jesus estava se identificando diretamente como o Yahweh de Ezequiel 34, e não só com essa passagem, mas com todas aquelas em que Yahweh reinvidica o papel exclusivo de pastor do Seu povo no Antigo Testamento, tais como: Salmo 23:1; Salmo 28:9; Salmo 77:20; Salmo 79:13; Salmo 80:1; Isaías 40:11; Jeremias 31:10).

O Deus invisível, i.e., que nunca tinha sido visto por ninguém (João 1:18; 1 João 4:12; 1 Timóteo 6:16) e que prometeu vir pessoalmente buscar Suas ovelhas, vestiu-se de humanidade para cumprir a Sua Palavra, esvaziando-se de Si mesmo (Filpenses 2:7), fazendo-se menor do que os anjos (Hebreus 2:7) e tornando-se, em tudo, igual aos demais homens (Hebreus 2:17).

Nota: quando as Escrituras Sagradas afirmam que Deus nunca foi visto por ninguém (anulando a possibilidade de teofanias), fica claro que Ele manifestou-se na Antiga Aliança através dos anjos, até mesmo quando apareceu na sarça ardente e quando entregou as tábuas da Lei nas mãos de Moisés (Atos 7.35,38; Atos 7.53; Gálatas 3.18-19; Hebreus 2.2; Isaías 63.9). Houve situação em que os anjos receberam o próprio nome de Deus (Êxodo 23.21), ou foram referenciados, nas Escrituras Sagradas, como se fossem Ele próprio pelo uso da expressão “face-a-face” (Números 12.8). Outro exemplo claro da importância dada por Yahweh aos anjos está em Êxodo 3.7-8, quando vemos um anjo designado por Deus, falando em nome d’Ele e usando a primeira pessoa do singular [“eu”]: “Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci, a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel...” (Êxodo 3.7-8). A Bíblia Sagrada mostra que, até mesmo para certas decisões, Yahweh consulta Seus anjos acatando Seus conselhos, como os seguintes versos que comprovam que eles não são meros expectadores:  “E disse o SENHOR: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade? E um dizia desta maneira e outro de outra. Então saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o induzirei. E   o SENHOR lhe disse: Com quê? E disse ele: Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze assim” (1 Reis 22.20-22). Portanto, as Escrituras Sagradas mostram que a verdadeira e única teofania ocorreu quando Yahweh se fez carne no ventre de uma mulher e veio salvar o Seu povo dos seus pecados (Mateus 1:21; João 1:14).


3. O Mistério da Piedade: 1 Timóteo 3:16

É aqui que a conexão profética deságua no grande "mistério da piedade". O apóstolo Paulo resume essa transição gloriosa ao escrever: "E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória." 1 Timóteo 3:16.

Mediante tal verdade, a Teologia Unicista nos lembra constantemente da seguinte verdade fundamental: não temos dois ou três deuses, nem pessoas distintas operando na história humana. Temos sim um único Deus que se manifestou em carne na pessoa de Jesus Cristo, a fim de aproximar-se de nós, sofrer nossas dores e resgatar pessoalmente Suas ovelhas perdidas (2 Coríntios 5:19).


Conclusão: Pertencemos ao Único Pastor

Ainda que o céu dos céus não possa conter Yahweh (1 Reis 8:27), ainda que Ele transcenda as dimensões conhecidas (Jó 11:8-9) e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e existamos, tamanha é a Sua grandeza (Atos 17:28), o magnífico atributo da onipresença divina (Salmos 139:8-12) permitiu-Lhe, simultaneamente, preencher o universo e acomodar-se, de forma a manifestar-se às Suas criaturas assentado em um trono glorioso (1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3; Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3), onde preside sobre a assembleia celestial e sobre o Universo de uma forma geral (Salmos 82:1).

Foi por esse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo (Filipenses 2:7), a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito (Hebreus 2:17), morrer pelos pecadores, cumprindo perfeitamente o que havia prometido em Ezequiel 34:11-12.

Portanto, quando olhamos para Jesus, vemos o próprio Criador que nos buscou, nos encontrou e nos comprou com o Seu próprio sangue ("Quem me vê a mim, vê o Pai" — João 14:9). Temos apenas um Deus, uma fé e um só Bom Pastor.

Imagem gerada por Google AI, 2026.


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.

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