Batismo Apostólico em Nome de Jesus: A Verdade Sobre Mateus 28:19
Marcelo Victor R. Nascimento
Se você já se perguntou por que a ordem de batizar "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" (Mateus 28:19) parece isolada em todo o Novo Testamento, saiba que essa dúvida não é de hoje. Quando analisamos o texto bíblico com rigor gramatical, histórico e em conjunto com os demais livros, surge uma constatação inevitável: a fórmula tripla não se encaixa na prática apostólica e carrega marcas evidentes de uma adequação litúrgica e política posterior ao ministério dos apóstolos.
Abaixo, analisamos o conjunto de evidências gramaticais, teológicas e
históricas que revelam esse processo.
1. O Problema Gramatical e Linguístico: Títulos não são Nomes
O primeiro grande dilema está na própria estrutura da frase no grego
original (eis to onoma):
· O texto
ordena batizar “no NOME”, utilizando a palavra rigorosamente no
singular.
· O trecho, no entanto, não apresenta um nome próprio, mas sim três títulos ou
funções: Pai, Filho e Espírito Santo.
Gramaticalmente, a frase cria um impasse sintático. "Pai" é um
título de relação; "Filho" é um título de filiação; "Espírito
Santo" é a natureza divina e modo de ação. Ou seja, nenhum desses três termos é um nome (substantivo próprio). De sorte que, para que a instrução de Jesus faça sentido com três entidades distintas, a linguagem
exige o plural ("nos nomes") ou a citação expressa dos nomes
próprios.
A única saída para não violarmos as regras gramaticais do grego nem a telogia bíblica é olharmos para o texto e entender que há um NOME no singular que manifesta o Pai, o Filho e o Espírito Santo, i.e., JESUS.
Nota: para melhor entendermos a incongruência gramatical dessa expressão trinitária, façamos uma analogia de um cartório de registro civil. Imaginemos uma pessoa que vai a um Cartório de Registro Civil para tirar a carteira de identidade ou emitir um documento de cidadania. O tabelião olha para a ficha e faz a pergunta direta sobre a identidade individual: (1) Tabelião: "Qual é o seu NOME?"; (2) Pessoa: "A minha resposta é: Filho, Trabalhador e Cidadão" (esse é o nome da pessoa); (3) Pergunta (aos leitores desta matéria): "Onde está o colapso gramatical e prático nessa resposta?" Resposta: "A confusão está nas categorias gramaticais", pois "Filho" descreve uma relação familiar, "Trabalhador" descreve uma função social e “Cidadão" descreve um status legal. Ou seja, nenhum desses termos é um substantivo próprio (nome próprio); (4) Resultado: o tabelião não pode preencher o campo "Nome:" do documento, pois essas palavras não identificam quem é aquele indivíduo (entre os bilhões de seres humanos que existem). Em outras palavras, se o documento oficial for impresso constando apenas "Filho, Trabalhador e Cidadão", ele será nulo e sem valor jurídico, pois não tem um selo de identidade. Para o documento ter validade, é preciso declarar o Nome Próprio (ex.: Jesus). Assim sendo, a conclusão da analogia é esta: assim como o cartório exige o substantivo próprio (o nome da pessoa) para validar a certidão, da mesma maneira a autoridade e a certidão do batismo exigem a invocação audível do Nome Próprio (que sintetiza o Pai, o Filho e o Espírito Santo): Jesus Cristo.
2. A Falta de Harmonia com os Demais Livros do Novo Testamento
Ao colocarmos em paralelo os relatos da "Grande Comissão" e as instruções
de Jesus no Novo Testamento, a discrepância de Mateus 28:19 torna-se gritante:
· Lucas
24:47: determina que se
pregasse o arrependimento e a remissão de pecados “em seu nome” (no Nome
de Jesus).
· Marcos
16:17: declara que os sinais
acompanhariam os que cressem “em meu nome” (no Nome de Jesus).
· Atos
dos Apóstolos: em 100% dos
batismos registrados na Igreja primitiva, a ordem foi executada
estritamente no Nome do Senhor Jesus (Atos 2:38; 8:16; 10:48; 19:5). Não há um
único registro de invocação verbal dos títulos "Pai, Filho e Espírito
Santo".
· Colossenses
3:17: o apóstolo Paulo
estabelece uma regra absoluta para toda a prática cristã: "E tudo
quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor
Jesus".
Se a ordem de Mateus 28:19 fosse originalmente uma fórmula verbal
tripla, a Igreja Primitiva e o apóstolo Paulo teriam atuado em direta
desobediência a Cristo — o que quebraria a harmonia do Cânon Sagrado.

3. O Padrão Histórico e Teológico: A Queda da Comma Johanneum e o
Isolamento de Mateus 28:19
Esse fenômeno de adequação textual não é isolado. Por séculos, o pilar
mais direto para a defesa da Trindade nas Escrituras foi a famosa Comma
Johanneum (1 João 5:7-8). Quando a ciência da crítica textual
comprovou tratar-se de um acréscimo posterior surgido do latim na Vulgata
— fato hoje reconhecido abertamente inclusive por revisões modernas da
Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) —, a teologia dogmática perdeu seu único
versículo abertamente trinitário.
Com a remoção da Comma, o texto de Mateus 28:19 ficou
completamente isolado no Novo Testamento como a única suposta menção a uma
fórmula tripla. O problema é que, como vimos, esse único texto remanescente:
1. Conflita com a gramática (usar "nome" no singular para três
funções/títulos);
2. Conflita com a prática de todos os apóstolos registrada em Atos;
3. Conflita com o princípio paulino de Colossenses 3:17;
4. Conflita com os relatos paralelos de Marcos e Lucas.
4. O Significado Histórico da Virada de Eusébio de Cesareia
Segundo o renomado historiador e erudito da Universidade de Oxford, Frederick Cornwallis Conybeare, no seu célebre artigo publicado no prestigiado periódico internacional The Hibber Journal (Vol. 1, Outubro de 1902, Pág. 102-108), a virada no padrão de citação de Mateus 28:19 nos escritos do historiador e bispo Eusébio de Cesareia (260–339 d.C.) é uma das evidências documentais mais contundentes de como a alteração em tal versículo ocorreu na prática:
1. O Testemunho dos Manuscritos Primitivos: em suas obras escritas antes do Concílio de
Niceia (como a Demonstratio Evangelica, por exemplo), Eusébio teria citado 18 vezes a passagem de Mateus 28:19 com a seguinte redação, ao ter lido os rolos antigos da Biblioteca de
Cesareia: “Ide e fazei discípulos de todas as nações em meu nome”.
2. A Virada de Niceia e as 50 Bíblias: após o ano 325 d.C., com a consolidação da
teologia nicena e sob ordens diretas do imperador Constantino, Eusébio foi
encarregado de confeccionar 50 Bíblias oficiais em pergaminho para as
igrejas de Constantinopla. Foi a partir desta nova edição estatal que o texto
de Mateus passou a registrar a fórmula tríplice.
3. A Eliminação das Fontes Antigas: como as perseguições romanas anteriores haviam queimado a maior parte dos papiros dos séculos I a III, as 50 Bíblias imperiais de Eusébio tornaram-se a nova matriz padrão que alimentou os códices preservados do século IV em diante (Sinaiticus e Vaticanus).
Conclusão
Para além das
evidências internas do Novo Testamento, a história dos manuscritos e a erudição
bíblica moderna trazem à tona um fato perturbador para a teologia tradicional: a
forte possibilidade de que as palavras litúrgicas de Mateus 28:19 tenham sido
influenciadas por práticas eclesiásticas posteriores.
A alteração no padrão de escrita do próprio Eusébio parece revelar o exato
momento em que a fórmula do batismo sofreu uma adequação dogmática e política —
um movimento idêntico àquele que, séculos mais tarde, fabricaria a Comma
Johanneum em 1 João 5:7-8.
A análise conjunta da gramática, do paralelismo entre os textos bíblicos (Evangelhos, Livro de Atos e Cartas Paulinas) e dos fatos históricos de transmissão
textual do século IV reforça a ideia que a Bíblia aponta para um batismo
administrado no Nome de Jesus, o único Nome dado entre os homens pelo
qual devamos ser salvos.
Clique no vídeo e veja um breve relato sobre Eusébio de Cesareia.
Nota Teológica:
Em Mateus 28:19, há um erro teológico clássico: o texto, como está escrito, viola o conceito bíblico de "Nome". Na teologia bíblica (especialmente na tradição semítica e no Antigo/Novo Testamento), o "Nome" (Shem no hebraico/Onoma no grego) nunca foi apenas uma designação abstrata ou uma lista de qualificadores. Um título descreve o que a pessoa faz ou como ela se relaciona, mas o Nome revela quem a pessoa é.
A Bíblia mostra Deus sempre revelando-se através de Nomes próprios:
(1) Na Antiga Aliança, quando Moisés perguntou quem o enviava, Deus não deu um título genérico, mas revelou o Seu Nome próprio יהוה (Yahweh) (Êxodo 3:14-15); e
(2) Na Nova Aliança, a plenitude dessa revelação atinge o ápice quando o anjo ordena: "Chamarás o seu nome JESUS", que quer dizer “Yahweh é Salvação” (Mateus 1:21).
Portanto, se a revelação do Novo Testamento, no momento da aliança do batismo, se limitasse a nos dar os títulos "Pai”, “Filho” e “Espírito Santo", a igreja estaria recuando para uma linguagem genérica de títulos, em vez de proclamar o Nome de salvação que lhe foi confiado (Atos 4:12), algo incongruente com o padrão bíblico.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




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