O "Filho da Mulher" (Antiga Aliança): "Deus Conosco" (Nova Aliança)
Marcelo Victor R. Nascimento
Começando pelo Jardim do Éden e indo até o Livro de Hebreus, vejamos
como o "Filho da Mulher" acabou revelando-se como "Filho de
Deus" e desvendando o “mistério da piedade”: “E, sem dúvida
alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne…” (1
Timóteo 3:16).
1. A Revelação Progressiva da Identidade do Messias
Quando abrimos as páginas do Novo Testamento, a expressão "Filho
de Deus" aplicada a Jesus nos parece natural e imediata. No entanto,
para os leitores originais das Escrituras Sagradas, a revelação dessa
identidade foi uma jornada progressiva que levou milhares de anos.
Deus não entregou todo o mistério de uma vez só; Ele plantou uma semente
no início da história humana e, século após século, usou reis, profetas e
sábios para expandir a nossa visão sobre quem seria o Redentor da humanidade.
2. O "Filho de Uma Mulher" no Éden e em Moisés
Tudo começou no cenário de crise logo após a queda da humanidade. No
Éden, Deus proferiu o que os teólogos chamam de Protoevangelho (Gênesis 3:15): a
promessa de que a “semente da mulher” — um descendente estritamente
humano, um filho de uma mulher — nasceria para esmagar a cabeça da
serpente.
Séculos mais tarde, Moisés trouxe mais uma peça para esse quebra-cabeça
espiritual, profetizando que Deus levantaria um profeta semelhante a ele
do meio do povo, a quem todos deveriam ouvir sob pena de condenação (Deuteronômio
18:15). Até aqui, a expectativa girava em torno de um homem extraordinário, um
herói humano enviado por Deus.
3. A Expansão na Literatura Monárquica e Profética
A grande reviravolta na teologia bíblica acontece quando essa promessa
começa a ser expandida na literatura monárquica e profética. O Rei Davi, ao
receber a Aliança Divina, e seu filho Salomão, ao reter essa promessa, começam
a registrar que o Messias não seria apenas um líder terreno, mas alguém que
operaria sob uma filiação divina direta.
O profeta Isaías deu um passo além na ousadia profética: ele conectou a
semente humana da mulher de Gênesis ao revelar que o filho nascido de
uma virgem seria chamado de "Deus Forte" e "Emanuel" (Isaías 7:14, 9:6).
Por fim, o sábio Agur, no livro de Provérbios 30:4, elevou o mistério ao nível
cósmico, desafiando a humanidade a decifrar o enigma de quem seria o Filho do
Criador do Universo (o “Plano de Salvação”, elaborado antes da fundação do
mundo por Yahweh).
Em resumo: o Antigo Testamento pegou o "filho da mulher"
prometido no Éden e previu que Ele seria, simultaneamente, o próprio "Filho
de Deus".
4. Quadro
Cronológico da Revelação do "Filho de Deus" no Antigo Testamento
Para
compreendermos como essa revelação se desenvolveu ao longo dos séculos de forma
linear e cumulativa, veja abaixo a linha do tempo dessa construção profética:
|
Período
Estimado |
Autor /
Personagem |
Passagens
Bíblicas |
Revelação do
Texto |
Conexão e
Dependência Teológica |
|
~1010 a.C. a
970 a.C. |
Rei Davi (e o profeta Natã) |
2 Samuel 7:14 |
Deus estabelece a Aliança
Davídica: |
O Fundamento: Inaugura a teologia da
filiação real. O herdeiro do trono de Davi teria um relacionamento paternal
eterno com Deus. |
|
~1000 a.C. |
Rei Davi |
Salmo 2:7 e Salmo 2:12 |
O decreto divino sobre o Rei
Ungido: |
A Menção Direta: Consolida o Messias
como o Filho-Rei gerado por Deus com autoridade absoluta e cósmica sobre as
nações. |
|
~970 a.C. a
930 a.C. |
Rei Salomão |
Contexto Histórico e livros de
Sabedoria |
Salomão assume o trono de Israel
e constrói o Templo de Jerusalém. |
O Cumprimento Inicial: Filho biológico de
Davi, Salomão conhecia os Salmos do pai e viveu sob a "sombra"
direta da promessa de filiação. |
|
~740 a.C. a
680 a.C. |
Profeta Isaías |
Isaías 7:14 e Isaías 9:6 |
Revela a encarnação: |
A Expansão: Baseado no Salmo 2,
Isaías detalha como o Filho viria (nascimento humano) e revela que Ele
teria a própria essência divina. |
|
~700 a.C. a
500 a.C. |
Sábio Agur (Copiado pelos
homens de Ezequias) |
Provérbios 30:4 |
O enigma teológico sobre a
Criação: |
O Enigma: Desafia o leitor a
identificar o Filho do Criador. A resposta já ecoava no Salmo 2 e nas
profecias de Isaías conhecidas na época. |
|
Século I
d.C. |
Autor de Hebreus |
Hebreus 1:5 |
Declara o cumprimento final em
Jesus: |
O Clímax: Une todas as pontas da
linha do tempo, provando que Jesus é o Filho definitivo, superior aos anjos,
profetas e reis terrenos. |
Conclusão: O
Encontro da História com a Eternidade
A análise dessa
linha do tempo nos mostra que a Bíblia não é uma colcha de retalhos teológica,
mas uma narrativa perfeitamente orquestrada. O "filho da mulher"
profetizado no Éden precisava ser inteiramente (totalmente) homem, para poder sofrer, sangrar
e resgatar a humanidade no calcanhar ferido da história. Ao mesmo tempo, os
desdobramentos dados por Davi, Salomão, Isaías e Agur provaram que esse homem seria
chamado de "Filho de Deus" (Hebreus 1:5; Lucas 1:32), com o seguinte detalhe: o Verbo
Eterno esvaziar-se-ia dos Seus atributos de poder (João1:14; Filipenses 2:7), a
fim de ser, em tudo, semelhante aos demais homens (Hebreus 2:17), e, assumindo a condição de Cordeiro de Deus, oferecer-se-ia em sacrifício, para tirar o pecado do mundo (João 1:29).
Quando o autor do livro de Hebreus abre sua carta declarando o cumprimento de todas essas promessas em Jesus, ele está solucionando o grande mistério dos séculos: a encarnação do Verbo Eterno (João 1:14; Apocalipse 19:13). Ou seja, o Profeta de Moisés, a Semente de Eva, o Herdeiro de Davi e o Filho enigmático de Agur convergem na mesma pessoa: o Emanuel, que traduzido é Deus conosco (Isaías 7:14; Mateus 1:23). Portanto, ao olharmos para Jesus Cristo, não vemos apenas um mestre ou um profeta do passado, mas o ponto exato onde a promessa humana e o decreto divino se uniram para sempre.
Reflexão Final:
Ainda que o céu
dos céus não possa conter Yahweh [1 Reis 8:27], ainda que Ele transcenda as
dimensões conhecidas [Jó11:8-9] e ainda que n'Ele vivamos, nos movamos e
existamos, tamanha é a Sua grandeza [Atos 17:28], o magnífico atributo da
onipresença divina [Salmos 139:8-12] permitiu-Lhe, simultaneamente,
preencher o universo e acomodar-se, de forma a manifestar-se às Suas criaturas
assentado em um trono glorioso [1 Reis 22:19; Salmos 47:8; Isaías 6:1-3;
Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 4:2-3], onde preside sobre a assembleia celestial
e sobre o Universo de uma forma geral [Salmos 82:1].
Foi por esse mesmo atributo que Yahweh foi capaz de manter-se assentado no trono da Sua glória e, ao mesmo tempo, esvaziar-se de Si mesmo [Filipenses 2:7], a fim de vir a esta terra e, como um homem perfeito [Hebreus 2:17], morrer pelos pecadores, cumprindo o que havia prometido: "Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão" (Ezequiel 34:11,12). Glória, pois, a Ele eternamente!!! Amém!!!
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.




Comentários
Postar um comentário